Pronunciamento de Damares Alves em 16/04/2026
Discurso durante a 38ª Sessão Especial, no Senado Federal
Sessão Especial destinada a homenagear o legado de Chico Anysio. Ênfase no legado cultural e social de seus personagens, que abordavam diversidade e permanecem atuais. Conclusão de que Chico Anysio simboliza a capacidade de o Brasil rir, refletir e manter a esperança.
- Autor
- Damares Alves (REPUBLICANOS - REPUBLICANOS/DF)
- Nome completo: Damares Regina Alves
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
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Cultura,
Homenagem:
- Sessão Especial destinada a homenagear o legado de Chico Anysio. Ênfase no legado cultural e social de seus personagens, que abordavam diversidade e permanecem atuais. Conclusão de que Chico Anysio simboliza a capacidade de o Brasil rir, refletir e manter a esperança.
- Publicação
- Publicação no DSF de 17/04/2026 - Página 17
- Assuntos
- Política Social > Cultura
- Honorífico > Homenagem
- Matérias referenciadas
- Indexação
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- SESSÃO ESPECIAL, HOMENAGEM POSTUMA, LEGADO, CHICO ANYSIO, HUMORISTA.
A SRA. DAMARES ALVES (Bloco Parlamentar Aliança/REPUBLICANOS - DF. Para discursar.) – Obrigada, Senador Girão, Presidente.
Eu quero cumprimentar essa mesa incrível, todos os senhores, especialmente a Malga. Que alegria recebê-la no Senado! Eu sou sua fã, viu? (Risos.) Eu sou sua fã! Todos os senhores, sejam bem-vindos, os convidados que estão em Plenário!
Eu estou vindo do presídio. Eu passei parte da minha tarde na Papuda. Eu acho que todos sabem que eu sou a Presidente da Comissão de Direitos Humanos, e eu estou numa missão oficial do Senado, visitando os presos do 8 de janeiro, os presos desse recente episódio político que aconteceu no Brasil. É muito triste entrar no presídio. Não sei se alguém aqui já teve a oportunidade de estar no presídio. Tem sido essa a minha vida nos últimos 40 anos, que, para além de Senadora, defensora de direitos humanos, eu também sou pastora, filha de um pastor que viveu dentro dos presídios, cuidando dos presos.
Tem sido essa a minha vida, mas cada visita é uma visita de muita tristeza, e, aqui no Senado, a gente vive esse misto, esse misto de emoção, e esse misto de... Essa pluralidade. Você entra numa sala para falar de câncer, aí você sai, você tem um minuto para se recompor, entrar numa outra sala e falar de segurança pública. Aí você sai correndo. Na próxima sala, você tem que entender de educação. Aí você sai correndo. Na outra sala, você tem que entender de nutrição. Na outra, você tem que entender de medicina. Então, nós trabalhamos com temas muito ecléticos, e que exigem de nós, o tempo todo, estar em alerta, porque os temas estão na mesa, mas isso também desperta em nós um misto de emoções.
Eu tive uma manhã de emoção, que a gente estava discutindo aqui, hoje, pela manhã, a proteção da criança indígena, e todo mundo sabe da minha pauta, eu sou mãe de uma menina indígena que está com 27 anos e que é apaixonada por Chico, os indígenas são apaixonados por Chico. Eu acho que um dia a gente tem que escrever essa relação de Chico com os povos indígenas, porque ninguém nunca escreveu sobre isso. E, para os indígenas, eles às vezes não têm a compreensão do mundo real e do mundo da fantasia. Por muitas vezes, eles achavam que todos aqueles existiam, todos aqueles personagens existiam, e nas minhas andanças nas aldeias, eles me perguntavam se eu conhecia o Prof. Raimundo, ou se eu conhecia o Jovem, ou se eu conhecia a Salomé, para a gente explicar o que é fantasia. Minha filha teve esse problema de entender o que é realidade e fantasia. Hoje de manhã foi uma manhã de emoção, ao receber as crianças indígenas nesta Casa. Aí, logo depois, eu vou para uma sessão de tristeza, porque entrar no presídio é triste. Quando eu estava vindo para cá, eu sabia que eu ia ter uma outra emoção, que é a saudade – a saudade do Chico –, porque o Chico representou para nós um Brasil de sonhos.
Eu sou de uma geração dos apaixonados pelo Chico Anysio, e eu fui menina sobrevivente da violência. Todo mundo conhece a minha história. E, por muitas vezes, o meu amigo era o Chico. Era só ele. Era quem me fazia sorrir de aguardar a programação semanal. Eu era uma criança pobre e a gente tinha que aguardar, na semana, a programação para ver o Chico. E, na expectativa, porque, por muitas vezes, eram os minutos de alegria que eu tinha na vida: era ver o Chico. (Manifestação de emoção.) Mas era um Chico tão distante, porque ele era o artista, ele era, para mim, o maior artista brasileiro – sempre foi, e a gente eterniza isso aqui neste Plenário, hoje. E nunca imaginei que um dia eu seria Senadora e teria a honra de estar, na tribuna do Senado, homenageando o Chico Anysio com a viúva aqui.
Então, são emoções que eu não consigo explicar para vocês, como nós, Senadores, somos despertados a viver emoções o tempo todo. Eu estou muito emocionada e com muita saudade daquele país, muita saudade daquele país que Chico, com os seus personagens, profetizou, porque, quando o Chico Anysio traz o Prof. Raimundo, ele trouxe a diversidade para o debate. Era uma sala diversa, Girão. Talvez vocês nunca tenham pensado nisso. O Brasil estava representado em diversos personagens, Chico lidou com a diversidade e nos desafiou a pensar em diversidade. Quando Chico fazia o papel de uma mulher, ou Chico exaltava uma mulher, numa nação em que mulheres tinham tão poucas oportunidades. Quando Chico falou do jovem – e está tão atual esse personagem. Os personagens do Chico não morrem, não envelhecem. É como se o Chico tivesse sido um profeta. Ele profetizou. Tem diálogos de personagens dele que parecem que foram escritos ontem. Tem diálogos que parecem que foram escritos agora de manhã. Como esse homem viu o que a gente está vivendo hoje e colocou na boca de um personagem? Um bigode e um chapéu o transformavam em um personagem. Ele não tinha inteligência artificial para transformá-lo. Muitas das apresentações tinham que ser ao vivo, no improviso. Como ele superou tudo aquilo?
Então, eu estou muito feliz de estar homenageando... Deus me deu essa honra de estar aqui homenageando. Que alegria! Quantos brasileiros queriam estar no meu lugar perpetuando essa homenagem, porque ela vai ficar eterna. Ela vai ficar nos Anais do Senado.
Mas, além da alegria e da honra, eu juro para vocês que o maior sentimento que me toma hoje é saudade – saudade –, porque Chico sonhou um Brasil também. Chico sonhou com uma nação. Chico nos fez acreditar... E olha que a década de 70 não foi fácil, gente. Eu nasci em 1964 – pronto, falei minha idade –, fui criança na década de 70 no Nordeste pobre. No Nordeste em que as crianças ainda morriam de fome. No Nordeste da desnutrição, da desidratação, das desigualdades. No Nordeste em que mulher não falava. E não foi fácil a década de 70, mas, quando eu olho para Chico, me deu uma saudade da minha infância! Porque era tão difícil, Girão, mas Chico fazia a gente sonhar. Chico fazia a gente acreditar num país melhor, fazia a gente rir e gargalhar dentro das nossas realidades, das nossas necessidades, das nossas dores. Ele despertava o sorriso de quem estava triste.
Então, hoje, o sentimento que me traz aqui, além de agradecer a Deus esta oportunidade de homenagear esse grande homem, esse grande artista – porque as próximas gerações precisam conhecer Chico... Mas eu digo para vocês que Chico, hoje, me desperta uma saudade. Ai, que saudade do Brasil que sonhava! (Manifestação de emoção.)
Eu vim de um presídio falando com pessoas que perderam os sonhos – eu não falo só com os presos de 8 de janeiro; você esbarra no corredor com outros presos. Eu ando pelas ruas do meu país e eu vejo crianças se automutilando, crianças se suicidando. Eu vivi uma realidade em que a gente tinha tudo para desistir da vida, mas a gente sonhava, a gente sorria, Chico fazia a gente rir.
Então, o sentimento que me traz aqui hoje é um sentimento de saudade de sonhar, Girão. Essa geração não está sonhando. Ai, como Chico Anysio faz falta! Como ele faz falta de nos motivar a sonhar, a rir e a acreditar numa nação melhor.
Eu queria que o Brasil fosse uma grande sala do Prof. Raimundo e que as diferenças fossem tratadas daquele jeito que ele tratava – com humor, com respeito –; que os diferentes se amassem como se amavam. Ai, que saudade de todos eles!
Chico Anysio foi mais que um artista: ele foi um profeta. Foi um profeta da alegria. E ele amou esta nação. E foi muito bom ver a Zélia também de longe. Chico amou esta nação. Às vezes incompreendido e injustiçado – a família sabe do que eu estou falando –, mas ele amou este país.
Que Deus abençoe os herdeiros de Chico, que Deus abençoe a família de Chico, que Deus abençoe os amigos de Chico, que Deus abençoe a geração que teve a honra de ter Chico Anysio como artista e que Deus abençoe minha nação.
E que a gente – apesar do medo, da tristeza, da falta de sonho – não perca a capacidade de sorrir, de sonhar.
E que essa saudade que eu estou sentindo daquele momento em que eu sonhava com Chico possa me motivar a continuar aqui na tribuna, Girão, acreditando ainda que é possível rir, gargalhar – apenas com um bigode, um chapéu, um lenço na mão. Esse era o artista que fez o Brasil sonhar.
Obrigada por ter vindo ao Senado.
Obrigada por compartilhar – vocês, da mesa – este momento com a gente.
Obrigada, Brasil.
Chico Anysio vive e viverá na nossa memória por muitos e muitos anos.
Que Deus abençoe todos vocês.