Discurso durante a 74ª Sessão Especial, no Senado Federal

Sessão Especial destinada a celebrar o Dia Mundial dos Oceanos. Relato pessoal acerca do aumento contínuo da presença de lixo no mar durante suas muitas décadas de navegação.

Autor
HELOÍSA SCHÜRMANN FORMIGA
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
Data Comemorativa, Meio Ambiente, Mudanças Climáticas, Poluição:
  • Sessão Especial destinada a celebrar o Dia Mundial dos Oceanos. Relato pessoal acerca do aumento contínuo da presença de lixo no mar durante suas muitas décadas de navegação.
Publicação
Publicação no DSF de 09/06/2026 - Página 36
Assuntos
Honorífico > Data Comemorativa
Meio Ambiente
Meio Ambiente > Mudanças Climáticas
Meio Ambiente > Poluição
Matérias referenciadas
Indexação
  • SESSÃO ESPECIAL, CELEBRAÇÃO, DIA INTERNACIONAL, OCEANO, MES, JUNHO.
  • REGISTRO, CARATER PESSOAL, NAVEGAÇÃO, POLUIÇÃO, MATERIAL PLASTICO, MAR.

    A SRA. HELOÍSA SCHÜRMANN FORMIGA (Para discursar.) – Sr. Presidente, Sras. Senadoras, Srs. Senadores, autoridades e amigos dos oceanos, quando eu me lembro da minha infância, vejo a pequena Heloísa, sentada lá na Pedra do Arpoador, no Rio de Janeiro, observando os navios desaparecerem no horizonte. Eu não sabia para onde iam aqueles navios, mas sentia muita vontade de segui-los. Eu sonhava descobrir outros mundos, viver aventuras, como as dos livros de Júlio Verne, e entender os mistérios do planeta.

    Naquela época, eu dizia que eu era uma sereia e que havia perdido as nadadeiras e ganhado pés. Daqui a 12 dias, completo 80 anos e reafirmo: eu continuo ainda a ser essa sereia, e as minhas pernas continuam me levando ao encontro do oceano.

    Em 1974, Vilfredo e eu velejamos pela primeira vez, em uma viagem no Caribe, e nos apaixonamos pela arte de velejar. Ali nasceu um pacto e um sonho: vamos dar uma volta ao mundo em um veleiro um dia.

    Bom, depois de dez anos, saímos, em 14 de abril de 1984, de Florianópolis, com nossos três filhos, que tinham, Pierre, 15 anos, David, dez e Wilhelm, sete anos. Éramos cinco sonhadores trocando a vida de terra firme pela vida no mar.

    Na década dos anos 80, quando navegamos, o mar parecia infinito e intocável. Havia uma sensação ingênua de abundância. Navegávamos semanas sem ver lixo, e mar era sinônimo de pura liberdade. Hoje, ao longo de mais de quatro décadas e quatro voltas ao mundo – tornei-me a primeira mulher brasileira a realizar esse feito –, eu posso afirmar: eu não li sobre as mudanças climáticas e a poluição em relatórios; eu atravessei essa mudança.

    O oceano perdeu sua estabilidade, e carrego o peso de testemunhar isso na pele. Depois, na nossa segunda volta ao mundo, já com a nossa filha Kat a bordo, o Pacífico nos deu o primeiro alerta. Encontramos a remota e inacessível Ilha Henderson, uma ilha em que não habitava ninguém, infestada de plásticos. Ali entendi que não existe jogar fora; tudo está conectado.

    Aí, mais outras expedições, na terceira volta ao mundo, a ilha desabitada de West Fayu estava sufocada pelo lixo plástico.

    Agora, recentemente, em 2025, na Indonésia, na expedição Voz dos Oceanos, mergulhamos em rios e baías literalmente adoecidos pelo plástico.

    A crise deixou de ser apenas ambiental; ela é humana e social. Não são episódios isolados.

    Depois, entre 2021 e 2025, na Voz dos Oceanos, nós encontramos, durante quatro anos, plásticos e microplásticos em mais 17 países que navegamos e 140 lugares, nas Américas, na Ásia e na Oceania, além da costa do Brasil.

    Em tudo isso, nós também fizemos uma expedição paralela, em 2024, uma expedição científica com a USP, capitaneada por uma expedição exclusivamente de mulheres. Em 14 estados brasileiros, elas percorreram e coletaram amostras de bivalves, como mariscos e ostras, e o resultado laboratorial, gente, é alarmante: todas as cem localidades pesquisadas, 100%, estavam contaminadas.

    Então, eu trago a esta Casa um alerta de urgência máxima, mas também trago a esperança. O mar ensinou que a natureza tem um poder imenso de regeneração quando damos a ela uma chance. E, pelo mundo inteiro, encontramos pessoas tentando mudar esse cenário.

    Então, proteger o mar é responsabilidade de todos nós, e aprendi que o mar nos devolve aquilo que lançamos a ele: se lançamos descaso, recebemos desequilíbrio; se oferecemos respeito, recebemos a vida.

    Ainda há tempo de escolher o legado que quero deixar para os meus filhos, para os meus netos e toda geração futura. Que tenham sempre o encantamento pelos mares e a coragem de agir, firmes e fortes, e parar esse tsunâmi de plástico.

    Por isso, neste Dia Mundial dos Oceanos, eu reforço o meu convite: convido todos vocês para serem a voz dos oceanos.

    Muito obrigada.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 09/06/2026 - Página 36