Pronunciamento de Paulo Paim em 07/07/2026
Discurso durante a 98ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal
Preocupação com o avanço de grupos supremacistas, neonazistas e de discursos de ódio no Brasil e no mundo. Defesa da democracia, dos direitos humanos e do combate ao racismo, ao fascismo, ao antissemitismo, à xenofobia e à discriminação. Repúdio a declarações consideradas racistas e xenófobas da Senadora paraguaia Celeste Amarilla contra o jogador francês Kylian Mbappé.
- Autor
- Paulo Paim (PT - Partido dos Trabalhadores/RS)
- Nome completo: Paulo Renato Paim
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
Assuntos Internacionais,
Direitos Humanos e Minorias:
- Preocupação com o avanço de grupos supremacistas, neonazistas e de discursos de ódio no Brasil e no mundo. Defesa da democracia, dos direitos humanos e do combate ao racismo, ao fascismo, ao antissemitismo, à xenofobia e à discriminação. Repúdio a declarações consideradas racistas e xenófobas da Senadora paraguaia Celeste Amarilla contra o jogador francês Kylian Mbappé.
- Publicação
- Publicação no DSF de 08/07/2026 - Página 34
- Assuntos
- Outros > Assuntos Internacionais
- Política Social > Proteção Social > Direitos Humanos e Minorias
- Indexação
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- PREOCUPAÇÃO, AUMENTO, GRUPO, DISCURSO DE ODIO, DISCRIMINAÇÃO, APOLOGIA, ANTISSEMITISMO, RACISMO, XENOFOBIA, FASCISMO, NAZISMO.
- DEFESA, DIREITOS HUMANOS, DEMOCRACIA.
- REPUDIO, DECLARAÇÃO, SENADOR, PARAGUAI, RACISMO, XENOFOBIA, ATLETA PROFISSIONAL, FUTEBOL, FRANÇA.
O SR. PAULO PAIM (Bloco Parlamentar Pelo Brasil/PT - RS. Para discursar.) – Sempre é uma satisfação, Presidente Senador Laércio, usar a tribuna sob a orientação de V. Exa.
Sr. Presidente, venho falar de um tema que eu entendo que unifica este Plenário. Estou aqui demonstrando, profundamente, a minha preocupação com um fenômeno que ameaça a democracia, a convivência civilizada e a própria humanidade.
No último dia 4 de julho, enquanto milhões de norte-americanos celebravam alegremente a Independência dos Estados Unidos, uma cena aterrorizante percorreu o mundo. Cerca de 400 integrantes de um grupo supremacista branco – e assim se identificam –, todos mascarados, marcharam pelas ruas de Washington, empunhando bandeiras confederadas e entoando palavras de ordem como: "Vamos recuperar o nosso país". Vestiam uniformes, caminhavam em formação militar e espalhavam uma mensagem de ódio, intolerância e exclusão, mas, Sr. Presidente Senador Laércio, houve uma imagem que sintetizou o horror daquele dia: uma jovem negra, dentro de um vagão do metrô, cercada por dezenas de homens mascarados pertencentes a esse grupo extremista estava lá apavorada. Foi uma fotografia que provoca indignação, tristeza e vergonha a toda a humanidade. Foi um retrato cruel do medo que o racismo e o extremismo ainda são capazes de produzir em pleno século XXI.
Não podemos tratar esses episódios como fatos isolados. O nazismo, o fascismo, o supremacismo branco e todas as ideologias de ódio não começam em campos de concentração. Começam com palavras, com símbolos, com a normalização – entre aspas – "da violência", com a desumanização do outro; começam quando a sociedade se cala.
Por isso, Sr. Presidente, este Senado não está calado. Entendo que aqui eu sou porta-voz de todos os Senadores. A história já nos ensinou, ao custo de milhões de vidas, para onde esse caminho pode nos levar. Por isso, qualquer tentativa de banalizar esses movimentos representa um grave erro histórico.
Nós, brasileiros, também precisamos olhar para dentro de casa. Pesquisas da antropóloga Adriana Dias apontavam, em 2022, a existência de aproximadamente 530 células neonazistas em atividade no Brasil, espalhadas pelas cinco regiões do país, envolvendo milhares de participantes. Esse crescimento foi motivo de preocupação para pesquisadores, Ministério Público e organizações de direitos humanos. Esses números não podem ser ignorados. Eles demonstram que o discurso de ódio atravessa fronteiras, utiliza as redes sociais, recruta jovens e procura transformar preconceito em ação política.
Quero falar também a partir, Presidente Laércio e Senador Girão, da minha própria experiência. Fui alvo de grupos nazistas. Meu nome apareceu entre as pessoas marcadas por organizações que pregavam o ódio racial, a violência e a intolerância. Isso ocorreu não hoje, mas eu viajo no tempo quando eu vejo o fato voltar. Isso aconteceu em 2010, em Porto Alegre. As investigações policiais encontraram materiais em que eu era citado como inimigo por defender aquilo em que sempre acreditei e que sempre defendi: a igualdade, a democracia, os direitos humanos e o combate a toda forma de racismo e preconceito.
Se hoje continuo nesta tribuna, é porque acredito que o medo jamais pode vencer a democracia. Quem defende o ódio quer silenciar vozes. Quem acredita na liberdade responde com coragem, com diálogo e com mais democracia. O Brasil não pode aceitar que grupos que pregam a supremacia racial e a violência encontre espaços para crescer. Falo não apenas como parlamentar, mas como alguém que sentiu na própria pele o peso do ódio.
Sr. Presidente, é preciso reafirmar uma verdade simples, mas essencial: não existe democracia onde o racismo é tolerado; não existe liberdade quando grupos pregam a eliminação do diferente; não existe patriotismo quando se pretende construir uma nação baseada na exclusão e na dita superioridade racial. Quem defende a democracia precisa combater sem hesitação toda forma de nazismo, fascismo, antissemitismo, racismo, xenofobia e discriminação.
O Brasil tem uma Constituição que consagra a dignidade da pessoa humana – tenho orgulho de dizer que ajudei a escrevê-la –, que consagra a igualdade e o respeito às diferenças. Temos também uma legislação que criminaliza o racismo e a apologia ao nazismo – sim, o racismo e a apologia ao nazismo –, mas leis, por si sós, não bastam. Precisamos investir em educação, memória, cultura, direitos humanos e cidadania. Precisamos fortalecer as instituições democráticas. Precisamos enfrentar a desinformação e responsabilizar aqueles que utilizam as plataformas digitais para semear o ódio. Não podemos permitir que as novas gerações cresçam, Sr. Presidente Laércio e demais Senadores do Plenário, sem conhecer os horrores do Holocausto, da escravidão, das ditaduras e de todas as experiências autoritárias que marcaram a história da humanidade.
Senhoras e senhores, nenhuma sociedade constrói um futuro de paz alimentando o ódio. A democracia exige coragem, coragem para enfrentar o preconceito, coragem para proteger as minorias, e para proteger, por que não dizer, as minorias que se tornam maiorias, coragem para dizer, em alto e bom som, que nunca haverá espaço para nazifascismo em um Estado democrático de direito.
Senador Plínio Valério, V. Exa. que eu noto que está ouvindo atentamente, como o Senador Girão, como o Senador Laércio, que a fotografia daquela jovem cercada por extremistas sirva de alerta para o mundo e que jamais, jamais nos falte coragem para escolher, todos os dias, o lado certo da história, que é o da democracia, da liberdade, da igualdade e da vida.
Senhoras e senhores, para finalizar, quero registrar meu repúdio às declarações racistas da Senadora paraguaia Celeste Amarilla. A Senadora Celeste Amarilla, do Paraguai, se referiu ao jogador francês Mbappé de forma totalmente ofensiva. Ela fez comentários de teor racista e xenófobo, questionando sua origem e utilizando comparações ofensivas. As declarações provocaram forte reação internacional, Sr. Presidente, inclusive do seu próprio país, o Paraguai. Repito: as declarações provocaram forte reação internacional, inclusive do seu próprio país, o Paraguai.
O jogador respondeu publicamente, classificando a Senadora como desprezível e indigna do cargo. Ele afirmou ainda que ela não representa o povo paraguaio, o qual ele, sim, respeita, e lamentou que o comportamento dela tenha ofuscado a campanha histórica da seleção do Paraguai no mundial. O Governo do Paraguai repudiou as declarações da Senadora, afirmando que elas não representam os valores daquele país. Vida longa ao povo paraguaio!
Lamento eu também, como Senador, que essa Senadora tenha tido uma posição que envergonhou o Parlamento e o seu país perante o mundo. Por isso, o Parlamento do Paraguai disse com forte tom: "Ela não nos representa"; o país disse "Ela não nos representa".
Vida longa à democracia, ao respeito à diferença, à liberdade! Que prevaleçam o bom senso, o equilíbrio, a solidariedade entre os povos. Não à guerra; sim à paz!
Obrigado, Presidente, pela tolerância de V. Exa.
O SR. PRESIDENTE (Laércio Oliveira. Bloco Parlamentar Aliança/PP - SE) – Cumprimento, mais uma vez, o Senador Paulo Paim e agradeço pela sua exposição, pelo seu discurso, sempre muito bem qualificado, que traz um tema que merece a reflexão de todos nós. No mundo de hoje, a gente ainda precisa enfrentar, através dos nossos argumentos e da nossa voz, comportamentos tão distantes daquilo que a gente sonha e deseja para a nação mundial, não só para a nação brasileira.
Meus cumprimentos, Senador Paulo Paim.
O SR. PAULO PAIM (Bloco Parlamentar Pelo Brasil/PT - RS. Fora do microfone.) – Obrigado, Presidente.