Discurso durante a 51ª Sessão Não Deliberativa, no Senado Federal

Reflexão sobre a realidade social brasileira a partir das dificuldades enfrentadas pelas famílias, com destaque para a instabilidade financeira, o alto custo de vida e a necessidade de redefinição das prioridades nacionais em consonância com as demandas concretas da população.

Autor
Confúcio Moura (MDB - Movimento Democrático Brasileiro/RO)
Nome completo: Confúcio Aires Moura
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
Desenvolvimento Regional, Desenvolvimento Urbano, Economia e Desenvolvimento, Finanças Públicas, Política Social:
  • Reflexão sobre a realidade social brasileira a partir das dificuldades enfrentadas pelas famílias, com destaque para a instabilidade financeira, o alto custo de vida e a necessidade de redefinição das prioridades nacionais em consonância com as demandas concretas da população.
Publicação
Publicação no DSF de 12/05/2026 - Página 17
Assuntos
Economia e Desenvolvimento > Desenvolvimento Regional
Política Social > Desenvolvimento Urbano
Economia e Desenvolvimento
Economia e Desenvolvimento > Finanças Públicas
Política Social
Indexação
  • REGISTRO, REALIDADE, DESIGUALDADE SOCIAL, DIFICULDADE, POPULAÇÃO, COMENTARIO, CRESCIMENTO ECONOMICO, ENDIVIDAMENTO, FAMILIA, VULNERABILIDADE, DEFESA, POLITICAS PUBLICAS, DESIGUALDADE REGIONAL, NECESSIDADE, SOCIEDADE, EXPOSIÇÃO, DIGNIDADE, OPORTUNIDADE, SUSTENTABILIDADE, DESENVOLVIMENTO, ESTABILIDADE, ECONOMIA, MELHORIA, QUALIDADE DE VIDA.

    O SR. CONFÚCIO MOURA (Bloco Parlamentar Democracia/MDB - RO. Para discursar.) – Bem, obrigado.

    Sr. Presidente, Sras. e Srs. Senadores presentes, em seus gabinetes, nos estados ou remotamente, hoje eu dou início a um ciclo de reflexões nesta tribuna. Reflexões que nascem da experiência, da escuta e da convivência com a realidade do nosso país ao longo desses anos de vida pública.

    Mais do que revisitar o passado, o que proponho aqui é organizar ideias, dar unidade a experiências e contribuir com o debate sobre o Brasil que temos e o Brasil que precisamos construir. Porque o tempo da política não é apenas o tempo dos mandatos; é o tempo da responsabilidade com o país.

    E começo por algo que não aparece nos relatórios oficiais, mas está presente em milhões de lares brasileiros, que é o cansaço – o cansaço. Mas não é um cansaço qualquer; é um cansaço de quem acorda cedo, trabalha, se esforça e, ainda assim, sente que está sempre correndo atrás do básico, do essencial.

    O que seria esse básico e essencial? O mínimo que, na maior parte das vezes, é o mínimo possível que se consegue com o resultado de um mês de trabalho.

    O Brasil que cresce nos números nem sempre é o Brasil que melhora a vida das pessoas. Isso é importante. E, talvez, um dos maiores desafios nacionais seja exatamente este: reduzir a distância entre os indicadores e a realidade cotidiana.

    Hoje, milhares de famílias começam o mês já comprometidas financeiramente não porque eles exageraram, não porque lhes faltou responsabilidade, mas porque a conta deixou de fechar. O crédito, que deveria funcionar como apoio momentâneo, passou a ocupar o espaço da renda, virou ponte para atravessar o mês, virou instrumento de sobrevivência, o crédito. E quando sobreviver consome toda a energia da família, o futuro deixa de ser projeto e passa a ser uma preocupação permanente. Olhe bem: o futuro deixa de ser um projeto para ser uma preocupação permanente. Isso é muito real.

    Esse é um problema que está longe de ser isolado, é o retrato social que atravessa o país inteiro; é a mãe malabarista que reorganiza o orçamento todos os dias; é o trabalhador que ajusta, remaneja, adia, sempre está adiando alguma coisa, tentando uma sobrevida no básico; e, muitas vezes, são as mulheres que, sozinhas, sustentam silenciosamente a casa, administrando a escassez, protegendo os filhos e impedindo que a vida familiar seja vencida pelas dificuldades – a vida familiar vencida pelas dificuldades.

    Esse esforço não aparece na estatística. As estatísticas são traduzidas por números que, em regra, se apresentam frios, dependendo da habilidade de quem os interpreta para adentrar no aspecto qualitativo de quem vive o sofrimento cotidiano para ter o mínimo possível. Esse esforço sub-remunerado é que mantém o país funcionando. De que vale um país crescer se falta o mínimo para as famílias conquistarem o básico, e com estabilidade?

    Senhoras e senhores telespectadores, o Brasil avançou muito esses anos, é inegável que avançou. Isso precisa ser reconhecido com honestidade, mas brasileiros tiveram acesso ao sistema financeiro, à tecnologia, à internet de qualidade, ao consumo e a outros produtos e serviços antes inacessíveis. Isso é verdade também. Mas existe uma diferença importante entre ampliar acesso e garantir estabilidade. Muitas vezes, incluímos sem sustentar. Ampliar o acesso é como entregar a uma criança, pela primeira vez, um pirulito. Ela o experimenta por alguns instantes, mas logo lhe é retirado o pirulito porque ainda faltavam as condições mínimas ou a estabilidade necessária para que pudesse continuar usufruindo dele.

    Expandimos as oportunidades, é verdade, sem assegurar a proteção suficiente para a continuidade diante da oscilação da vida real, e o resultado se revela no cotidiano, na insegurança, na perda de previsibilidade, na sensação permanente de aperto, famílias que chegaram a experimentar o novo, mas que não conseguem se segurar nele e se manter nesse novo, porque lhes falta orçamento e estrutura para sustentá-lo. Mas a própria natureza humana leva as pessoas a continuarem tentando o novo, e é nesse momento que muitas famílias se endividam, mesmo enquanto lutam para sobreviver no básico.

    O que antes deveria ser planejado virou correria e improviso, o que antes deveria ser projeto de vida virou administração de urgências e uma sensação de impotência. E isso produz um desgaste que não é apenas econômico, é emocional, é social e, enfim, é desumano, porque quando uma família trabalha mais para pagar o passado do que para construir o futuro, algo importante deixou de funcionar como deveria. E quando o esforço já não consegue produzir avanço, o risco que surge não é apenas o da perda de renda, é a perda gradual da esperança – perda gradual da esperança –, é a perda de um sonho que nasceu morto já na sua origem.

    Sr. Presidente, talvez um dos maiores erros do Brasil contemporâneo tenha sido olhar o país por números, apenas pelas médias. As médias ajudam a medir, mas não conseguem explicar completamente a vida real, porque governar não é apenas administrar números, é compreender as realidades humanas. E talvez a grande escolha que o país precise fazer seja esta: deixar de continuar interpretando a sociedade apenas por indicadores, pelos números, começando a reorganizar as prioridades a partir da experiência real das pessoas. Isto é fundamental: reorganizar as prioridades a partir das experiências reais das pessoas.

    O Brasil concreto é feito de contrastes, desigualdades regionais, velocidades diferentes e oportunidades desiguais. Existe hoje uma distância visível entre o país institucional, que aparece evoluindo nos relatórios, e o país vivido diariamente pela população.

    Talvez seja justamente aí que começa a próxima reflexão: compreender por que, muitas vezes, o Estado brasileiro parece caminhar em um tempo diferente daquele que é vivido pelas pessoas, esse paradoxo.

    E reconhecer isso não significa negar os avanços; significa compreender que desenvolvimento verdadeiro só existe quando ele consegue ser percebido na vida concreta das pessoas.

    O povo brasileiro não pede privilégio. Pede dignidade, pede previsibilidade, pede oportunidade, crescimento sustentado não apenas em números, mas na experiência da sua vida real; pede a chance de acreditar que esforço, honestidade e trabalho ainda podem construir um futuro melhor, mas não apenas para o país.

    E é exatamente deste Brasil – do Brasil vivido, do Brasil silencioso, do Brasil que sustenta o país todos os dias – que qualquer projeto sério de futuro precisa partir, porque nenhuma transformação nacional será sólida quando existir uma distância tão grande entre o país oficial e a vida real da população.

    Sr. Presidente, essa série de pronunciamentos que eu estou iniciando hoje tem a mão abençoada da nossa assessora de gabinete, Maristela Dourado. Os seus estudos de economista têm contribuído muito para essa eloquência dos dados que eu pronuncio aqui, justamente combinados com o estudo da minha trajetória ao longo da minha vida política, que tem sido essa, justamente baseada na educação, baseada no trabalho, no que V. Exa. prega aqui e eu também prego simultaneamente.

    A gente precisa dar um grito, um grito para o discurso dos próximos candidatos à Presidência do país, para levar o país a um discurso mais realístico, mais com o pé no chão, mais embasado em futuro, futuro e esperança concretos.

    Que realmente a gente possa construir um país a partir de um trabalho correto, fazer o que deve ser feito e bem-feito, na hora certa.

    Era só isso.

    Muito obrigado.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 12/05/2026 - Página 17