Pronunciamento de Damares Alves em 17/06/2026
Discurso durante a 16ª Sessão Solene, no Congresso Nacional
Sessão solene destinada a celebrar os 118 anos de Imigração Japonesa no Brasil. Relato pessoal sobre sua ligação com a comunidade japonesa e sua visita ao Japão, destacando os valores de trabalho, educação, disciplina e cooperação entre os dois países. Defesa de reconhecimento do papel das mulheres imigrantes, a preservação da memória dos japoneses perseguidos durante a Segunda Guerra Mundial e a promoção da paz e da amizade entre Brasil e Japão.
- Autor
- Damares Alves (REPUBLICANOS - REPUBLICANOS/DF)
- Nome completo: Damares Regina Alves
- Casa
- Congresso Nacional
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
Cultura,
Educação,
Homenagem,
Mulheres,
Relações Internacionais,
Trabalho e Emprego:
- Sessão solene destinada a celebrar os 118 anos de Imigração Japonesa no Brasil. Relato pessoal sobre sua ligação com a comunidade japonesa e sua visita ao Japão, destacando os valores de trabalho, educação, disciplina e cooperação entre os dois países. Defesa de reconhecimento do papel das mulheres imigrantes, a preservação da memória dos japoneses perseguidos durante a Segunda Guerra Mundial e a promoção da paz e da amizade entre Brasil e Japão.
- Publicação
- Publicação no DCN de 18/06/2026 - Página 24
- Assuntos
- Política Social > Cultura
- Política Social > Educação
- Honorífico > Homenagem
- Política Social > Proteção Social > Mulheres
- Soberania, Defesa Nacional e Ordem Pública > Relações Internacionais
- Política Social > Trabalho e Emprego
- Matérias referenciadas
- Indexação
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- SESSÃO SOLENE, CELEBRAÇÃO, ANIVERSARIO, IMIGRAÇÃO, PAIS ESTRANGEIRO, JAPÃO, BRASIL, DEPOIMENTO PESSOAL, VISITA, TERRITORIO, DESTAQUE, VALORES, TRABALHO, EDUCAÇÃO, DISCIPLINA, COOPERAÇÃO, DEFESA, RECONHECIMENTO, MULHER, IMIGRANTE, PRESERVAÇÃO, MEMORIA, PERSEGUIÇÃO, SEGUNDA GUERRA MUNDIAL, PROMOÇÃO, PAZ, AMIZADE.
A SRA. DAMARES ALVES (REPUBLICANOS - DF. Para discursar. Sem revisão da oradora.) - Bom dia, Presidente.
Cumprimento toda a Mesa, para ganhar tempo — nós mulheres queremos ganhar tempo em todos os instantes —, em nome do Deputado Luiz Nishimori, esse homem aguerrido, que não deixa a gente esquecer o Japão um único minuto nesta Casa. Cumprimento a Senadora Leila Barros também, que está passando por aqui agora. Hoje nós temos uma manhã corrida lá no Senado, e, como estamos em regime semipresencial, as duas Senadoras que moram em Brasília precisam fazer tudo pelos colegas que estão trabalhando a distância, então nós estamos nos dividindo em diversas Comissões. Mas nem ela nem eu poderia deixar de passar aqui, primeiro por causa dos nossos queridos amigos-irmãos e dos eleitores japoneses da grande comunidade japonesa do Distrito Federal e Entorno, que amamos muito. Eu poderia fazer um discurso técnico, trazendo números, dados, mas vou pedir permissão a todos os senhores para falar do coração. Eu vivi uma das mais incríveis experiências da minha vida quando estive no Japão, alguns meses atrás. Quando estive no Japão, realizei não apenas um sonho pessoal, mas também, Deputado, um sonho de minha mãe. A minha mãe, que já partiu, que já foi embora, me ensinou a amar o Japão. A minha mãe é da região de Lins, é da cidade de Getulina, onde nós temos uma grande comunidade japonesa. Os meus avós também vieram em um navio. Os meus avós vieram da Itália. O meu avô era italiano, a minha avó era belga, e eles também vieram nesse contexto. Enfrentaram a barreira da língua na chegada, em busca de uma terra nova. O meu tio nasce no navio, a mamãe já nasce no Brasil. Foram morar juntos. Ali a mamãe aprendeu a amar o Japão, e aprendeu a falar japonês, aprendeu com essas mulheres aguerridas.
Você trouxe um discurso tão lindo que me provocou lágrimas!
A mamãe cresceu sonhando conhecer o Japão e transferiu esse sonho para a gente. E eu tive a honra de ir ao Japão agora. Andando pelas ruas do Japão, eu chorava, porque sentia a presença da mamãe ali comigo, em tudo que eu ouvi falar sobre o Japão.
Nesta Casa, durante quase 30 anos assessorei Parlamentares, e assessorei em assuntos da relação comercial Brasil-Japão. Eu lia cada vez mais. Mas uma coisa é ler, é ouvir os imigrantes contarem sua história, e outra coisa é conhecer o Japão e descobrir quão incrível e extraordinário é esse povo.
Senadora Leila, você também esteve lá.
Eu digo para os senhores uma coisa que eu disse para os meus assessores: é muito difícil voltar do Japão, porque o nosso nível de exigência para o Brasil sobe. A gente volta diferente, porque a gente quer um Brasil parecido com o Japão, a gente quer todo o nosso povo trabalhando, a gente quer todo o nosso povo produzindo, a gente quer todas as nossas crianças na escola, a gente quer todas as nossas crianças protegidas. A gente volta diferente e querendo fazer mais pelo Brasil, para que ele fique parecido — igual nunca vai ser — com o que vocês fizeram com aquele país.
Eu tive também a honra e a emoção de estar em Hiroshima, Deputado. Ali, muitas lágrimas, muito choro, enfrentamento de desafios pessoais, de confrontos pessoais, de questionamentos pessoais. Eu olhei para aquelas imagens e pensei: “Como somos burros! Como permitimos guerras? Como ainda nos matamos?” Também em Hiroshima eu descobri a capacidade de nos reconstruirmos e, no Parque da Paz eu descobri a capacidade de pregarmos a paz.
Eu chorei muito em Hiroshima, mas tive uma experiência que mexeu ainda mais com a minha vida, por incrível que pareça, no Museu da Imigração. Quando eu cheguei ao Museu da Imigração, eu vi imagens exatamente do que você disse aqui e a mamãe me contava. Como as mulheres passaram frio em São Paulo!
A gente fala da contribuição dos imigrantes japoneses para a nossa Nação, mas fala de forma romântica. Você detalhou! Nem tudo foi romantismo. Houve frio, houve a barreira da língua, houve a barreira cultural. A mamãe me contava que as mulheres japonesas costuravam seus sapatos com tecidos como lona e da mesma forma faziam luvas para suportar o frio de São Paulo, a geada. Eu vi essas imagens no Museu da Imigração. Vi essas mulheres, com suas crianças no campo, plantando e colhendo, mulheres que deixaram suas famílias lá atrás, mulheres que não sabiam o que ia acontecer no futuro, mulheres plantando sob o frio, com as mãos cobertas de lona, os pés cobertos de lona.
A mamãe me contava que por muito tempo ela e as crianças japonesas iam descalças para a escola e na hora do frio tinham que pular numa pedra, deixar o pezinho esquentar um pouquinho, porque geava, sair correndo e encontrar outra pedra, ficar em pé ali, sair correndo de novo, ficar em pé em cima de outra pedra. Não há romantismo nisso, há enfrentamento, resiliência e vontade de ajudar a mudar uma Nação. Vocês ajudaram a mudar a nossa Nação.
Eu vi no Museu da Imigração imagens que me fizeram voltar à infância e ouvir a mamãe contar as histórias dos imigrantes japoneses aqui. E eu chorei muito. Mas eu chorei especialmente em um momento de que a gente nunca fala — parece que a gente quer apagar esse episódio da história —, quando eu vi no museu os nossos imigrantes japoneses que foram para um campo de concentração no Brasil. Por que a gente fala tão pouco disso? Por que a gente esquece que 3 mil imigrantes que aqui já produziam, que aqui já estavam integrados e que aqui já eram amados pelo povo brasileiro foram retirados de suas casas e mandados para lugares como Tomé-Açu e Pindamonhangaba? Perderam o que já tinham, foram retirados de suas famílias e mandados para um campo de concentração por causa de uma guerra que estava lá do outro lado. Se eles foram embora porque não concordavam com a guerra, por que aqui a gente impôs a eles o sofrimento de um campo de concentração? E existe gente que não sabe que, na história, nós tivemos campo de concentração no Brasil. Eu fiquei me perguntando: a gente já pediu perdão a eles por isso? Já fizemos algum ato de desagravo e já pedimos perdão aos imigrantes japoneses porque nós permitimos, em nosso solo, que eles fossem segregados porque a guerra estava acontecendo lá? Eu não sei nem se é ético ou se há um pacto diplomático de não se falar sobre isso, mas, desculpem-me, eu vou romper todos os pactos diplomáticos e, de coração, pedir perdão por esse episódio, pedir perdão àqueles que deixaram suas famílias, ficaram isolados, segregados num campo de concentração por causa de um conflito que estava tão longe de nós. Que bom que isso acabou! E o que mais me impressiona é que eles saem do campo de concentração e voltam a produzir para a Nação que os segregou. Como não amar o povo japonês? Como não amar vocês? Como não aprender com a resiliência? Como não aprender com a disciplina? O Brasil ama o Japão, Deputado.
E eu descobri, depois que fui lá, que eu tinha que ter nascido no Japão, para vir para cá e amar mais o Brasil. Eu conheço imigrantes japoneses que amam mais o Brasil do que muitos brasileiros. É impressionante esse amor entre as nossas nações! Para além de relações comerciais, é uma relação de respeito, de carinho. Eu ouvi tanto a minha mãe falar disso, eu vivi isso a vida inteira. E, nessa minha visita ao Japão, eu descobri que somos nações irmãs: nós nos amamos, nós nos respeitamos, nós temos cooperação.
Ajudamos o Japão, nós também temos a nossa contribuição. Eu fui lá, eu vi o nosso povo trabalhando, fazendo o Japão grande como é. Nós temos vocês aqui nos ajudando.
E que Deus abençoe essa nossa unidade! E que a gente continue desse jeito! Quem quiser brigar, que brigue lá fora, mas Brasil-Japão vai ser isto que nós estamos vendo aqui hoje: amor. Vai ser isto: cooperação. E que Deus nos ensine, com essa relação, a ensinar o mundo que é possível os povos viverem em paz, apaixonarem-se um pelo outro! E que Deus nos ensine, Deputado, a dizer “não” às guerras, aos conflitos, à destruição, a episódios como Hiroshima.
Nesta manhã, eu quero, usando a minha fé, pedir ao meu Deus que abençoe a comunidade japonesa aqui no meu País, mas que meu Deus abençoe aquela nação extraordinária.
Termino aqui dizendo a vocês que não foi fácil a missão, porque, disciplinados como vocês são, eu tinha que cumprir a cada hora um papel, uma agenda, e um dia me fizeram cumprir doze agendas — doze! E eu estava dentro do carro, quando vi as crianças passarem na rua. Eu queria parar o carro só para pôr aquelas crianças no colo. Gente, o que é aquilo?! E não deixaram, Deputado. Não me deixaram parar o carro, porque tinha que cumprir a agenda. Eu vou voltar ao Japão para jogar futebol com as crianças do Japão. Só faltou isto na agenda: ir às escolas, para correr com as crianças, aquelas crianças tão lindas e tão extraordinárias. Que Deus abençoe o Brasil e o Japão! E vocês, imigrantes, obrigada por terem nos ensinado tanto, tanto, tanto!
Aqui eu faço esta homenagem em meu nome, em nome da minha mãe, da minha família, da minha igreja, que é apaixonada pelo Japão.
E quero voltar — quero voltar.
Termino dizendo que, quando você falou das mulheres, eu ouvi tanto... Você colocou no papel tudo o que eu ouvi a vida inteira.
Permitam-me terminar meu discurso falando tão somente do coração: eu amo o Japão. Eu amo a comunidade japonesa que está aqui no Brasil.
Obrigada, Deputado. (Palmas.)