Pronunciamento de Jaques Wagner em 27/05/2026
Discurso durante a 13ª Sessão Solene, no Congresso Nacional
Sessão solene destinada a homenagear os 475 anos de criação da Diocese de São Salvador da Bahia e os 350 anos de sua elevação à condição de Arquidiocese. Afirmação de se trata de uma homenagem que ultrapassa a estrutura da Igreja Católica, constituindo-se em um ato de exaltação à fé, às religiões e à espiritualidade, elementos considerados escassos no mundo moderno. Destaque para a relação existente entre a fé em Deus e a prática da conciliação.
- Autor
- Jaques Wagner (PT - Partido dos Trabalhadores/BA)
- Nome completo: Jaques Wagner
- Casa
- Congresso Nacional
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
Data Comemorativa,
Religião:
- Sessão solene destinada a homenagear os 475 anos de criação da Diocese de São Salvador da Bahia e os 350 anos de sua elevação à condição de Arquidiocese. Afirmação de se trata de uma homenagem que ultrapassa a estrutura da Igreja Católica, constituindo-se em um ato de exaltação à fé, às religiões e à espiritualidade, elementos considerados escassos no mundo moderno. Destaque para a relação existente entre a fé em Deus e a prática da conciliação.
- Publicação
- Publicação no DCN de 28/05/2026 - Página 90
- Assuntos
- Honorífico > Data Comemorativa
- Outros > Religião
- Matérias referenciadas
- Indexação
-
- SESSÃO SOLENE, DESTINAÇÃO, HOMENAGEM, ANIVERSARIO DE FUNDAÇÃO, DIOCESE, ARQUIDIOCESE, IGREJA CATOLICA, SALVADOR (BA), DESTAQUE, ATUAÇÃO, CONCILIAÇÃO, CONFLITO.
O SR. JAQUES WAGNER (PT - BA. Para discursar. Sem revisão do orador.) - Bom dia a todos.
Quero cumprimentar, com muita alegria, o Deputado Bacelar, proponente desta sessão, e eu ao seu lado. Permitam-me cumprimentar todas as autoridades religiosas aqui presentes na Mesa e no plenário, na pessoa de Dom Sergio Rocha, Cardeal e Arcebispo de São Salvador.
Eu havia preparado um discurso, mas resolvi quebrar o protocolo porque fiquei preocupado em ser repetitivo. Como esta sessão solene, de nossa propositura, é destinada a homenagear os 475 anos da criação da Diocese de São Salvador da Bahia e os 350 anos da elevação à condição de arquidiocese, eu entendo que esta sessão é, na verdade, um momento de homenagem à fé, às religiões e a Deus.
Estamos vivendo tempos áridos, difíceis, de guerras, que são consequência da incapacidade dos seres humanos de dialogarem sobre suas diferenças e poderem encontrar um caminho não necessariamente do consenso, mas do entendimento. E o entendimento não é, necessariamente, consenso; é entendimento. Cada um, muitas vezes, perde algo para compor dentro de uma comunidade.
Eu construí toda a minha vida com esse espírito da conciliação, porque acho que aqueles que têm fé e se dizem tementes a Deus devem praticar a conciliação entre os seres humanos. Quando não há conciliação, vemos o que estamos vivendo em vários países do mundo: conflitos, destruição e guerra.
Então, entendo que esta sessão é um momento de elevação de espiritualidade, algo que falta muito no mundo moderno. As tecnologias chegaram para aproximar os que estão distantes, às vezes para afastar os que estão perto e, infelizmente, também servem para divulgar muitas coisas contrárias à fé e à religião, principalmente em relação às nossas crianças e aos nossos jovens.
Por isso, preferi vir a esta tribuna para homenagear esta sessão e contar rapidamente um episódio que talvez tenha sido o mais marcante da minha vida na política. Foi quando eu era Ministro do Presidente Lula, e ele preparava o projeto de transposição do Rio São Francisco, um projeto controverso.
À época em que fui candidato a Governador da Bahia, defendia esse projeto e dizia que o nordestino não podia negar água a outro nordestino, e que o Rio São Francisco não era apenas nosso, da Bahia. Ele era um rio nacional, por conta de todo o seu percurso.
E em uma reunião no Palácio do Planalto — Frei Luiz Cappio, padre da Barra, havia iniciado um processo de greve de fome contra a transposição do Rio São Francisco — alguns diziam, e não citarei nomes: “Então, deixe-o fazer a greve de fome dele. Vamos ver até onde ele vai”. E eu falei: “Presidente, tudo o que o senhor não precisa é de um herói nessa questão da transposição do Rio São Francisco”. Ele perguntou: “Qual é a sua proposta?” Eu pedi: “Dê-me 24 horas. Eu vou conversar com Frei Luiz Cappio”. Eu não o conhecia.
Frei Luiz Cappio fazia a sua greve de fome numa pequena capaia na propriedade de um casal muito simples. Aí está o poder da fé. A casa deles não tinha sanitário, mas tinha capela. Lá estava muita gente, televisões de fora do País. E eu cheguei como emissário do Presidente Lula. No avião da FAB que me conduziu também foi o núncio apostólico, à época, que levava a determinação do Vaticano de que ele tinha que suspender a greve de fome, porque ele não poderia atentar contra a vida.
Eu pedi ao núncio: "O senhor me permite chegar primeiro que o senhor, porque eu quero dialogar com Frei Luiz Cappio. Eu tenho certeza de que vou convencê-lo a sair da greve de fome. Se o senhor for à minha frente, ele terá duas opções: ou acolhe a ordem ou se afasta da Igreja". E ele disse: "Não, então vá". E eu fui.
Encontrei-me primeiro com a família de Frei Luiz Cappio, que estava nessa residência muito simples, até que eu entrei na capela, e começamos a conversar. Eu levava uma carta do Presidente Lula endereçada a ele. Só nós dois dentro da capela, e começamos a dialogar.
Depois de 1 ou 2 horas de conversa, Frei Luiz Cappio me disse: "Bom, eu gostaria que o senhor levasse uma carta-resposta ao Presidente Lula". Eu nunca me esqueço desse diálogo. Eu perguntei: "O senhor é um homem de fé, um homem determinado." Ele disse: "Sou". Eu disse: "Eu também. Eu não vim aqui para ser portador de uma carta-resposta. Eu vim aqui para lhe convencer a sair da greve de fome, porque a motivação do Presidente Lula é a de levar água àqueles que não a têm". E depois de 5, 6 horas de diálogo, finalmente ele se convenceu de que deveria sair da greve de fome.
Fizemos um documento, assinamos e saímos da capela, onde uma multidão já se aglomerava, para ele anunciar que tinha resolvido sair da greve de fome. Eu já me reencontrei com frei Luiz Cappio várias vezes. Em determinado momento, ele até me agradeceu.
Mas eu estou fazendo questão de contar esse momento que eu vivi exatamente porque eu acho que nós, na fé e na determinação de fazermos aquilo que achamos correto, temos que estar sempre abertos ao diálogo com aqueles que pensam diferente, e não como está sendo feita hoje a plantação da semente do ódio, porque ela não nos levará a nada.
Então, eu quero parabenizar, mais uma vez, a Arquidiocese de São Salvador, ao nosso Cardeal D. Sergio e a todos aqui. E quero dizer que eu tenho sempre esperança de que os humanos se convencerão de que, pela via do diálogo e do entendimento, nós construiremos o caminho que queremos.
Muito obrigado.
Parabéns à arquidiocese. (Palmas.)