Discurso durante a 47ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

Alerta sobre o avanço estrutural do crime organizado no Brasil, especialmente no Estado do Pará e em toda a Amazônia, com destaque para o alegado controle territorial exercido por facções criminosas e para a articulação nacional e transnacional dessas organizações. Defesa da presença permanente do poder público na região, mediante ações coordenadas de segurança pública, inteligência e combate às economias ilegais.

Autor
Zequinha Marinho (PODEMOS - Podemos/PA)
Nome completo: José da Cruz Marinho
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
Desenvolvimento Regional, Segurança Pública, Soberania, Defesa Nacional e Ordem Pública, Transparência e Governança Públicas { Modernização Administrativa , Desburocratização }:
  • Alerta sobre o avanço estrutural do crime organizado no Brasil, especialmente no Estado do Pará e em toda a Amazônia, com destaque para o alegado controle territorial exercido por facções criminosas e para a articulação nacional e transnacional dessas organizações. Defesa da presença permanente do poder público na região, mediante ações coordenadas de segurança pública, inteligência e combate às economias ilegais.
Publicação
Publicação no DSF de 06/05/2026 - Página 54
Assuntos
Economia e Desenvolvimento > Desenvolvimento Regional
Soberania, Defesa Nacional e Ordem Pública > Defesa do Estado e das Instituições Democráticas > Segurança Pública
Soberania, Defesa Nacional e Ordem Pública
Administração Pública > Transparência e Governança Públicas { Modernização Administrativa , Desburocratização }
Indexação
  • PREOCUPAÇÃO, CRESCIMENTO, CRIME ORGANIZADO, REGIÃO AMAZONICA, ENFASE, ESTADO DO PARA (PA), ATUAÇÃO, COOPERAÇÃO, LUCRO, COMENTARIO, AMAZONIA, ROTA, TRAFICO INTERNACIONAL, EXPANSÃO, ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA, AMEAÇA, SOBERANIA, GOVERNANÇA PUBLICA, DESENVOLVIMENTO REGIONAL, DEFESA, PERMANENCIA, FORÇA, SEGURANÇA PUBLICA, INTELIGENCIA.

    O SR. ZEQUINHA MARINHO (Bloco Parlamentar Democracia/PODEMOS - PA. Para discursar.) – Muito obrigado, Presidente.

    Eu subo à tribuna esta tarde, ou noite já, para tratar de um tema que não admite mais silêncio e também não admite mais relativização ou respostas fragmentadas: o avanço do crime organizado no Brasil, em especial na nossa querida Amazônia, e principalmente no Estado do Pará, que se transformam em áreas estratégicas das rotas nacionais e internacionais da criminalidade.

    O que nós estamos assistindo, Presidente, não é a um fenômeno episódico nem localizado; é a uma configuração estrutural do crime organizado, que deixou de atuar de forma dispersa para operar como um sistema integrado, articulado em escala nacional, com ramificações transnacionais.

    Levantamentos recentes apontam que alianças entre facções criminosas já alcançam pelo menos 17 estados brasileiros. Grupos historicamente rivais passaram a cooperar não por afinidade, mas por cálculo estratégico.

    A lógica mudou: menos guerra, mais lucro; menos confrontos visíveis, mais controle e silencioso.

    Hoje o crime organizado brasileiro funciona como uma engrenagem empresarial: com divisão de tarefas, rotas consolidadas, logística eficiente, lavagem de dinheiro sofisticada e domínio territorial progressivo.

    Nesse contexto, a Amazônia deixou de ser apenas um corredor secundário para se tornar um dos principais eixos do narcotráfico internacional, ligando áreas produtoras da América do Sul a mercados consumidores da Europa, Ásia e África, por meio de rotas fluviais, terrestres e portos.

    E é impossível falar dessa realidade sem mencionar o Estado do Pará, lamentavelmente. De acordo com o levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 60% dos municípios paraenses já registram a atuação de facções criminosas. São 91 cidades, o equivalente a 63,2% do território estadual, onde organizações criminosas exercem algum grau de controle sobre comunidades, rotas, economias ilegais e dinâmicas locais de poder. Isso significa, Presidente, que em praticamente dois terços do Estado do Pará a presença do Estado está sendo disputada ou substituída pela presença do crime. Não por acaso, o Pará concentra 6 das 20 cidades mais violentas de toda a Amazônia Legal, atravessando todos os portes populacionais, de pequenos municípios a grandes centros regionais. Esse fenômeno não é isolado no Pará, mas o Pará é hoje um dos epicentros dessa pressão criminosa.

    Entre 2023 e 2025, o número de municípios da Amazônia Legal com atuação de facções quase dobrou, saltando de 178 para 344. O Comando Vermelho expandiu sua presença para 286 municípios da região, dominando sozinho mais de 200 cidades. Já o PCC opera de forma distinta, priorizando a logística, distribuição e lavagem de dinheiro, enquanto facções locais e estrangeiras também disputam espaço. Estamos diante de um quadro em que há menos facções, porém são mais poderosas, mais organizadas e mais enraizadas.

    Esse cenário tem levantado um debate legítimo na sociedade sobre a natureza dessas organizações, dada a sua capacidade de controle territorial, intimidação social e atuação internacional.

    Independentemente da classificação jurídica, uma coisa é certa: o crime organizado hoje representa uma ameaça real à soberania do Estado, à segurança das populações e à integridade ambiental da Amazônia. O que está em jogo não é apenas a segurança pública, é a governança territorial, o desenvolvimento regional e a autoridade do Estado brasileiro.

    O Pará e a Amazônia não podem continuar sendo tratados apenas como mapas distantes das estratégias nacionais de segurança. A dimensão do problema exige presença permanente do Estado, e não apenas operações pontuais; precisa de investimento em inteligência, controle de rotas, combate à lavagem de dinheiro e políticas que enfrentam as economias ilegais que alimentam o crime. Ignorar a Amazônia é abrir espaço para que o crime o governe, e permitir que isso aconteça é comprometer o futuro do país.

    Faço aqui, Presidente, portanto, este alerta ao Parlamento e às autoridades responsáveis: o crime organizado avança onde o Estado se ausenta e recua onde o Estado se impõe com inteligência e capacidade, coordenação e firmeza.

    Presidente, em qualquer cidade daquela região, hoje, para se manter um comerciozinho mais ou menos, principalmente um pouco mais afastado do centro, ou você paga para o crime organizado ou você tem que fechar o seu comércio. Essa é a situação de Belém e de inúmeras cidades do meu estado. E aí vai a Amazônia. É um trabalho realmente organizado, bem articulado e que assusta qualquer pessoa que para um pouco para pensar e para compreender essa engrenagem que, lamentavelmente, assola a Amazônia Legal e grande parte do meu estado.

    Muito obrigado.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 06/05/2026 - Página 54