Discurso proferido da Presidência durante a 48ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

Preocupação com o elevado endividamento das famílias brasileiras e defesa da educação como instrumento de cidadania financeira. Alerta para o crescimento do uso do cartão de crédito como complemento de renda, especialmente entre famílias de baixa renda, e críticas aos altos juros do cartão de crédito e do crédito consignado, com destaque para a importância dos programas de renegociação de dívidas, como o Programa Novo Desenrola Brasil, lançado pelo Presidente Lula.

Autor
Confúcio Moura (MDB - Movimento Democrático Brasileiro/RO)
Nome completo: Confúcio Aires Moura
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso proferido da Presidência
Resumo por assunto
Proteção Social:
  • Preocupação com o elevado endividamento das famílias brasileiras e defesa da educação como instrumento de cidadania financeira. Alerta para o crescimento do uso do cartão de crédito como complemento de renda, especialmente entre famílias de baixa renda, e críticas aos altos juros do cartão de crédito e do crédito consignado, com destaque para a importância dos programas de renegociação de dívidas, como o Programa Novo Desenrola Brasil, lançado pelo Presidente Lula.
Publicação
Publicação no DSF de 07/05/2026 - Página 14
Assunto
Política Social > Proteção Social
Indexação
  • PREOCUPAÇÃO, ENDIVIDAMENTO, FAMILIA, BRASIL, POPULAÇÃO, INADIMPLENCIA, PREJUIZO, QUALIDADE DE VIDA, UTILIZAÇÃO, CARTÃO DE CREDITO, JUROS, PRATICA ABUSIVA, CREDITO ROTATIVO, APOIO, Programa Extraordinário de Reequilíbrio Financeiro das Famílias.

    O SR. PRESIDENTE (Confúcio Moura. Bloco Parlamentar Democracia/MDB - RO. Para discursar - Presidente.) – Bem, na sequência, Senador Eduardo Girão, Esperidião Amin, inscritos, Marcio Bittar, Zequinha Marinho, Chico Rodrigues, Fernando Dueire, Izalci Lucas, Senador Jorge Kajuru, Senadora Damares Alves, Ivete da Silveira.

    Como não estão presentes, eu vou, aqui mesmo, sentado, fazer um discurso sobre o endividamento das famílias brasileiras.

    Ontem o Presidente Lula lançou praticamente o projeto, o plano dele chamado Desenrola 2, para negociação de dívidas das famílias endividadas – e são muitas famílias no Brasil. Nós estamos aí com um terço da população brasileira endividada. É bastante. Muitas dívidas. É complicado.

    Eu vou levantar este tema: o Brasil está endividado, internamente, as famílias, o povo brasileiro.

    Em março de 2026, atingimos um dado que precisa ser dito com clareza: 80,4%! Olhem bem, gente, a quantidade de gente aqui: 80,4% das famílias brasileiras têm algum tipo de dívida. É exagerado, viu? É o maior nível da série histórica já registrada na Confederação Nacional do Comércio. Quase um terço dessas famílias já não conseguem pagar o que devem. É muita dívida.

    Oitenta por cento da população brasileira está endividada, das famílias! Mas o mais importante não é o número, é quem está dentro desse percentual. Estamos falando, em grande parte, de brasileiros que vivem com até um salário mínimo, gente que não está consumindo por excesso. Está tentando simplesmente sobreviver. Famílias que usam o crédito para comprar comida, pagar as contas básicas, atravessar o mês.

    E aqui está o ponto central dessa discussão: o crédito deixou de ser uma ferramenta eventual e passou a funcionar em muitos lares como complemento de renda. Quando isso acontece, nós deixamos de ter um problema individual e passamos a enfrentar um problema estrutural, e esse cenário tem consequências claras.

    Hoje cerca de 30% da renda das famílias já está comprometida com dívidas antes mesmo de começar o mês. E a inadimplência permanece elevada, próxima de 30%, revelando a dificuldade real para sair do ciclo do endividamento.

    Há um dado social que precisa ser reconhecido e reverenciado: são, em grande parte, as mulheres que sustentam essa travessia. São elas que fazem do pouco o suficiente, que organizam o orçamento, que seguram a casa quando tudo aperta. Sobre os ombros dessas mulheres recai mais esse peso e, ainda assim, elas seguem firmes, com dignidade, mantendo em pé as suas famílias. São verdadeiras guardiãs do equilíbrio e da esperança dentro de milhões de lares brasileiros.

    O Brasil avança e isso é inegável. Hoje o sistema financeiro está na palma da mão. O celular virou banco. Muita gente, há muitos anos, não vai a uma agência bancária, só faz as suas transações pelo celular. O Pix acelerou a vida, encurtou distâncias, facilitou o dia a dia de milhões de brasileiros. É um avanço que precisa ser reconhecido.

    Mas, ao mesmo tempo, nós criamos um desequilíbrio silencioso. Levamos o cidadão para dentro do sistema sem prepará-lo para caminhar nele. O Brasil bancarizou, mas não educou. E essa ausência cobra um preço alto. O crédito chegou fácil e rápido, quase sem barreira, mas o seu custo – elevado, muitas vezes invisível, especialmente no cartão de crédito – não é plenamente compreendido. É aí que o problema se instala. Aquilo que deve ser um apoio momentâneo vai, pouco a pouco, se transformando em um compromisso permanente. A dívida deixa de ser exceção e passa a fazer parte da vida das pessoas.

    O resultado disso é claro e preocupante: o crédito cresceu mais rápido do que a renda. Aquilo que deveria ser um apoio pontual foi, pouco a pouco, se transformando em um compromisso permanente na vida das famílias.

    E aqui é preciso ter honestidade neste debate. Os programas de renegociação são importantes, como esse lançado ontem. Medidas de alívio têm seu valor, mas é preciso reconhecer: estamos tratando o sintoma, enquanto a causa permanece intacta. Sem educação financeira, o problema não desaparece; ele apenas retorna. E retorna, muitas vezes, mais pesado.

    E esse não é um problema isolado. Ele se espalha. Ele atinge o comércio, desacelera a economia, aprofunda desigualdades e compromete o futuro de milhares de famílias.

    Em Rondônia, essa realidade tem endereço, tem rosto, tem história. Está nas pequenas cidades; no comércio, que vende menos; no trabalhador, que se esforça todos os dias e, ainda assim, não consegue sair do aperto. Não são números frios. São vidas reais, enfrentando uma luta silenciosa todos os meses.

    O Brasil precisa dar um passo além. Não basta incluir o cidadão no sistema financeiro, é preciso prepará-lo para permanecer nele com autonomia.

    A educação financeira não pode ser detalhe, não pode ser complemento, ela precisa ser base: precisa estar na escola, nas políticas públicas, na orientação permanente ao cidadão, porque ninguém deveria aprender o peso dos juros quando já perdeu o controle da sua própria renda. Toda sociedade tem um limite de endividamento, e nós estamos nos aproximando desse limite no Brasil. Quando o trabalho deixa de ser caminho da dignidade e passa a ser um esforço contínuo para pagar dívidas, algo está profundamente errado, e isso não pode ser naturalizado; precisa ser enfrentado com seriedade, com responsabilidade, com coragem.

    O Brasil já avançou ao incluir milhões de pessoas no sistema financeiro, mas agora precisa dar um passo mais importante: transformar esse acesso em cidadania financeira, de verdade – com conhecimento, com consciência, com liberdade real –, porque sem compreensão e acesso, perde o valor, e o que deveria ser instrumento de progresso pode se transformar em um mecanismo silencioso de aprisionamento. O crédito deve existir para abrir caminhos, para realizar projetos de vida, para gerar oportunidade, nunca para financiar a sobrevivência.

    Então, aqui, meus telespectadores e funcionários do Senado, esse tema é um tema muito angustiante, que é o endividamento das famílias brasileiras, principalmente o crédito consignado. Chega ao ponto de ir para o agiota, e o agiota é cruel. A Senadora Zenaide aqui tem falado muito da agiotagem do cartão de crédito; essa é pior do que o agiota da rua, o agiota de qualquer bairro; esse é um juro consentido, altíssimo e impagável. Quem entra nessa roda-viva do cartão de crédito ou da agiotagem, dessa é difícil sair.

    Então, aqui, dando sequência aos nossos oradores, eu passo a palavra ao Senador Eduardo Girão.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 07/05/2026 - Página 14