07/11/2016 - 15ª - Conselho de Comunicação Social

Horário Texto com revisão

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O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Bom dia a todos, Srªs e Srs. Conselheiros. Bom dia aos nossos convidados, que tenhamos todos uma semana produtiva, em especial, um dia de trabalho hoje muito produtivo.
Declaro aberta a 15ª Reunião, Extraordinária, do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional, nesta manhã, tendo a satisfação de realizar, por deliberação do Colegiado e sob a coordenação do meu querido Conselheiro Ismar de Oliveira Soares, o seminário Educação Midiática e Informacional no Brasil: Um olhar a partir da perspectiva da Unesco.
Estamos recebendo alguns convidados, já vou chamá-los.
Já está comigo aqui, a me ladear, coordenar e socorrer na coordenação do evento, o nosso querido Prof. Ismar, como eu disse, Conselheiro, idealizador deste evento e coordenador ao mesmo tempo.
Convido para compor a Mesa a pesquisadora do laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária da UFRJ, Profª Raquel Paiva. Bom dia.
Convido a assessora técnica da Coordenação Geral de Ensino Fundamental, Diretora de Currículos e Educação Integral da Secretaria de Educação Básica do MEC, Profª Sandra Zita Silva Tine.
Tenho igualmente a satisfação de convidar a aluna do Colégio Dante Alighieri, de São Paulo, Clarice Villari. Fiquei em dúvida quanto ao acento. Bem-vinda.
E eu já vou reduzir o meu espaço de ocupação aqui. (Risos.)
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Convido também a aluna Maria Eduarda Silva de Oliveira, da Escola de Ensino Fundamental da Casa Blanca, da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. (Pausa.)
E tenho a enorme satisfação de convidar o representante do Escritório Central da Unesco, em Paris, Prof. Alton Grizzle, Diretor da Divisão de Liberdade de Expressão e de Desenvolvimento da Mídia e articulador do Programa GAPMIL – Global Alliance for Partnership on Media and Information Literacy. (Pausa.)
Eu agradeço a presença de todos, em especial das Srªs e dos Srs. Conselheiros, e comunico que S. Exª o Ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Sr. Gilberto Kassab, justificou a sua ausência por compromissos anteriormente assumidos.
Comunico que, como sempre, este nosso evento está sendo realizado em caráter interativo, através do Portal e-Cidadania, no endereço www.senado.leg.br/ecidadania, e ainda pelo Alô Senado, por meio do telefone 0800-612211.
Eu, imediatamente, passo a palavra ao nosso Coordenador, Conselheiro Ismar de Oliveira Soares, para que faça algumas breves considerações iniciais e a apresentação dos palestrantes.
Conselheiro Ismar, muito obrigado pela iniciativa, pelo empenho na organização deste evento.
A palavra é sua.
O SR. ISMAR DE OLIVEIRA SOARES – Sr. Presidente, é com muita satisfação, especialmente por parte dos representantes da sociedade civil neste Conselho, aqui presentes, que damos início a este seminário, um seminário internacional, com as presenças significativas da academia, dos protagonistas de ações de educação midiática e informacional no Brasil, e do Coordenador-Geral, por parte da Unesco, do programa The Media and Information Literacy.
Antes de iniciar o seminário, perante os membros do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional, assim como perante os convidados para esta reunião e os cidadãos que nos acompanham pela internet, necessito contextualizar as razões e a natureza da temática a ser apresentada e debatida. Trata-se de uma conversa sobre as mudanças que a cultura midiática está provocando em nosso cotidiano e, em decorrência, especialmente sobre a contribuição que um programa de educação midiática e informacional poderia oferecer para melhorar os processos educativos, tanto na educação formal escolar quanto na educação não formal, na família e nas organizações sociais.
E lembro aqui que o tema principal da prova do Enem, realizada ontem, não poderia ser respondido por alunos que não tivessem tido, na sua formação no ensino básico, elementos que permitissem que entendessem as questões de relacionamento, os contextos sociais em que vivemos.
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Portanto, para alguém ter tido um bom desempenho na prova do Enem, era necessário que tivesse também tido uma educação midiática e informacional que correspondesse a essa necessidade. Portanto, estamos falando de algo relativo ao currículo das escolas e algo relativo à prática social, especialmente no que se refere ao direito de conhecer o sistema de comunicação e de nele intervir a partir da perspectiva da cidadania.
Trata-se, portanto de uma conversa proposta pelos membros do Conselho que representam a sociedade civil, mas não é alheia às preocupações dos representantes dos grandes meios de comunicação, nem, tampouco, dos trabalhadores do setor igualmente representados na composição do Conselho.
Com relação à mídia, eu lembro que a Associação Nacional de Jornais tem um projeto de levar edições dos dias anteriores de jornais a escolas no País, permitindo que os alunos leiam esse material, discutam esse material. Não sei a quantas anda neste exato momento esse projeto, mas pude acompanhar, em várias partes do Brasil, a presença da mídia.
E nós temos também a grande mídia trabalhando em algumas áreas. Ontem, uma das frações do tempo do Fantástico foi uma proposta de educação informacional a respeito da presença da internet na vida das crianças, na vida dos adolescentes, na vida das famílias. Portanto, o tema de hoje interessa à grande mídia, como interessa também aos profissionais, lembrando que os profissionais da comunicação exercem uma liderança nos processos de educação midiática e informacional no País, associando-se aos educadores.
No caso, o Conselho de Comunicação Social se propõe a ouvir especialistas no âmbito dos fundamentos e das práticas que as Nações Unidas determinam como media and information literacy, algo que vai além do nosso âmbito brasileiro e que já está presente na sociedade internacional há várias décadas, mas foi a partir da Unesco que esses conceitos se consolidaram em todo o mundo, inclusive no Brasil.
As questões que vão ser colocadas aqui serão discutidas por diferentes setores. Primeiramente, ouviremos a academia: a Universidade Federal do Rio de Janeiro, com a Profª Raquel Paiva, que tem um núcleo de pesquisa na área da comunicação comunitária e que trabalha com formação midiática em algumas favelas do Rio de Janeiro. A questão que ela vai nos colocar é a respeito de como a sociedade civil se mobiliza em torno disso.
Nós temos aqui a presença da Clarice Villari e da Maria Eduarda Silva de Oliveira, duas adolescentes que participam de um projeto que integra uma escola privada e uma escola pública, discutindo e realizando projetos na linha da alfabetização em educação midiática e informacional, uma proposta pioneira.
E nós vamos ouvir e dialogar com o MEC, com a presença da Profª Sandra Zita Silva Tine, assessora técnica da Coordenação-Geral do Ensino Fundamental e Diretora de Currículos e Educação Integral da Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação e Cultura.
Na verdade, o Ministério, há muito tempo, vem trabalhando com essas questões, e interessa à Unesco dialogar com essas práticas, e a todos nós, cidadãos, também nos interessa dialogar com o Governo Federal a partir da proposta da Unesco de ampliar a educação midiática e informacional no País.
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E temos a presença do Sr. Alton Grizzle, representante do escritório central da Unesco, em Paris; membro da Divisão de Liberdade de Expressão e de Desenvolvimento da Mídia; e articulador do programa GAPMIL- Global Alliance for Partnership on Media Information Liberacy. O Sr. Alton está correndo o mundo, discutindo com os governos de todos os países, dos cinco continentes. Ele ficou muito honrado quando nós informamos que este Conselho havia aprovado o convite para que ele viesse aqui, uma vez que tinha muito interesse em participar juntamente com a Unesco, aqui em Brasília, representada pelo Sr. Adauto Soares. Ele quer ouvir. Ele pediu para ser o último a falar porque quer saber como o Brasil pensa essas questões, para finalmente intervir.
Faço essa contextualização, lembrando que muita gente nos acompanha pelo Brasil afora, já vinha acompanhando antes, quando foi anunciado este seminário, expressando-se. Certamente teremos oportunidade de ouvir a população brasileira, que nos acompanha em todo o País, a respeito desse tema.
No caso, passo imediatamente, por 20 minutos...
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Se me permite, Ismar, quero só fazer um registro, embora V. Exª o tenha feito em ligeiras palavras.
Destaco a colaboração do Dr. Adauto Cândido Soares, coordenador de comunicação e informação da Unesco em Brasília, que contribuiu nessa interlocução com a coordenação da Unesco, enfim, com a organização deste evento. Muito obrigado, Dr. Adauto, pela parceria, que tem sido sempre importante. V. Exª já esteve conosco aqui, em evento do Conselho de Comunicação Social.
O SR. ISMAR DE OLIVEIRA SOARES – Muito obrigado, Sr. Presidente.
No caso, então, a palavra é concedida, por 20 minutos, para a Profª Drª Raquel Paiva, doutora e pesquisadora do Laboratório Estudos de Comunicação Comunitária, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Por favor, professora.
A SRª RAQUEL PAIVA – Bom dia. Quero agradecer ao Prof. Ismar o convite e a esta Casa. É uma honra estar aqui.
Vou falar durante os meus 20 minutos, conforme combinado.
Começo, falando de um conceito que foi usado e foi muito presente na mídia nas duas últimas semanas: analfabetos funcionais. Esse conceito é da área de educação, como todos sabemos, e se refere basicamente ao fato de que o alfabetizado, apesar de conhecer o alfabeto e ter noções rudimentares da língua, não consegue realizar uma leitura, nem fazer uma redação básica.
Esse conceito foi muito usado nas décadas de 70 e 80, referindo-se principalmente à condição de manipulação. Esse foi também o sentido dado nesse uso recente. Vamos falar dele, mas antes preciso fazer uma distinção entre dois outros conceitos que são muito utilizados pela área da comunicação: mediação e midiatização.
Quando olhamos para a natureza, vemos os bichos, as plantas, a chuva, enfim, tudo o que é da natureza, ou seja, tudo o que é natural e está dado sem a intervenção humana. A questão fica complicada quando passamos a achar que as produções humanas também são naturais, ou seja, que elas existem e compõem o mundo da mesma maneira que a natureza, e, consequentemente, que a nossa compreensão e a maneira de lidarmos com elas também sejam naturais.
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Até o início do século passado, nós tínhamos instituições responsáveis por fazer a mediação entre o homem e o mundo. Tínhamos o trabalho, a escola, a família, a religião, a política, enfim, estruturas que eram responsáveis por realizar essa mediação, ou seja, explicar o mundo para o sujeito, inserindo o sujeito no mundo. Entretanto, tudo isso mudou. Essas instituições foram completamente invadidas pelo que nomeamos "midiatização".
O que vem a ser midiatização? Em linhas gerais, esse conceito, que vem da escola francesa e, hoje, é manuseado por ingleses, americanos e, mais recentemente, por suecos, com um livro que está causando frisson na academia (Mediatization), midiatização significa este momento, a concretização total do domínio da informação, com os seus valores e regras.
Tudo isso foi invadido pelo aparato de divulgação e de produção de mensagens. Não há nada que não seja tocado por essa preocupação. E sabemos, hoje, que o que está em jogo não são apenas estruturas argumentativas; estamos falando de uma ordem muitíssimo mais poderosa e definitiva, que a gente poderia denominar "o império do sensório".
Isso é ruim? É bom? Pode ser as duas coisas? Não nos cabe aqui deliberar sobre isso, mas, sim, principalmente aceitar e reconhecer que vivemos este momento: o momento da técnica total e quando, em qualquer lugar do mundo, você é tocado por essa produção. Reconhecer é, pois, o primeiro passo. Isso porque o não reconhecimento significa adotarmos a compreensão de que falei no início, ou seja, de que se trata de algo natural, da natureza, e não é. Trata-se de um sistema, e este sistema carrega as imperfeições da natureza humana.
Então, se temos um sistema político voltado para a inclusão social, o sistema de produção de mensagens é aberto a todos, que atuam não apenas como consumidores da produção. Se, por outro lado, temos um sistema de concentração de empresas responsáveis pela produção dessas mensagens – e, aqui, é importante que se entenda tanto o entretenimento quanto as notícias –, menos as pessoas têm acesso à produção de mensagens e, em maior número, são meros consumidores passivos.
Tudo isso que estou falando, de uma maneira bastante acessível, acredito, integra um quadro teórico que aporta autores da Escola de Frankfurt, com expoentes como Adorno e Horkheimer, e que consolidam uma ideia do filósofo Martin Heidegger, alemão, que ele chamou de Gestell. O que é Gestell? É essa armação técnica onde se insere também – e agora com força total – a produção da mídia.
Há autores de que eu gosto muito, como o filósofo italiano Gianni Vattimo, que foi meu orientador, e, no Brasil, Muniz Sodré, que trabalham com essa perspectiva já há muito tempo.
É preciso enfatizar ainda que, nas últimas décadas, alguns institutos e teóricos se preocuparam com a força dessa estrutura e com o quanto esse quadro poderia transformar a humanidade. E nós tivemos, no final da década de 70, um movimento muito importante, a partir de uma comissão criada pela Unesco, integrada por 16 membros, entre eles o então Prêmio Nobel da Paz, MacBride, e outros nomes como, inclusive, o escritor latino-americano Gabriel García Marquez, com o objetivo de fazer um diagnóstico da concentração dos meios de comunicação no mundo.
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Esse relatório – Muitas vozes, um só mundo (Many voices, one world) – foi divulgado em 1980, na Conferência Geral da Unesco, e chocou o mundo. Por quê? Além do diagnóstico, propunha uma nova ordem comunicacional, buscando promover a paz e o desenvolvimento humano. O final, todos nós, pelo menos da área, conhecemos: as sugestões foram engavetadas, e o relatório MacBride ficou como uma ideia. Eu diria um norte, uma plataforma que, agora, 40 anos depois, cada vez mais, assume o lugar de ponto de partida para uma reversão desse sistema de concentração de mensagens, de interpretação do mundo, porque, afinal, é disso que estamos falando.
Na América Latina tivemos um momento muito importante, com vários expoentes, dentre eles a maior referência nossa, que é o brasileiro Paulo Freire, mas também com nomes importantes, como Mario Kaplún, Juan Díaz Bordenave, Antônio Cabeça, Daniel Pietro, Martim Barbosa. Também tivemos inúmeros institutos, como o Séneca, no Chile; o Cinep, na Colômbia, e o Ciespal, no Equador, do qual fui aluna, institutos que se preocuparam em gerar e difundir possibilidades de questionamento da produção da mídia e também sistemas capazes de desmistificar a produção, além de esforços para gerar novas linguagens.
No Brasil, nossa origem foi a Igreja Católica, que, a partir da UCBC, União Cristã Brasileira de Comunicação, criou um modelo do qual todos nós descendemos de uma maneira ou outra e utilizamos ainda de diferentes maneiras: a LCC, ou Leitura Crítica da Comunicação. Todo mundo que hoje trabalha nessa perspectiva de análise da produção midiática, com certeza, utiliza essa metodologia, na maioria das vezes, porque é da década de 70, reinterpretada.
E aqui nós temos o expoente dessa corrente, que está desde o início e que conseguiu, com o esforço de toda uma vida, fazer com que esse arcabouço teórico e essa proposta metodológica alcançassem o estatuto de um curso de licenciatura e especialização. Hoje a ECA-USP tem um curso de Educomunicação graças ao trabalho do Prof. Ismar Soares. Um curso é importante, porque significa que a temática alcançou o pódio das temáticas sobre as quais se tem urgência de reflexão, e principalmente porque é capaz de formar pesquisadores e profissionais para atuar nessa área.
A relação entre educação e comunicação está dada desde o início de todas as discussões em torno do consumo das produções midiáticas. O que eu valoro como ponto fulcral na atuação da proposta da Educomunicação é o fato de ela ter se transformado numa presença concreta, há praticamente duas décadas, em inúmeras escolas do Estado de São Paulo principalmente, e pelo fato de aliar ao questionamento crítico o aspecto da produção. Quando ela insere a produção, ela entra na seara do lúdico, e é essa, talvez, a única esfera capaz de fazer frente a esse universo dominado pelo sensório.
Em linhas muito gerais, todas essas perspectivas possuem a proposta central de habilitar pessoas de todas as idades, de todos os sexos e de qualquer nível de instrução a ler, a interpretar a produção que hoje é responsável por nos dizer quem somos e o que fazemos.
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No Rio de Janeiro, há exatos dez anos – vou falar bem brevemente sobre esse exemplo –, nós iniciamos, com o Observatório de Favelas, uma experiência na Favela da Maré, quando criamos, com outras instituições, a ESPOCC (Escola Popular de Comunicação Crítica). Fazia parte desse programa a Universidade Federal Fluminense, o Canal Futura e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). O LECC, laboratório que eu coordeno, montou o projeto pedagógico e foi responsável pelo gerenciamento do curso até 2010, quando nos retiramos porque achamos que já tínhamos cumprido nosso papel.
As atividades da ESPOCC foram iniciadas em 2005. Em 2006, formou-se a primeira turma, com 42 alunos, que eram moradores de diversos espaços populares. A maioria desses jovens – e até hoje é exigido isso – tem o ensino médio completo e a idade entre 18 e 28 anos. Normalmente, eles já têm algum tipo de experiência e de leitura crítica e de trabalho de comunicação comunitária na região onde moram. Os professores, nessa época, eram professores da Escola de Comunicação e também profissionais da área. E, ao final do ano, eles recebiam diploma da UFRJ como tecnólogos de comunicação.
Eu cito esse projeto como exemplo, dentre tantas outras atividades de formação de jovens que temos realizado ao longo de quase 20 anos de existência do laboratório porque continuo acreditando na necessidade de sistematizar a leitura crítica da produção midiática de maneira a reduzirmos o fascínio e, consequentemente, o pouco questionamento crítico da produção.
O projeto que sempre defendi tem esse lastro que expus aqui de uma maneira sintética, mas que se encontra mais detalhado em vários livros e textos meus e entrevistas, que é o da capacidade de fazer com que o jovem seja capaz de ler e interpretar a produção da mídia. Já que nós estamos nos aproximando do final da minha apresentação, eu queria consolidar esse entendimento da midiatização. E gostaria de mencionar aqui uma frasezinha, um pensamento do sociólogo paulista Octavio Ianni, ao nomear a mídia como "o príncipe eletrônico" num dos seus últimos trabalhos. Ele estava parodiando O Príncipe, de Maquiavel. Ele se referia principalmente à televisão, que, para ele, no início do milênio, não se tratava mais
[...] do "quarto poder", do qual se começou a falar no século XIX. [Nas palavras dele:] Trata-se de um desenvolvimento novo, intenso e generalizado, abrangente e predominante da mídia no âmbito de tudo [...].
[...]
Trata-se de um meio de comunicação, informação e propaganda presente e ativo no cotidiano de [...] indivíduos e coletividades, em todo o mundo. Registra e interpreta, seleciona e enfatiza, esquece e sataniza o que deve ser a realidade e o imaginário.
Eu queria falar um pouquinho, para concluir, sobre esse enfoque na televisão, que, apesar das mídias digitais, até hoje, no Brasil, segundo os dados da Pesquisa Brasileira de Mídia de 2015, elaborado pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, junto com o Ibope (os dados não mudaram muito de 2014), segue sendo a principal fonte de informação e entretenimento para 95% da população brasileira, com os jovens de 14 a 25 anos assistindo a uma média de quatro horas diárias.
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O uso da mídia digital também não é desimportante, ele aparece em segundo lugar, com uma audiência de 48% dos brasileiros e um consumo de 5 horas diárias. O principal acesso da mídia digital são as redes sociais, em especial o Facebook – e principalmente via celular, não mais notebook, não é? É preciso que estejamos atentos para o fato de que vamos começar a visualizar, a partir de agora, um novo momento, porque o acesso completo ao mundo digital, facilitado pelo uso do celular, com sua marca da mobilidade, de certa forma equipara todos nós ao nível da produção e do consumo.
É impressionante que atualmente, apesar de estarmos, graças às redes sociais, no momento da maior e mais completa produção de mensagens, não tenhamos nos tornado mais capazes ainda de realmente interpretar a produção da mídia. Produzir hoje é muito mais fácil, e é para todos – tenho exemplos, que deixo para a hora da conversa, muito divertidos e interessantes, de pessoas de todas as idades, mas agora vou me aproximando do final. Entretanto, eu chamo atenção aqui para o fato de que esse acesso apenas nos dá a impressão de que estamos produzindo. Na verdade, na minha opinião, muito mais nós repetimos, é como se fosse uma garrafa de Coca-Cola dividida em inúmeras garrafinhas.
É certo admitirmos que hoje realizamos o paradigma da aldeia global, como preconizava o teórico canadense Marshall McLuhan. Certamente realizamos a ideia do fluxo informacional. Eu acredito que hoje é preciso recuperar os dados da Nova Ordem Mundial da Informação e da Comunicação, a Nomic, e, se já não podemos mais alterar o tabuleiro da concentração e produção midiática – mesmo porque, no final de década de 70, isso foi impossível com o relatório MacBride –, hoje, com a financeirização do mundo, mexer nessas peças é praticamente impossível e, no caso das crianças e dos jovens, também sabemos que não é possível proibir o acesso.
Dessa maneira, atuar no consumo se consolida cada vez mais como a única possibilidade. Capacitar as pessoas para uma audiência consciente – volto a repetir, quebrando a fascinação –, só assim é possível alterar o quadro, que mencionei no início, do analfabetismo funcional midiático. Esse é o lugar da educação para a mídia.
Muito obrigada. (Palmas.)
O SR. ISMAR DE OLIVEIRA SOARES – Agradeço à Profª Raquel, que nos deu um panorama teórico e prático do desenvolvimento das discussões no nosso continente e no Brasil ao longo das últimas décadas. Ela termina a sua fala apontando para a necessidade de uma aliança entre a educação e essa nova cultura, a cultura midiática.
Então, a pergunta é: como a educação está reagindo a essas questões e como tem desenvolvido suas práticas?
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Aí, para que fosse possível uma conversa a respeito disso, nós convidamos duas adolescentes, aqui presentes, que viessem falar aos membros do Conselho a respeito de uma experiência que desenvolveram ao longo deste ano, a partir, na verdade, de 15 anos de experiências de ambas as áreas aqui representadas – a área da iniciativa privada, o Colégio Dante Alighieri, no coração da Avenida Paulista, perto da Avenida Paulista de São Paulo, e uma escola de um Distrito de Campo Limpo, uma escola da Prefeitura de São Paulo. As duas escolas se uniram e implementaram práticas de educomunicação votadas para a alfabetização em educação midiática e informacional.
Então, agradecendo ao fato de as meninas terem aceito, agradecendo ao fato de as duas escolas terem concordado, e os pais terem concordado – um dos pais está aqui presente nos honrando – duas professoras vieram acompanhando – à Clarice Villari, do Dante Alighieri, e à Maria Eduarda Silva de Oliveira, da Escola de Ensino Fundamental da Casa Blanca, da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Elas nos apresentarão também – 20 minutos para as duas – a experiência que acabaram de viver.
A SRª MARIA EDUARDA SILVA DE OLIVEIRA – Bom dia. Meu nome é Maria Eduarda, tenho 13 anos e sou de São Paulo.
A SRª CLARICE VILLARI – Bom dia. O meu nome é Clarice, eu tenho 14 anos e eu também estou vindo de São Paulo.
Primeiramente, antes de falar qualquer coisa, a gente gostaria de agradecer fervorosamente a todos vocês pela oportunidade de estar aqui conversando com vocês. A gente gostaria de contar a todos um projeto que a gente realizou com muito amor, que é o Educom.geração.cidadã.2016.
A SRª MARIA EDUARDA SILVA DE OLIVEIRA – É um projeto interinstitucional que conta com a parceria do Colégio Dante Alighieri, do CEU Emef Casa Blanca, da ABPEducom, da Prefeitura de São Paulo e da NCE USP.
O CEU Emef Casa Blanca, que é uma escola pública na qual eu estudo, fica na região da zona sul de São Paulo, Distrito de Campo Limpo. Também temos aqui uma estudante da escola que está cobrindo o evento, a Ana.
A SRª CLARICE VILLARI – O Colégio Dante Alighieri é uma escola particular, centenária, que se localiza em São Paulo, na região próxima à Avenida Paulista. E, assim como na Imprensa Jovem, também tem aqui uma representante do Colégio Dante em Foco, a Júlia, que está fazendo também a cobertura do evento.
Mas o que o Dante e o CEU Emef Casa Blanca têm em comum? Bom, nesses dois colégios, os alunos têm a opção de fazer alguma oficina de jornalismo. No Dante, no caso a Dante em Foco, e no CEU Emef Casa Blanca, a Imprensa Jovem. Nesse projeto, essas duas oficinas se reuniram para realizar o Educom Geração Cidadã 2016.
A gente está aqui hoje representando um grupo de participantes do projeto, jovens como nós, são todas essas pessoas aqui. Eles não puderam estar aqui hoje, mas vamos sempre lembrar que esse é o grupo que a gente está representando. Todos eles tiveram uma parte muito importante no projeto.
A SRª MARIA EDUARDA SILVA DE OLIVEIRA – Agora eu convido vocês para assistirem ao produto final do nosso projeto.
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(Procede-se à exibição de vídeo) (Palmas.)
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A SRª CLARICE VILLARI – É emocionante! Eu não consigo.
Para chegar ao vídeo, houve todo um processo, não foi algo que surgiu do nada. Os professores, no primeiro semestre de 2016, já vinham conversando faz tempo, planejando. Então, foi uma coisa muito planejada lentamente.
Fomos apresentados ao projeto na mesma semana e tivemos nosso primeiro contato, digamos, visual via Google Hangouts, onde cada aluno de cada oficina se apresentou, disse nome, idade, por que gostava da oficina que fazia. Então, nós nos conhecemos um pouco virtualmente antes de nos conhecermos pessoalmente.
Antes de o projeto começar, assistimos a um vídeo, que seria o início da reflexão para o nosso projeto, que muitos de vocês já devem ter visto, chamado "Nós, os Povos!", da ONU, e tem as 17 Metas da ONU. A partir desse vídeo, tivemos a nossa reflexão inicial em que fizemos uma atividade sobre o mundo, que depois daria origem à maioria das atividades do projeto.
A SRª MARIA EDUARDA SILVA DE OLIVEIRA – Então, após trabalharmos o vídeo da ONU "Nós, os Povos!", recebemos a visita da oficina Dante em Foco no CEU Emef Casa Blanca, onde fizemos a conclusão do design, onde elaboramos os principais objetivos do projeto.
A gente teve muitos momentos especiais, criou fortes laços de amizades, quebrou barreiras. Foi uma convivência irreconhecível. Foi maravilhoso o nosso laço de amizade!
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A SRª CLARICE VILLARI – Complementando o que a Maria Eduarda falou, aproveitando o que ela disse, que foi uma integração muito grande que a gente teve durante o projeto: que idade a gente tem? Nós somos jovens. Nós estamos, prioritariamente, com 12, 13, 14, 15 anos. Então, o que a gente resolveu fazer? Como a gente não queria esperar para se ver de novo, o que é normal para a gente? A mídia, para a gente... A gente já nasceu com a mídia; a mídia é comunicação para a gente. Então, a gente resolveu fazer um grupo de Whatsapp com os alunos da Dante em Foco e os alunos da Imprensa Jovem. Mas isso não estava programado pelos professores, porque, na época, a classificação indicativa legal do Whatsapp era de 16 anos, mas ninguém no projeto tinha 16 anos ou mais! Então, na mesma semana, as duas professoras, nas duas oficinas, conversaram com os alunos, cada uma na sua oficina, e explicaram a questão legal do Whatsapp, o que significava que o grupo do Whatsapp não poderia continuar.
Como duas oficinas que fazem análise de mídia, essa conversa foi muito importante; porém, depois, a gente percebeu que não precisava de um grupo do Whatsapp, que fazia parte da emoção do projeto o fato de a gente esperar para se ver de novo, esperar para poder se abraçar e conversar olho no olho. Eu acho que isso fez também parte da emoção do projeto.
E também foi um aprendizado para a gente, que envolveu também a análise de mídia.
A SRª MARIA EDUARDA SILVA DE OLIVEIRA – Então, chegou o dia do próximo encontro, quando a oficina Imprensa Jovem visitou o Colégio Dante Alighieri, e, nesse dia, a gente produziu as laudas para as gravações nos estúdios de TV e rádio do Dante.
A SRª CLARICE VILLARI – A gente fez algumas gravações no Colégio Dante, e tudo isso para ser um trailer, digamos, um treino para a gravação do nosso vídeo convite, que foi o vídeo que vocês assistiram agora, que foi o que a gente decidiu que iria fazer quando a gente fez aquela atividade de reflexão sobre o mundo e que as duas oficinas compartilharam.
Então, depois da visita do CEU ao Dante, na próxima semana, os alunos do CEU, de novo, foram ao Dante para a gente começar a escrever o roteiro do vídeo convite. Foi uma escrita coletiva; não foi um aluno ou um professor que escreveu. Os alunos se dividiram em duplas ou trios – duplas Dante em Foco e Imprensa Jovem, prioritariamente – e cada aluno escreveu uma parte do vídeo. Então, cada aluno tinha um tema para escrever: alguns escreveram a apresentação; outros escreveram o que as oficinas faziam; outros, o que a gente queria com o projeto. Então, cada dupla ou trio ficou com uma parte do projeto. Para isso, a gente usou o Google Planilhas, da plataforma Google for Education, e, assim, todos escreveram, ao mesmo tempo, as suas partes do roteiro do vídeo. Então, foi uma escrita coletiva do projeto. Ninguém ficou sem fazer parte dessa escrita.
E a gente, depois, na próxima oficina, cada um na sua oficina, fez a análise do roteiro que a gente fez. Então, de novo, a gente comenta que isso faz parte também de um projeto com análise de mídia. Então, a gente analisou o roteiro, ensaiou as falas, modificou algumas falas das quais não tínhamos gostado. Então, todos os alunos fizeram parte dessa escrita do roteiro.
A SRª MARIA EDUARDA SILVA DE OLIVEIRA – E, depois de a gente definir o roteiro, a gente foi gravar o vídeo convite, que foi aqui reproduzido, nas externas da ECA/USP.
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A SRª CLARICE VILLARI – E, depois do grande dia em que a gente gravou o vídeo, algumas semanas depois, a gente teve o encerramento do projeto, dia 29 de outubro. Mas, antes de falar do encerramento, eu queria comentar que, na cerimônia de abertura, dia 13 de agosto, a gente montou um "mundo de tréguas", porque era época de Olimpíadas. Todos vocês devem saber que, na época de Olimpíadas, há o Muro da Trégua, que os atletas montam e onde escrevem seus desejos de paz. E a gente fez algo parecido, só que numa representação do Planeta Terra, em que a gente escreveu nossos desejos para um mundo melhor na cerimônia de abertura, dia 13 de agosto, e, na cerimônia de encerramento, a gente completou esse mundo de tréguas: a gente colocou as nossas impressões digitais para deixar a nossa marca nesse projeto.
A SRª MARIA EDUARDA SILVA DE OLIVEIRA – E não acaba por aí. O Educom.geração.cidadã.2016 também possui uma página no Facebook, onde a gente posta todas as fotos, o processo do projeto, e um canal no YouTube, onde a gente posta os vídeos do projeto. Há esse vídeo que vocês acabaram de ver, há um vídeo de depoimento e um vídeo de imagens do nosso projeto.
A SRª CLARICE VILLARI – Já chegando ao fim da apresentação, a gente gostaria de relembrar que esses são todos os participantes do projeto, esse é o grupo todo que a gente está representando, cada um deles teve uma participação especial no projeto, e de retomar as nossas hashtags que foram tema principal do projeto, #AceitaTodos e #PorUmMundoMelhor, porque o que uniu a gente nesse projeto foi a vontade de fazer alguma coisa para o bem. Então, isso integrou a gente de uma forma muito natural. Por isso a gente escolheu essas duas hashtags, #AceitaTodos e #PorUmMundoMelhor. A gente gostaria de retomar o "Faça você também", porque a gente não gostaria que isso fosse uma coisa que acaba, a gente gostaria que essa ideia de integração, de, digamos, querer mudança, de quebrar barreiras, a gente gostaria que isso continuasse para a frente, com outras ideias, com outras escolas. Então, a gente tem, realmente, esse desejo muito bom.
A SRª MARIA EDUARDA SILVA DE OLIVEIRA – Para finalizar, a gente gostaria de agradecer a todos os envolvidos no projeto, todos os educomunicadores e, de modo especial, o Prof. Ismar, que possibilitou a realização desse projeto. E eu peço uma salva de palmas para ele. (Palmas.)
É isso, gente, esse é o nosso projeto, e eu peço: faça você também. Vamos mudar o mundo juntos. (Palmas.)
O SR. ISMAR DE OLIVEIRA SOARES – Todos nós recebemos esse flyer em que se apresentam os projetos em várias línguas, inglês, português, espanhol, italiano, porque o Dante não podia esquecer o italiano. E aqui temos, através da conexão com a internet, três vídeos que poderiam assistir também e divulgar. Agradeço, então, à Maria Eduarda e à Clarice estarem aqui conosco e, com muita simplicidade, estarem apresentando sua proposta.
Na sequência, nós vamos ouvir a Profª Drª Sandra Zita Silva Tine, que representa o MEC, que vai conversar conosco a respeito das perspectivas que se abrem em nível de política de educação federal.
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A SRª SANDRA ZITA SILVA TINE – Bom dia a todos e a todas, senhores, senhoras.
Queria agradecer este convite. É sempre muito importante que o MEC consiga ter voz nestes espaços, que o MEC consiga explicitar as suas propostas, mas apresentar também seus desafios.
Queria agradecer particularmente o convite do Prof. Ismar e a aula da Profª Raquel, uma aula muito interessante, muito boa.
As meninas... Eu entendo que o projeto é exitoso não na apresentação, mas na própria forma como as meninas se portaram aqui. Eu entendo que a Educomunicação está presente dentro delas também – trouxeram até uma assessoria de imprensa! É um belíssimo projeto. Particularmente, as duas hashtags são muito significativas.
É um momento em que nós, da educação, estamos de fato precisando de ações como essa e, sobretudo, essa hashtag #AceitaTodos, é bastante significativa...
(Soa a campainha.)
A SRª SANDRA ZITA SILVA TINE – ... é uma hashtag que diz muito, não é?
É nessa perspectiva que eu quero falar um pouco sobre as políticas do MEC para a área da comunicação e da tecnologia, mas particularmente eu vou me deter, mais para o final da apresentação, em uma política que nos é muito cara, muito importante, que é o Programa Mais Educação – foi, inclusive, um pedido do Prof. Ismar que nós apresentássemos um pouco do Mais Educação e das mudanças que ele vem sofrendo agora, as mudanças de forma geral, a partir de novos olhares, de novas leituras desse programa.
O que eu pretendo fazer aqui, Prof. Ismar, é responder como a educação está reagindo a essas práticas e espero que contribua com este Conselho, espero que possa esclarecer algumas questões e, já de antemão, me coloco disponível para o diálogo e para outros momentos que sejam necessários.
Eu vou tentar aprender a brincar com isto aqui... (Risos.)
Na verdade, eu vou explicar um pouco da construção das políticas, sobretudo as políticas para comunicação e tecnologia – de que forma, com que parâmetros – , antes de entrar nessa política específica que é o Programa Mais Educação.
Sempre pensadas essas políticas, partimos da nossa legislação, do que nos orienta como Estado, como Ministério da Educação, para construir essas políticas. Então, coloquei algumas dessas referências básicas, algumas orientações legais elementares. Eu acho que poderia ter colocado a principal, a nossa Constituição, quando fala do direito à liberdade e à comunicação, mas também a Declaração dos Direitos Humanos e a própria Lei de Diretrizes e Bases, onde temos garantida a comunicação e o trabalho com as tecnologias em todos os níveis, em todas as etapas da educação básica, em todas as modalidades.
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Mais modernamente, eu diria a partir de 2014, nós temos uma legislação que é uma referência muito importante para todos nós, que é o Plano Nacional de Educação, a Lei nº 13.005, que foi uma legislação construída a partir de muita discussão, de discussão com toda a sociedade, com todos os espaços da comunicação. E ela teve também, no Congresso Nacional, um caminho de muita abertura, de muita discussão, que se consolidou na lei que chamamos de PNE.
E aí eu destacaria, para pensar as políticas de comunicação e uso de tecnologias, dois aspectos importantes no PNE, que é o fato de as tecnologias e a comunicação carregarem ideais de democracia, liberdade e justiça. Eles estão todos no mesmo patamar, eles estão todos interligados.
Do ponto de vista mais específico da educação, da escola, a comunicação e a tecnologia vão aparecer em diversos aspectos, não apenas na gestão, na administração, mas no uso de recursos e no currículo e infraestrutura, o que é muito significativo. Então, esse é um aporte fundamental para que a gente pense na construção das políticas para o uso de tecnologias e das políticas de comunicação.
Na perspectiva curricular, e aí eu estou falando mais especificamente do currículo de uma área que é afeita à educação, nós temos um caminho, que eu tentei explicitar. A BNCC (Base Nacional Comum Curricular) – e aí eu acho que cabe um parêntese – foi um processo de construção coletiva e que ainda está em andamento. A construção de uma base nacional para a educação básica brasileira é uma demanda surgida do PNE. O PNE disse que o MEC deveria fazer uma consulta pública, oferecer um documento inicial para consulta pública, a partir do qual deveria ser pensada a Base Nacional Comum Curricular para a educação básica.
Neste momento, nós estamos nesse processo de construção. E nesse processo é importante ver a comunicação e a tecnologia com esse olhar que eu tentei organizar a partir desse eslaide, que é a tecnologia como parte da cultura – isso ficou bem explícito na fala da Profª Raquel –, a importância e como ela é parte da vida da sociedade brasileira, enfim, do mundo de forma geral. E, como parte da cultura, ela tem um lugar importante nas práticas sociais. Tendo lugar importante nas práticas sociais, necessariamente, consequentemente, ela vai impactar nas relações educativas. Hoje, nós não podemos mais pensar as relações educativas sem o uso de tecnologias, sem a comunicação nessa perspectiva que vamos colocar mais para frente, que é a perspectiva da Educomunicação.
A tecnologia não pode ficar restrita ao que eu coloquei aí entre aspas, o que é muito comum nós falarmos na nossa área, na educação, ela não fica restrita aos muros da escola. O uso das tecnologias na atividade curricular precisa extrapolar esses muros. Ela tem tentado fazer isso, sobretudo com esse programa que eu vou colocar aqui para vocês, que é o Mais Educação. Além disso, na dimensão dos conteúdos, ela pode ser vista tanto do ponto das disciplinas que utilizam as tecnologias para o seu desenvolvimento, mas, sobretudo, do ponto de vista interdisciplinar.
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Nós sabemos, por complexidade do nosso mundo, da sociedade em que nós vivemos, que não há como fazer abordagens do ponto de vista apenas disciplinar. Como falamos no jargão comum, não podemos olhar só as caixinhas, nós precisamos envolver todas as áreas para dar um sentido. E, nesse aspecto, nesse ponto, entendemos que a comunicação e as tecnologias são ferramentas fundamentais, mas, mais do que ferramentas, elas são parte desse processo. Então, na perspectiva da abordagem curricular, nós entendemos a tecnologia nessa sequência ou nesse conjunto de ações que estão interligadas.
Para falar disso e para pensar como o MEC pensa as políticas de educação e tecnologia, eu fiz esse desenho tentando deixar mais objetivo e mais fácil de entender quais são os aspectos principais, quando nós pensamos nas políticas de educação para o uso das tecnologias na perspectiva da comunicação como nós entendemos.
Nós olhamos por quatro dimensões básicas: o estudante, o professor, o que nós queremos efetivamente trabalhar como aprendizagens, mas que recursos nós precisamos utilizar para que isso aconteça. Na verdade, vemos essas quatro dimensões sob dois aspectos importantes. Primeiro, vamos provocar e entendê-lo como um ecossistema comunicativo. Nós não podemos entender essas dimensões de forma separada. Então, provocar a comunicação entre essas dimensões é uma premissa básica para pensar nas políticas de tecnologia. O grande desafio é, apesar de pensar como um ecossistema comunicativo esse conjunto com essas dimensões, nós precisamos entender as especificidades de cada uma delas. O que quer o sujeito estudante? O que ele precisa aprender? Quais são as necessidades do sujeito professor? O que é preciso ser trabalhado, ser compreendido dentro da escola, e quais os recursos, de que forma e como o uso dessas tecnologias pode ajudar?
Eu tentei fazer um caminho para explicar como pensamos a construção dessas políticas. Mas, antes de falar do Mais Educação, eu não poderia deixar de falar de alguns outros programas que nós temos que são hoje de grande penetração na educação básica: nós temos a TV Escola; e por conta do Enem, já citado hoje pelo Prof. Ismar, nós temos o programa Hora do Enem, que superou todas as expectativas, tem mais de 18 milhões de assinaturas e é um dos nossos recursos mais importantes; nós temos a plataforma e-Proinfo, que se agrega, se junta à construção e à implementação dos laboratórios, trabalham de forma integrada; temos também o portal do Banco Internacional de Objetos Educacionais, que é um repositório no qual encontramos jogos, materiais e recursos para o trabalho educativo, e nós temos o Portal do Professor, que é onde os professores dialogam, é onde os professores colocam suas aulas para serem reorganizadas, para serem adaptadas pelos outros colegas. É um portal bastante interativo.
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Dito isso, eu quero falar especificamente agora do Programa Mais Educação, que é um programa que tem uma abrangência e uma capilaridade imensa no País. Ele foi criado pensando, inicialmente, na ampliação da jornada escolar. Ele tem, sim, o propósito de ampliar a jornada, que, em boa parte do País, hoje ainda é de quatro horas. Há unidades da Federação que têm cinco horas. O Distrito Federal tem algumas experiências de até dez horas de jornada, mas na grande maioria deste País, que é muito desafiador do ponto de vista de implementação de políticas, nós temos realidades muito distintas, de norte a sul do País. Pensamos que esse programa seria o start, a iniciativa do Governo para que as escolas ampliassem seus tempos. Mas de que forma? Não de qualquer forma. Pensando na educação, na perspectiva integral de atingir todas as dimensões humanas. E, para isso, o Governo articulou as políticas públicas de saúde, de comunicação e de cultura. Mas sobretudo, e eu acho que é uma questão fundamental, nós temos a participação das famílias e das comunidades, o que muito nos ajuda a entender o papel agregador das tecnologias, o papel de envolver todos os setores e, a partir disso, fomentar a geração de conhecimentos e de tecnologias sociais.
Bem, o Programa Mais Educação tem várias áreas, que denominamos macrocampos. Um dos principais macrocampos é o macrocampo chamado Comunicação, Uso de Mídias e Cultura Digital e Tecnológica, que, de alguma maneira e ao longo do tempo, foi agregado, em outros momentos foi separado. O mais importante é dizer que esse macrocampo tem sua fundamentação teórico conceitual na educomunicação. Então, nós trabalhamos o uso de tecnologias à comunicação nessa perspectiva. Não é o uso puro e simples das tecnologias, mas que elas estejam a serviço dessas relações horizontalizadas que precisam existir no âmbito da escola, da comunidade e da sociedade. Então, esse campo ressignificou muito o nosso entendimento de comunicação. Ele trabalha com múltiplas linguagens – eu estou olhando o meu tempo, eu vou ter que acelerar um pouco –, sobretudo com estas temáticas prioritárias: educação e direitos humanos, promoção de saúde, ética e cidadania.
Eu vou passar rapidamente por esse eslaide. Dentro do macrocampo Comunicação e Uso de Mídias, nós temos várias atividades. Nós temos atividades voltadas para fotografia, para o vídeo, tecnologias, mais recentemente, a robótica, rádio escolar e jornal, muito juntos e responsáveis pela interdisciplinaridade. Enfim, a comunicação se faz presente sobretudo do ponto de vista das tecnologias dentro desse macrocampo por essas áreas.
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Os números do macrocampo Comunicação e Uso de Mídias são admiráveis, e nós tentamos agregar, temos isso de várias maneiras por Estado, por Município. Mas eu aqui trouxe o agregado total do País. Só nesse macrocampo, temos envolvidos mais de quatro milhões de estudantes no País todo, divididos nessas áreas, o que para nós é muito importante, porque é o trabalho dentro da perspectiva da Educomunicação. Nós não vemos tecnologia apartada dessa ideia de que a tecnologia tem que promover as aprendizagens, tem que promover as relações do ponto de vista de elas serem relações amistosas, respeitosas. Que as tecnologias não sejam vistas em si mesmas, mas que sirvam ao propósito, que são as aprendizagens dos estudantes.
Esse próximo eslaide, deixo aqui, mas, claro, não era para trabalhar, ele é muito pequeno, não dá para ver. Trata-se de uma panorâmica por Estado de quanto esse macrocampo Comunicação e Uso de Mídias tem capilaridade e abrangência. É claro que os números estão muito pequenos, não era a intenção trabalhar esse gráfico, mas é uma amostra por unidade da Federação de cada uma dessas áreas do macrocampo Comunicação.
A partir deste ano, mais precisamente desse mês de outubro, o Programa Mais Educação foi reavaliado. Ele tem encaminhado a partir do que foi visto das pesquisas da avaliação e ele está sendo reorganizado. Todos os projetos que já existiam no programa continuam, ele vai sofrer acompanhamento, monitoramento e avaliação muito de perto nesse macrocampo a partir de 2017, mas vamos focar bastante nas aprendizagens. As aprendizagens são a razão fundamental da escola e nós precisamos disso, nós precisamos de que elas sirvam a isso.
Finalmente, os desafios, as políticas para a tecnologia em educação no País. Diante dessa diversidade toda, há ainda alguns caminhos a seguir, pensar em atingir todo o conjunto de estudantes da educação básica que hoje está em torno de 38 milhões na escola pública, sem contar as escolas privadas. Nós precisamos pensar na infraestrutura, na acessibilidade, nos equipamentos, que, de norte a sul, variam. Nós temos uma realidade na Região Norte muito distinta da Região Sul. Como atingir a todos? Mais que isso, que a comunicação seja, de fato, aprofundada e seja apropriada por professores, estudantes, gestores. Esse é um grande desafio ainda, porque a tecnologia e a educação não podem ser vistas meramente como instrumentos. E formar estudantes e professores nessa perspectiva é, para nós, um grande desafio.
Então, esse é um panorama geral. Eu teria ainda muito o que falar, mas entendo que este é um primeiro momento. Eu deixo aí os meus contatos.
Quero agradecer por me ouvirem, em nome da Diretora Teresa Pontual, a quem represento, que é a Diretora de Currículos e Educação Integral.
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Fico à disposição, sempre que for preciso, para dialogar com vocês.
Obrigada. (Palmas.)
O SR. ISMAR DE OLIVEIRA SOARES – Nós ficamos muito sensibilizados com a sua fala. Eu imagino que este Conselho poderá estar sintonizado com as tarefas estabelecidas pelo MEC. Nós temos aqui grupos de especialistas da área da mídia, de profissionais desse campo e da sociedade civil, que estão abertos para esse diálogo.
Na verdade, já que você falou em reforma do ensino, eu estou passando às suas mãos, e passarei às mãos também dos membros do Conselho, este pequeno livro chamado Educomunicação: o conceito, o profissional, a aplicação – contribuições para a reforma do Ensino Médio, já que o Governo está discutindo o ensino médio neste momento. Está bom?
A SRª SANDRA ZITA SILVA TINE (Fora do microfone.) – Ele vai ser de grande valia.
O SR. ISMAR DE OLIVEIRA SOARES – Está certo. Depois distribuímos para os colegas.
Eu passo agora a palavra ao Dr. Alton Grizzle, representante da Unesco, líder internacional e mundial no campo da Media and Information Literacy, para que, depois de ter ouvido as apresentações da academia, da prática escolar, e agora da Administração federal, possa nos dirigir a palavra, a partir de sua experiência e dos contatos internacionais com outros países, a respeito desse tema.
Então, com a palavra, por trinta minutos, o Sr. Alton Grizzle.
O SR. ALTON GRIZZLE (Tradução simultânea.) – Sr. Presidente e honráveis membros do Conselho, Prof. Ismar Soares, eu gostaria de agradecer ao senhor pelo convite que fez à Unesco para estar aqui neste Conselho, é um grande prazer estar aqui, outros membros da Mesa, senhoras e senhores. Eu não gostaria de esquecer das nossas duas jovens. Vamos aplaudi-las outra vez, por favor. (Palmas.)
O Prof. Ismar Soares é conhecido como o pai da educomunicação. Eu uso um termo para descrevê-lo, uma palavra hindu, um pouco difícil de pronunciar, utilizada para descrever outro pai, o pai das bibliotecas e da ciência da informação na Índia. Esse termo é um princípio fundamental que quer dizer a união de todo o conhecimento. Eu reconheço isso no Prof. Soares, que é o pai da educomunicação. Ele entende muito bem o que é o conceito da união de todos os conhecimentos e que a educomunicação é apenas um conceito para muitos outros conceitos dos quais ele fala. Ele entende a conexão entre todo o conhecimento, todos os campos da educação e da comunicação.
Eu convido vocês a seguirem as minhas apresentações enquanto eu falo.
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Eu vou falar sobre alfabetização midiática, sobre transformação. A Unesco usa este termo "informação e alfabetização midiática", que é muito similar ao que estamos chamando de educomunicação no Brasil. Minha apresentação tem cinco pontos importantes. Primeiro, quero falar a vocês sobre a relevância da Unesco no século XXI, sobre o nosso mandato, que nos foi atribuído pelos Estados-membros. Quero também falar sobre a importância da informação midiática para transformar a vida dos jovens no Brasil, sobre o que é informação e alfabetização midiática do ponto de vista da Unesco. Quero sugerir o papel de alguns parceiros importantes e, em quinto lugar, quero fazer algumas sugestões sobre o caminho do futuro.
Grande parte de vocês já deve saber que a Unesco foi fundada em 1945, após a Segunda Guerra Mundial, com base no conceito de que, como as guerras começam nas mentes dos homens, é dentro da mente dos homens que a paz deveria ser construída. Esse conceito famoso de mais de 70 anos atrás de que, como a guerra se inicia na mente dos homens, deve-se iniciar a paz também na mente dos homens é muito relevante para os dias atuais. Ele é relevante porque podemos traduzir este conceito de que, como o uso, o mau uso ou o subuso da tecnologia midiática da informação, das bibliotecas e da comunicação começam na mente dos homens, é na mente dos homens que devemos mudar isso. Também podemos traduzir isso, esse conceito, para dizer que, já que a má compreensão ou a falta de compreensão a respeito da mídia, da comunicação, das bibliotecas, da informação iniciam-se na mente dos homens e das mulheres, é na mente dos homens e das mulheres que devemos corrigir esse mau uso.
O trabalho da Unesco sobre essa informação midiática se concentra em fortalecer o uso livre e democrático da mídia. Então, o setor de comunicação e de formação da Tecnologia da Informação tem três aspectos importantes. Nós nos concentramos em promover a capacitação para o jornalismo profissional e para os especialistas de informação em mídia e infraestrutura. Nós olhamos o marco regulatório e jurídico das leis da mídia e a governança da internet também. Então, os primeiros dois aspectos falam da questão da oferta da informação, e o terceiro aspecto é o que chamamos de sociedades alfabetizadas na área da mídia e da informação ou o que vocês estão chamando de educomunicação.
Senhoras e senhores, nós vivemos num mundo virtual. Acredito que grande parte de nós pode se entender em algum lugar deste mundo. Seja no mundo da televisão, do Facebook ou do Radiopélago, nós vivemos num mundo virtual. Vários daqueles que falaram antes de mim já comentaram isso. Tudo que fazemos, tudo que aprendemos sobre o mundo ao nosso redor é mediado neste mundo virtual.
Os desafios que nós enfrentamos são os desafios de oportunidades versus riscos. Como podemos equilibrar os riscos e as oportunidades? Se vocês olharem essa balança, vocês vão ver que aqui ela está inclinada mais para o lado dos desafios e dos riscos. Então, nós nos concentramos muito nos riscos e nos desafios da Tecnologia da Informação, mas a Unesco sugere que nós revertamos o cenário e que nós pesemos mais a favor das oportunidades, das tecnologias, das informações, das mídias da informação.
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A questão é que as tecnologias da informação nos oferecem mais oportunidades do que riscos. Os benefícios pesam muito mais do que os desafios que enfrentamos, pelo menos para a Unesco.
Outro desafio desse mundo digital, o desafio da batalha da mente, é a questão de empoderar ou proteger. Então, novamente, nosso balanço está inclinado para a proteção, mas a Unesco sugere que como as oportunidades são muito maiores do que os desafios, nós não devemos ter esse cenário em que concentramos mais na proteção. Vamos concentrar mais em empoderar o cidadão para capitalizar esse mundo virtual ou eletrônico.
Precisamos utilizar a alfabetização mediática e dar informação para transformar a educação. Quero que cada um reflita um pouco sobre essa definição proposta pelo New London Group – Grupo Novo de Londres. Eles dizem que é possível definir a missão da educação, é difícil, mas é possível. E poder-se-ia dizer que a missão da educação tem um propósito fundamental de que os alunos e o cidadão possam se beneficiar da educação de uma forma que permita que participem integralmente da vida comunitária pública e econômica.
Eu gostaria de enfatizar a última parte: educação deve potencializar a participação na vida econômica pública e comunitária. Essa é a meta da alfabetização midiática e da informação. Vocês já sabem um pouco sobre isso. Eu quero falar sobre seis pontos importantes para garantir que a mídia e a alfabetização informacional sejam mainstream na educação.
Primeiro, devemos garantir que a mídia, a internet e outros provedores de informação estejam presentes em todos os lugares. Eu chamo esse conceito de everywhereness, presença em todos os lugares. Não podemos evitar informação invadindo cada aspecto da nossa vida. Quando acordamos para sair da cama precisamos de informação, que roupa vestir já é uma informação. Então, nós não podemos nos concentrar na proteção porque nós não podemos proteger o jovem da internet. Devemos empoderar o jovem a ser mais crítico da tecnologia, a engajar de forma crítica com a mídia, com a tecnologia e usar essas ferramentas para seu desenvolvimento pessoal.
O segundo aspecto é que a mídia e as outras fontes de informação são importantíssimas para modelar nossa percepção, crenças e atitudes. Essa é a primeira vez que venho ao Brasil, sou jamaicano, não é muito distante daqui. Os jamaicanos amam os brasileiros tanto quanto os brasileiros amam os jamaicanos. Mas eu já sei tanto sobre o Brasil, apesar de pisar hoje pela primeira vez. Eu sei tanto pela mídia. Lógico, estando aqui, eu tenho que confirmar isso, mas a minha percepção do Brasil e do brasileiro vem pela tecnologia. Eu já mudei a minha percepção na última semana em que estive no Brasil, esta semana. Mas é interessante, porque a mídia nos dá a possibilidade de analisar, de pensar nos estereótipos da informação, da educação, da pesquisa. Muitas vezes, nós nos concentramos muitíssimo na tecnologia. Não é apenas uma questão de tecnologia, mas também da sua pesquisa pessoal, porque isso reflete, por exemplo, o viés.
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O terceiro ponto é que a alfabetização foi redefinida. Nós já ouvimos isso da representante do Ministério da Educação. Não podemos mais nos concentrar nos três erres, que seriam reading, writing e mathematics, a leitura, a escrita e a matemática. As pessoas precisam de novas habilidades para gerarem opiniões e para analisarem de forma crítica o conteúdo midiático. Os jovens precisam de habilidades para aprenderem como proteger sua privacidade e quais são seus direitos humanos no mundo virtual e no mundo real.
A quarta razão é que existe um aumento de conteúdo, como vocês já ouviram desses jovens. Não posso dar a vocês dados, estatísticas ou números chatos a respeito de quantos vídeos são "loadados" na internet a cada minuto. Mas vemos agora uma mudança muito radical no que era o jornalismo tradicional. Agora, nós temos o cidadão jornalista, que cria a informação e a coloca em tempo real. Então, é importante que esses jovens tenham as competências para serem jornalistas adequados.
O quinto aspecto é que a mídia e a informação são centrais na democracia, na boa governança e no desenvolvimento sustentável. Vamos olhar esse triângulo, que nos mostra a relação entre a democracia, a boa governança e o desenvolvimento sustentável. Por um lado, nós temos os provedores de informação midiáticos e a ecologia, que a minha colega do Ministério da Educação descreveu. Mas o que falta? Nossa meta é a democracia. E nós também temos fontes, temos bibliotecas e formas de tecnologia novas, mas o nosso cidadão não é alfabetizado. É isso que falta no triângulo. Ainda falta muito para alfabetizar o nosso cidadão midiaticamente. O último ponto é que, através da alfabetização midiática, nós podemos empoderar o cidadão a contribuir bem para a mídia. Nós sempre ressaltamos os aspectos negativos da internet e da mídia, mas, com boas competências midiáticas, os jovens podem responsabilizar a mídia, podem ser intermediários e manter um ambiente midiático mais responsável, para a melhor experiência da internet.
Agora, vamos à definição da Unesco de informação midiática e de educação midiática. A Unesco junta dois campos tradicionais, que são muito separados. Por isso, nós usamos o termo "união do conhecimento". Somos muito bons em segmentar, em separar, em dividir, e isso acaba confundindo muito a definição, num campo em que isso poderia impactar muito mais.
Nós definimos a informação, a alfabetização informática e a alfabetização midiática, a capacidade de comunicar informação eticamente. Hoje, no século XXI, usar a informação de forma ética é muito importante para todos os cidadãos midiáticos. Do lado da alfabetização midiática, temos de entender as condições, as formas, os meios. Como podemos levar isso? Precisamos de uma internet aberta e independente. Também temos de analisar o conteúdo da informação de forma responsável e utilizar a mídia para a tolerância. Nós ouvimos a palavra "tolerância" da boca das duas jovens hoje, que nos inspiraram, mostrando como estão utilizando a tecnologia para transformar vidas e o mundo.
Esses são os diferentes aspectos dos dois campos. Agora, qual é a relação dos dois campos? Vou usar a teoria matemática de sets. Aqueles que se lembram da 2ª série vão se lembrar dos conjuntos. Muitas pessoas acreditam que a alfabetização da informação é o maior grupo e que a alfabetização midiática é um subconjunto.
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Alguns acreditam que é o inverso, que um é subconjunto do outro, alguns acreditam que são campos separados, completamente separados. Não acredito que podem acreditar nisso, porque a alfabetização midiática está completamente ligada à educomunicação e não poderiam ser campos separados. Alguns acreditam no conceito da interseção dos dois. A Unesco propõe que peguemos o conjunto total de competências e que unamos esses dois campos. A informação literária, a alfabetização informacional e alfabetização midiática, nós achamos que juntamos os dois campos e temos a educomunicação. Existem muitos conceitos sendo usados. É importante que vocês, formadores de políticas públicas, saibam disso. Podem ver todos os diferentes nomes: alfabetização de bibliotecas, educomunicação, informação e a alfabetização computacional digital, alfabetização midiática, alfabetização da imprensa, também falam de alfabetização social. A Unesco está propondo um conceito guarda-chuva, que seria Alfabetização Midiática e Informacional e que incluiria o conceito de educomunicação como subconceito.
Nós acreditamos que essa abordagem é futurista, porque ela harmoniza o campo todo e faz com que o campo seja mais claro, também dá melhor visão aos geradores de políticas públicas para que eles possam entender do que estamos falando.
Nós também falamos de convergência. A convergência tem direcionado ao que nós entendemos como bibliotecas, como informação. Por exemplo, nesse dispositivo móvel eu posso acessar música ou um arquivo digital e também uma biblioteca. Eu também posso acessar a informação, conhecimento, jornal, televisão, livros... Então, são dispositivos que podemos usar para chegar a diferentes lugares.
Em terceiro lugar, ao tentarmos integrar a alfabetização midiática no currículo educacional, é importante que todos parceiros tenham uma definição comum. Nós não podemos gerar currículos diferentes. Um currículo para educomunicação, um currículo para a informação midiática. Não, isso seria muito confuso, precisamos harmonizar e ter uma abordagem em comum.
Nesse conceito composto, nós reescrevemos as competências da informação, da alfabetização midiática e não vou lê-las, devido ao nosso tempo, mas vocês podem acessar e visitar esses dez conceitos amplos do que é a Alfabetização Midiática e Informacional. (Pausa.)
Muitas vezes, precisamos ler, nós nos concentramos tanto na tecnologia que esquecemos a importância de se ler. Na Unesco, nós falamos muito da leitura, é preciso ler para liderar. Se quer ser líder, tem que ler. Então, aqui é uma demonstração de vocês lendo enquanto eu descanso a minha voz. Leiam os pontos e eu vou descansar a minha voz. (Pausa.)
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Este é um componente muito crítico que ouvimos dos jovens hoje: como podemos nos engajar com a mídia e com a informação para buscar a autoexpressão de algo intercultural e de algo inter-religioso, a democracia e a igualdade de gênero, para proteger nossos direitos privados?
Na última semana em que estive no Brasil, aprendi que os brasileiros não têm uma noção muito clara de privacidade na internet. O brasileiro acessa a internet e disponibiliza toda a sua informação. Os poucos brasileiros que sabem sobre a privacidade e têm algo contra o Governo ao acessar sua informação, essas mesmas pessoas doam suas informações aos grandes conglomerados da mídia social. É importante que o cidadão entenda seu direito à privacidade e também saiba respeitar a privacidade dos outros.
Outra questão conceitual que nós enfrentamos é a questão da radicalização, do extremismo e do ódio na internet. Nós sabemos que a internet é um lugar onde o ódio prolifera. Podemos falar sobre isso por dias. Mas o que precisamos fazer é contrariar o ódio on-line. Podemos fazer isso através de, por exemplo, as hashtags que os jovens utilizaram hoje, como a hastag #aceitamtodos ou como a hastag #vamosterummundomelhor. Essa é uma nova abordagem para contrariar o ódio on-line. Esta é a meta da alfabetização midiática: contrapor esse ódio.
Podemos também falar das bibliotecas on-line e da alfabetização midiática. Nós podemos falar também da importância da mídia para o entretenimento, para o conhecimento e para o engajamento no desenvolvimento.
Nós podemos também pensar no que precisamos entender sobre esse processo. Isso é um pouco da integração da internet, quando olhamos o processo e o que é importante entender para a alfabetização midiática. Nós também não falamos da tecnologia que, acreditamos, atravessa todos esses diferentes aspectos.
Há muitos diferentes atores participantes, aqueles que se concentram nas TICs, nas Tecnologias da Informação. Também há outros participantes que se concentram na alfabetização midiática. Há educadores, há especialistas dos arquivos, das bibliotecas on-line e dos museus on-line.
O que nós precisamos garantir é uma meta comum, um objetivo comum, e a Unesco tem advogado em nível global para isso, tem defendido essa causa. Nós fazemos isso com cinco diferentes leis sobre a mídia e a informação. Eu gostaria que vocês olhassem essas cinco leis por alguns momentos, porque são muito importantes para levar adiante o processo da alfabetização midiática.
Essas cinco leis foram propostas pelo professor que eu já mencionei. A primeira lei trata da informação, da comunicação, de bibliotecas midiáticas, de mídia, da internet, da ecologia, que nós descrevemos hoje de manhã. Outros provedores de informação devem ser utilizados para o engajamento cívico e crítico e para o desenvolvimento sustentável. São iguais. Isto é importante na primeira lei. Não devemos enfatizar muito a tecnologia para cima dos livros e das bibliotecas. A primeira lei diz que todos são iguais. Nenhuma é maior que a outra, e nenhuma deve ser tratada como mais importante que a outra, se esperamos que haja um impacto em comunicação e em mídia. Essa é a primeira lei.
A segunda lei diz que devemos reconhecer que cada cidadão é cocriador da informação e do conhecimento e tem uma mensagem a dizer, tem algo para dar ao mundo, seja o cidadão com acesso à informação ou não. Eles estão criando informação e conhecimento e devem ser empoderados para que possam acessar novas informações e conhecimento e para que possam se expressar.
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A alfabetização midiática e informacional é para todos, deve existir igualdade. Não devemos oferecer esse poder como uma reserva para aqueles que têm aceso à tecnologia ou às grandes elites da educação superior. Não, isso tem que chegar ao marginalizado, às mulheres e aos homens de forma igual, a informação midiática e a alfabetização midiática são um direito humano.
A lei quatro, nem todas as mensagens têm valor, não são neutras de valores e não enviesadas. Qualquer tipo de aplicação da alfabetização midiática deve reconhecer e trabalhar para a transparência para todos. Existe viés dentro da informação midiática.
Agora é a quarta lei. Todo cidadão quer conhecer e entender novas informações e mensagens. Mesmo se ele ou ela não entendem, os direitos dele ou dela devem ser respeitados e nunca podem ser comprometidos.
Finalmente, nossa última lei: a Alfabetização Midiática e Informacional não é um assunto que se adquire de uma vez, como uma matemática, em que se aprende a trabalhar o algarismo ou a álgebra. Não, não é assim que funciona a alfabetização midiática, é uma experiência dinâmica, viva, um processo eteno. Ele só se completa quando inclui habilidade, conhecimento, atitude, quando encobre acesso, avaliação, uso, produção da comunicação, da informação, da mídia e do conteúdo tecnológico. Essas são as cinco leis que a Unesco acredita que irão levar a alfabetização midiática ao próximo nível, a uma verdadeira integração curricular.
Agora eu gostaria de falar um pouco sobre o papel dos parceiros, mas, na verdade, vou passar rapidamente por isso, porque ouvimos isso hoje de manhã, o papel dos jovens. Nessa última semana, na qual estive no Brasil, descobri que 800 escolas foram ocupadas pelos secundaristas. Isso deveria inspirá-los, nós deveríamos ver essa notícia circulando na mídia, porque, nas metas de desenvolvimento do milênio, deveria existir acesso à informação, todos deveriam estar na escola.
Então, desenvolvimento é dotar todo mundo, escolarizar a população. Nós queremos escolarizar toda a população escolar, na Jamaica, no mundo inteiro, isso é um desafio. Isso vai nos desafiar, não deveríamos nos envergonhar desses jovens que nos desafiam de volta. O brasileiro tem atingido a escolarização universal, todas as crianças estão na escola ou quase todas, mas a qualidade não seguiu, a qualidade não acompanhou esse ritmo de escolarização nem na África, nem na Jamaica, nem no Brasil. Mas nós temos visto um empoderamento crítico dos jovens no Brasil. Que época interessante quando um jovem te demanda educação de qualidade. Isso deveria nos inspirar e não nos envergonhar. Isso é algo positivo, essa demanda do secundarista.
Nós precisamos também articular as políticas nacionais. Vou falar um pouco mais sobre isso no final da apresentação, ao qual estou chegando. Nós precisamos engajar professores e pais. Eu quero agradecer aos pais que estão aqui. Quem é pai aqui? Por favor, levante-se! Levante-se se estiver aqui e se você for pai. Ah, esse pai da menina que está na Mesa, o pai da jovem que está na Mesa. Por favor.
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Fiquei sabendo que o pai de uma das jovens está aqui.
Por favor, vamos aplaudi-lo, sem vergonha alguma! (Palmas.)
Muito obrigado por permitir que sua filha esteja aqui conosco.
Olhem que papel importantíssimo no desenvolvimento da política pública! Como um pequeno lembrete, quero dizer que estamos falando aqui sobre o engajamento crítico e cívico do jovem, estamos falando da reforma midiática, da transformação do mundo.
Agora, falamos do papel das bibliotecas, dos arquivos e dos museus on-line. É importante a ecologia. Não nos podemos esquecer da nossa memória coletiva. Eles têm um papel muito importante para a transformação, para a tolerância, para a paz e para o desenvolvimento.
Quando falamos de alfabetização midiática, precisamos de ONGs engajadas. Gostaríamos de agradecer ao Brasil pela liderança da educomunicação, que é uma ONG muito importante neste campo, que é um projeto importante.
Precisamos de mais pesquisa também sobre o impacto da mídia, da alfabetização midiática no desenvolvimento e na educação.
Chegando ao fim, quero dizer que nossa estratégia na Unesco se concentra em professores digitalmente alfabetizados, para conseguirmos formar alunos digitalmente alfabetizados, midiaticamente alfabetizados, para conquistarmos nossa meta.
Temos desenvolvido também kits de ferramentas para falar sobre o desenvolvimento midiático. É este currículo que está aqui demonstrado. Como parceiros, trabalhamos com o Cetic, uma instituição importante no Brasil, e traduzimos essa ferramenta importante, esse currículo, para o português. Essa ferramenta está disponível em 16 a 20 línguas mundo afora. Essas 16 línguas não foram patrocinadas pela Unesco. A Unesco pagou por três traduções. Nossos parceiros, em todos os países, incluindo os Estados árabes, falaram para a Unesco: "Nós precisamos dessa ferramenta para guiar a nossa educação." Pediram isso para a Unesco, e a Unesco falou: "Nem precisam de permissão. Essa é uma ferramenta pública e aberta, o que é também um princípio da alfabetização midiática." Então, disponibilizamos essa ferramenta para promover a alfabetização informacional e midiática. Todos os meios, os jornais, as bibliotecas, a internet devem promover isso e ter políticas sobre isso. Não podemos só obter políticas guiadas pelo Estado, mas também políticas multiparceiras, que são a política do futuro.
Como comentei, precisamos de políticas. Então, também desenvolvemos diretrizes para o desenvolvimento de políticas públicas. Também já foi traduzido para o português esse documento. Temos um briefing de políticas, é um livro completo com seis capítulos, com 200 páginas. Nós sabemos que os senhores e as senhoras são muito ocupados. Então, fizemos um pequeno resumo de 20 páginas. É muito simples e muito acessível a linguagem. Vocês podem ler sobre a importância das políticas nessa área.
Não estou falando de começar de uma tábula rasa. Não! Estou falando que já temos uma história em políticas, temos leis. Legislações já existem no Brasil e no mundo afora. Temos políticas para TICs, para Tecnologias da Informação, mas não podemos confundi-las com políticas para alfabetização midiática, porque não são a mesma coisa. Temos políticas de educação, políticas de informação e políticas midiáticas. Acreditamos que o que falta nessa ecologia são as políticas de alfabetização midiática, porque aqui vamos empoderar os jovens, para que eles possam interagir com os outros aspectos. Precisamos garantir que eles reflitam sobre a informação midiática
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Nós precisamos formar habilidades, competências para os jovens, as competências que eu já descrevi antes.
Então, o que deverá dirigir as nossas políticas? Não vou descrever tudo isso, porque sei que já passei do meu tempo, mas vocês podem ver a disposição aqui, na minha apresentação.
Deveríamos encorajar convergência nas nossas políticas. Não podemos ter políticas isoladas, temos que ter políticas transversais. Precisamos que cada ministério tenha um papel aqui. O Ministério da Educação, da Comunicação, da Agricultura, o Ministério da Cultura, todos os ministérios têm um papel a desempenhar na articulação de políticas e de medidas de Alfabetização Midiática e Informacional. Por exemplo, Amazonas. O Brasil deveria ter o mesmo acesso, o máximo de acesso possível à Alfabetização Midiática, porque podem analisar o mundo do qual participam também. Precisamos pensar nos direitos, uma abordagem baseada no direito. Devemos mudar do protecionismo ao empoderamento. Vamos considerar a sociedade da informação, a qualidade da informação, acesso universal, multilinguismo ou diálogo intercultural. Devemos levar em consideração a diversidade linguística e cultural e não vamos esquecer uma abordagem baseada na igualdade de gênero. Precisamos lutar pela igualdade de gênero na mídia e em todas as formas de alfabetização midiática.
Então, esses seis conceitos são centralizantes ao trabalho da Unesco. Na verdade, a Unesco se concentra principalmente na prioridade da igualdade de gênero. Estou muito feliz que tenhamos igualdade de gênero nesta Mesa, hoje, aqui, e também igualdade de gênero nos membros do Conselho, isso me impressiona.
Eu gostaria de dizer que esta última ferramenta também é um currículo. Nós temos um currículo. Nós temos currículo, temos política, temos ferramentas e agora essa ferramenta aqui é uma ferramenta que monitoramento e avaliação. Isso também já foi traduzido para o português. Nós temos um documento de políticas sobre avaliação e monitoramento. Nós acreditamos, nós sabemos que vai demorar um pouco para integrar a alfabetização midiática à educação, mas não estou falando aqui apenas de educação formal, mas também da educação informal. Então, estamos desenvolvendo cursos abertos, on-line, cursos universais, cursos em inglês, já estão em francês, em diferentes línguas. Nós estamos trabalhando, em parceria com a Unicamp, para desenvolver uma versão em português desses cursos, o que nós chamamos de MOOCs, que são os cursos on-line abertos.
Vocês já devem conhecer a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática Informacional. Nós precisamos de uma rede global. Foi essa rede global que levou a organização de uma semana de informação de alfabetização midiática que está sendo celebrada hoje. Temos 900 membros no evento de todo o mundo. Eles estão compartilhando informações para a integração da alfabetização midiática para a transformação e reforma dessa questão.
Estamos muito agradecidos pela educomunicação, que tem trabalhado conosco em 2016. No final, falei de pesquisa. Nós temos uma rede de pesquisa sobre alfabetização midiática e a USP faz parte dessa rede. É um grande prazer dizer isso. É uma longa caminhada. Esta foto aqui expressa um pouco dessa longa caminhada.
Mas nós podemos olhar esse elefante na tela e vemos que esse elefante tem fortes pernas.
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Essas fortes pernas representam os nossos parceiros, os nossos criadores de políticas públicas, os nossos profissionais da educação, os nossos educadores, os nossos tecnocratas, as organizações da sociedade civil e a juventude. Essas pernas desse elefante somos nós.
A estrada é longa, podemos trilhá-la juntos. Podemos transformar a educação através da alfabetização midiática, e isso é urgente. O Ártico está derretendo. Precisamos começar imediatamente a transformar a educação com essas ferramentas.
Quero terminar, dizendo: "Conhecimento é poder. Informação é libertadora. Educação é uma premissa para o progresso em qualquer sociedade, em qualquer família."
Devemos destravar as mentes. Foi o famoso filósofo e matemático francês René Descartes que nos disse: "Penso; logo, existo." Descartes nos disse "penso; logo, existo", e acredito que outra pessoa já nos disse: "Como pensa o homem assim é."
Então, a Unesco propõe que, através da alfabetização midiática e informacional, não é suficiente apenas ser, temos de dar um passo além desse ser, de Descartes, e esse passo além é a tomada de ação. Uma vez que pensamos e que somos, uma vez que já pensamos e que somos, devemos tomar a ação.
Paulo Freire falou ao mundo sobre a pedagogia da esperança, falou sobre o aprendizado que leva a uma mudança de comportamento. A ação foi uma contribuição de Paulo Freire.
A Unesco tem o "u" de "união". Acreditamos que, através da alfabetização midiática, podemos destravar muitas mentes. Podemos reformar a educação com a alfabetização midiática.
Agradeço a atenção. (Palmas.)
Temos um rápido vídeo.
Devo agradecer-lhes. Deus abençoe a todos!
O vídeo está legendado.
(Procede-se à exibição de vídeo.) (Palmas.)
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O SR. ISMAR DE OLIVEIRA SOARES – Só me resta agradecer ao nosso líder da área da Unesco no campo da educação midiática informacional pela atenção, pela forma como preparou a sua presença aqui, pelo entusiasmo com que se manifestou, nos envolvendo a todos e convidando o Brasil a se articular. Dentro das propostas da Unesco, o Brasil é um dos Estados-membros da Unesco para avançar nesse campo.
Nosso muito obrigado à sua participação.
Encerramos as apresentações. Então, transfiro aqui a palavra para o Dr. Miguel Ângelo para que ele dê prosseguimento, então, ao diálogo em torno das grandes falas.
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Muito bem.
Também reitero os agradecimentos, não só ao representante da Unesco, ao Sr. Alton Grizzle, mas aos quatro integrantes desse importantíssimo painel. Acho que chegamos ao final das exposições com uma série de instigantes provocações. Por falar em instigantes provocações, houve a advertência que nos fez o representante da Unesco, quando disse que a postura dos jovens devia mais nos inspirar do que nos envergonhar nesse enfrentamento que está sendo feito. O que vemos hoje de debate midiático é muito de tentar transferir a ideia de que devemos nos envergonhar das atitudes desses jovens. Concordo com essa sua expressão, de que isso deve mesmo nos inspirar. Esse seminário hoje nos inspira.
Nós recebemos, por falar em inspiração mesmo, várias manifestações vindas do portal e-cidadania do Senado. Vamos dar oportunidade à leitura de alguns desses questionamentos. Mas colho inscrições dos Conselheiros. Por favor. Roberto, Schröder, Ceneviva, Davi.
Conselheiro Roberto Franco, para iniciar.
O SR. ROBERTO DIAS LIMA FRANCO – Bom, vou ser repetitivo no agradecimento, no elogio à qualidade do painel. É muito positivo e me deixou muito feliz ver algo aqui citado em todas as falas. A aposta em um caminho da educação, em um caminho do empoderamento do cidadão ao invés de proteção e proibição.
Nós sabemos que em alguns momentos é necessária a tutela, é necessário certo controle, mas o caminho trilhado de apostar simplesmente nesse controle e nessa tutela, o julgamento de que temos uma população hipossuficiente para tomar a decisão é algo perigoso e empobrecedor em longo prazo.
Então, há esse caminho na educação, o caminho do empoderamento.
E a prova viva de que isso é possível é o fato de que essa juventude está nos dando aqui um brilhante exemplo. Eles nos mostram que, apesar do que se fala comumente hoje, de que infelizmente as mídias eletrônicas empobrecem o diálogo, visto que até o português se empobrece em ferramentas e mídia social, nós vimos aqui duas representantes falando em nome de um grupo imenso, com total domínio da língua, com total domínio do raciocínio, dando para nós uma mensagem muito animadora.
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Também fiquei muito feliz ao ver, pelas palavras do representante da Unesco, que essa experiência global e a tendência global seguem por este caminho de educação e de empoderamento dos cidadãos, para que a gente possa construir um mundo melhor, usando a tecnologia, como disse a representante do MEC, a Profª Sandra, não como finalidade em si só, mas, sim, como um recurso de enriquecimento da sociedade e da civilização.
Então, eu gostaria apenas de registrar este agradecimento.
Agradeço o livro e digo que vou cobrar meu autógrafo. (Risos.)
Quero dizer que compartilho por demais dessa questão da educação, ao mesmo tempo em que, em nome do SBT, empresa na qual trabalho, convido-o a ir ao projeto para fazer uma visita, para que possamos mostrar um pouco daquilo que fazemos e aquilo em que acreditamos e para que possamos expor o que vocês estão fazendo para o nosso pessoal que produz, para os nossos jornalistas, para os produtores de programa, porque essa será uma lição muito grande em termos dos caminhos que podemos trilhar juntos. Acho que o desenvolvimento da comunicação não pode partir de quem a provê nem de quem a consome. Há uma obrigação de um desenvolvimento conjunto, e nós estamos totalmente abertos a isso. Fica aqui registrado o convite.
Muito obrigado por um dia, por uma manhã tão animadora, tão empolgante.
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Muito obrigado, Conselheiro.
Com a palavra o Conselheiro Celso Schröder.
O SR. CELSO AUGUSTO SCHRÖDER – Obrigado, Presidente.
Eu também queria parabenizar pela iniciativa principalmente o nosso Conselheiro e colega Ismar Soares. Acho que foi uma bela oportunidade, não só pela qualidade das exposições, mas também pelo viés, de fazermos um debate e uma reflexão sobre esse tema, que reputo ser complexo.
Digo para os nossos expositores que este Conselho tem a função precípua de apresentar para o Congresso Nacional propostas de regulação, ou seja, de ação do Estado sobre as ações de comunicação, a partir de uma lógica de que as ações de comunicação não são – eu queria parabenizar a Profª Raquel – naturais. Elas não são espontâneas, elas não são libertárias, em princípio. Elas são oriundas de projetos ideológicos de grupos, de pessoas. E, portanto, para se tornarem públicas, elas precisam ser mediadas pela lei e pela ação.
Este Conselho é composto, em um terço, da sociedade civil; em um terço, de trabalhadores da área de comunicação, da qual fazem parte jornalistas, radialistas, atores etc.; e, em um terço, de empresários. Eu represento aqui, junto com minha colega Presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, Maria José, os jornalistas. E os radialistas estão aqui ao meu lado.
Portanto, é nessa perspectiva que eu queria fazer algumas considerações. Não vou me prolongar, prometo ao Presidente. Na primeira delas, quero compartilhar esta ideia de que a comunicação tem duas dimensões: a comunicação interpessoal, que, portanto, está regida pela sua absoluta liberdade, que está garantida na Carta Constitucional; e a comunicação social, com suas várias e múltiplas possibilidades, que foram apresentadas aqui.
Comunicação social pressupõe mediadores, ou seja, alguém que fale em nome das outras pessoas. Essa ideia de mediação foi fundamental para a construção da esfera pública democrática no mundo; foi decisiva.
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E há um fenômeno novo, que é muito bem colocado pela professora: a midiatização, que supõe o fim da mediação e o pressuposto de que assume todas as possibilidades da liberdade ao partir da possibilidade de falar. O que me parece uma mistificação da tecnologia e uma atribuição à tecnologia de uma dimensão de naturalidade que ela não tem. Portanto, é nosso papel aqui, neste Conselho – e me parece que do Brasil e da educação principalmente –, possibilitar que a sociedade e principalmente os jovens, a partir da educação, compreendam essa naturalidade artificial que apresentar. Isso é fundamental.
Portanto, eu queria saudar e parabenizar as meninas que estão aqui; acho muito interessante. Agora, é uma experiência que tem uma dimensão lúdica, é uma experiência que tem uma dimensão centrada num universo que obviamente é importante, obviamente é relevante, mas nem sequer é política pública no Brasil – e por várias razões.
Nós estamos atravessando um momento em que o próprio Ministério da Educação sofre uma restrição bárbara na sua dimensão e nas suas atribuições, e é preciso nos debruçarmos sobre isso. Ou seja, a redução do seu papel, a aglutinação de uma dimensão de cultura à questão de educação me parece uma limitação que precisa ser registrada aqui. Portanto, a política pública necessária ao País está longe, pelo menos nesse momento, de ser desenhada e acontecer a partir dessas tecnologias. Essa é uma questão que eu queria colocar.
Do ponto de vista... Ainda para me referir ao Ministério, por exemplo, Paulo Freire, que foi muito citado aqui, nesse momento está sendo satanizado no Brasil. Está sendo atribuído a ele uma dimensão de exclusão inclusive do ponto de vista dos conteúdos na educação. Ou seja, esse absurdo está sendo pensado a partir de um projeto conduzido principalmente pela mídia brasileira – pela mídia brasileira.
Portanto, educação, para partir da mídia, significa, do meu ponto de vista, mais do que obviamente prover possibilidade de alunos produzirem conteúdos midiáticos; significa os alunos compreenderem os conteúdos midiáticos que estão ou não estão na mídia. Isso me parece fundamental, senão isso se transforma em uma grande mistificação desse projeto. E atribuímos à tecnologia uma dimensão libertadora que ela não tem. Ao contrário, a tecnologia vem sempre para suprir força de trabalho. Nós já dissemos isso aqui várias vezes.
Portanto, mesmo a noção, apresentada pelo Dr. Alton, de jornalista cidadão, no Brasil e em boa parte do mundo – a Federação Nacional dos Jornalistas tem uma relação internacional –, significa a exclusão de jornalistas profissionais e, portanto, a inclusão, não por qualquer vontade extra-humana, mas obviamente, por não ser profissionalizado, de conteúdos e de produtos de baixa qualidade.
Então, eu queria salientar a esta Mesa e aproveitar para destacar alguns elementos, principalmente para o País... Parece-me que é uma guinada – e aí eu queria discordar um pouco do Dr. Alton – entre proteção e empoderamento. A palavra empoderamento pode se transformar em uma palavra mistificadora e vazia se nós não atribuirmos a ela um papel anterior, por exemplo, num País absolutamente controlado pelos seus meios de comunicação, de uma proteção pública social dos seus membros.
Obrigado.
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Muito obrigado, Conselheiro.
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Eu vou fazer a leitura – se me permitem os Conselheiros Ceneviva e Davi, ainda inscritos – de alguns comentários que recebemos pelo e-Cidadania, naturalmente, como temos procurado fazer sempre para prestigiar os que nos assistem por esta mídia eletrônica.
Saulo de Souza Silva: "É mais do que urgente, em tempos de manipulação midiática, uma leitura crítica dos meios, jornais impressos, televisivos, cinema, audiovisual e internet, que são espelhos do mundo cotidiano. Precisamos nos empoderar para transformar a educação."
Paula Melgaço: "A discussão sobre a alfabetização midiática é essencial."
Alex Pamplona: "A exemplo da ONG Viração e da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Comunicadores, que articulam diferentes experiências de produção de conteúdo, como podemos expandir essa experiência em âmbito nacional, considerando princípios de protagonismo, empreendedorismo e endocomunicação? E a formação de professores precisa incluir efetivamente a discussão e a utilização de diferentes mídias."
E eu faço aqui às duas estudantes, Clarice Villari e Maria Eduarda Silva, a seguinte pergunta endereçada a nós pelo Sr. Maurício da Silva: "Como vocês enxergam a importância de os alunos serem protagonistas da sua comunicação e expressão nas escolas e na sociedade?"
Eu agradeço aos que participaram através do e-Cidadania do Senado, e fica a pergunta para vocês. Querem que eu a repita ou ficou bem compreendida?
A SRª CLARICE VILLARI (Fora do microfone.) – Poderia repetir?
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – "Como vocês enxergam a importância de os alunos serem protagonistas da sua comunicação e expressão nas escolas e na sociedade?"
A SRª CLARICE VILLARI – Eu acho que as duas visões são importantes, tanto a visão do professor quanto a visão do aluno porque são duas gerações diferentes com duas visões diferentes de mundo. Acho que o papel do aluno é dar uma visão de mundo diferente para o professor, dar uma visão de mundo diferente para a escola. Então, acho que o aluno tem de ter um pouquinho mais de protagonismo na maioria das escolas porque ele tem uma experiência de vida diferente da do professor, que ensina ao aluno – na teoria, é isso que tem de acontecer –, mas o aluno também tem muito a ensinar para o professor porque eles têm duas visões diferentes. Tem de haver essa troca de visões entre o aluno e o professor, principalmente nessa área de tecnologia, já que a minha geração nasceu num mundo midiatizado. Então, tem de haver essa troca.
Você quer falar alguma coisa?
A SRª MARIA EDUARDA SILVA DE OLIVEIRA (Fora do microfone.) – Não, eu acho que é isso mesmo. É verdade.
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Muito obrigado.
Concedo a palavra ao eminente Conselheiro Walter Ceneviva.
O SR. WALTER VIEIRA CENEVIVA – Obrigado, Presidente.
Bom dia a todos.
É genial a participação! Uma banca com quatro mulheres, uma mesa com quatro mulheres tinha de ser melhor mesmo. Foi um show! (Risos.)
O futuro é das mulheres. (Palmas.)
Eu queria dirigir perguntas e espero que tenhamos tempo de ouvir todos. Minhas perguntas serão formuladas na sequência em que foram feitas as apresentações.
Então, para a professora...
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Conselheiro, pela ordem. Sugiro que seja pergunta, resposta; pergunta, resposta. Pode ser?
O SR. WALTER VIEIRA CENEVIVA – Pode, mas há muitas perguntas e não vai dar tempo para o Davi.
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Então, por favor.
O SR. WALTER VIEIRA CENEVIVA – Antes, uma questão de ordem também: os materiais da palestra da Profª Raquel, da apresentação das nossas alunas profissionais da mídia, da palestra da nossa representante do Ministério da Educação e da do representante da Unesco, tudo isso estará disponível para nós?
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Serão colocados, possivelmente, ainda hoje na internet.
O SR. WALTER VIEIRA CENEVIVA – Muito obrigado.
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O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Se nos permitem, naturalmente, as detentoras das mídias apresentadas.
O SR. WALTER VIEIRA CENEVIVA – Eu pergunto isso, porque, na apresentação da Profª Raquel, há a indicação de uma bibliografia riquíssima que, para quem, como nós, é envolvido em mídia e para quem, como nós, tem a preocupação da relevância da educação para o Brasil, é importante conhecer, para se aprofundar nela. Eu agradeço.
Eu pergunto para a Profª Raquel se ela concebe estratagemas, táticas para impedir que a media literacy não seja, na verdade, um mecanismo de indução ou de manipulação. Eu dirijo a mesma pergunta para o representante da Unesco, o Sr. Alton Grizzle. Como assegurar que a media literacy, a educação para a mídia não seja uma ferramenta para encucar ideias na cabeça das pessoas, sejam as crianças, sejam os mais velhos?
Também houve pouco comentários na sua palestra – houve mais nas demais, e eu queria ouvir a senhora – sobre a importância da atuação das famílias. Eu considero muito importante, mas nós vivemos em um tempo em que, como disseram agora a Maria Eduarda e a Clarice, os mais jovens estão ensinando aos seus pais. Como fazer disso um círculo virtuoso em que a velhice dos pais, que não são digitais, não atrapalhe a educação de pais e filhos para a mídia?
Para a Maria Eduarda e para a Clarice, eu queria colocar vocês numa roubada, criar um problema para vocês. Eu entendo que é muito importante que a mídia seja crítica, principalmente do Governo, do poder, do Legislativo, onde nós estamos hoje, do Executivo e do Judiciário, ou seja, que a mídia seja crítica das autoridades. A mídia na escola tem que ser crítica da própria escola. Eu não acho bom que as escolas sejam invadidas, porque isso está impedindo que as aulas aconteçam, mas que os alunos tomem posse da escola é valiosíssimo, é muito importante. Então, eu pergunto para vocês: nas escolas de vocês, vocês foram críticas da escola? É possível ser crítico da escola fazendo mídia dentro da escola? Eu considero isso muito importante. Que vocês não passem a vida sendo críticas da escola, mas eu pergunto: vocês foram críticas das escolas de vocês, dos professores de vocês, dos diretores de vocês?
Para a Drª Sandra, é uma pergunta em que eu queria, no limite do possível, um aprofundamento. Eu fiquei feliz e satisfeito, pois sou representante das emissoras de rádio, junto com meu colega Paulo Machado de Carvalho, de ver que há 847 mil rádios escolares. Isso é fantástico. Eu me surpreendi em descobrir que há mais de 1 milhão de jornais. Isso é também fantástico. Eu queria entender, ter um pouco mais de informação sobre como essas rádios funcionam, se elas são distribuídas pela internet, como é esse trabalho.
Para o Prof. Alton Grizzle, eu queria pedir um comentário sobre uma obra, que talvez ele possa ter lido – eu não sei –, do Mario Vargas Llosa chamada A civilização do espetáculo, em que ele, na linha de alguém que politicamente está no caminho contrário dele, que é o Guy Debord, atribui para a mídia contemporânea a criação de um ambiente de desprezo pela política, de desprezo pelo voto, de desinteresse pela atuação social e política. Como o senhor acredita que a media literacy, a educação para a mídia possa reverter o desinteresse das sociedades pelo processo político?
Era isso, Presidente.
Obrigado.
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O SR. ISMAR DE OLIVEIRA SOARES – Nós estamos aqui frente a uma sequência de perguntas e, se nós formos aqui pela ordem da Mesa, eu convidaria as meninas a se pronunciarem em respeito à pergunta que o Conselheiro Walter Ceneviva colocou para vocês: é possível ser crítico na escola? Um projeto como esse possibilita a vocês serem críticas também com a escola em que vocês estudam?
A SRª CLARICE VILLARI – Crítica durante o projeto ou durante a atuação nas oficinas de comunicação que há nesse projeto?
O SR. ISMAR DE OLIVEIRA SOARES – Eu entendi que o espírito de criticidade é aberto. Então, a escola é uma instituição que está ali; vocês estão nela. Vocês podem falar sobre a escola, comentar sobre a escola, criticar a escola?
A SRª CLARICE VILLARI – Eu acho que essas oficinas de jornalismo possibilitam que os alunos ganhem um olhar crítico para a escola em que eles estudam, e é possível que eles demonstrem esse olhar crítico na medida do possível, porque a escola, queira ou não, o ambiente escolar, ainda é muito hierarquizado, e a gente percebe, nessas oficinas de jornalismo, tanto na Dante em Foco, quanto na Imprensa Jovem, uma relação bem vertical entre os professores e os alunos. Então, eu acho que, nessa geração, na nossa geração, cada vez mais, vai conseguir existir uma relação mais vertical entre os professores e os alunos, porque os alunos estão ganhando esse olhar crítico e os professores estão começando a perceber que esse olhar crítico dos alunos é importante.
Então, eu acho que a gente está conseguindo, cada vez mais, com essas oficinas e com esse projeto também, ser crítico em relação às escolas que a gente estuda e demonstrar isso, pouco a pouco, à medida que o meio em que a gente vive vai nos permitindo.
Você quer complementar?
A SRª MARIA EDUARDA SILVA DE OLIVEIRA – E também um dos objetivos é que a gente queria repassar para as outras escolas esse olhar crítico, a possibilidade de haver uma nova forma de ver o mundo, como a gente teve essa nova forma de ver o mundo. Então, a gente queria repassar para todo mundo a possibilidade de haver um novo olhar crítico, e repassar para as escolas também isso; não só no nosso projeto, queremos passar também para as outras pessoas a possibilidade de haver um olhar crítico.
O SR. ISMAR DE OLIVEIRA SOARES – Quero passar para a Profª Raquel.
A senhora deseja responder?
A SRª RAQUEL PAIVA – Bom, eu achei muito interessante. Muito obrigada pela palavra dos Conselheiros, foi muito rica.
Acho que realmente este fórum é um fórum que manuseia aspectos para oferecer para quem tem o poder decisório neste País – não é verdade? Então, a gente sempre tem que ter muito cuidado com o que se trabalha aqui.
Eu, na verdade, agradeço muito ao Conselheiro Celso Schröder, porque eu não coloquei a imprensa no rol das mediações, mas, quando o meu texto for disponibilizado, você vai ver que a imprensa originariamente está como a responsável pela mediação, pela nossa mediação, pelo nosso entendimento. Eu acho só que é um pouco difícil hoje a gente fazer uma defesa universal desta imprensa que a gente tem no Brasil, eu acho que é complicado. E a gente vê agora mesmo nessa postura da MJ, a JM, perdão, sobre os blogues, como o El País e outros tantos. Então, eu acho complicado isso.
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Eu acho que estamos diante dum momento em que, cada vez mais, vamos ter uma mudança muito grande com relação à produção, tanto que temos essa nova versão do jornalismo, que é o Mobile Journalism, "Mojo", como está sendo chamado, porque, com o 4G, vai lá e faz a matéria. Jornais como Extra e tantos outros já estão utilizando o leitor como seu repórter. Temos uma mudança muito grande aí e temos, por exemplo, na Escola de Comunicação, um trabalho agora muito grande no sentido de montar um novo currículo, que é do jornalista.
Então, eu acho que é um momento de muita reflexão, muita importância para vermos o que vamos fazer daqui para frente.
Eu acho, Conselheiro Ceneviva, que a questão da família é fundamental. A família, como eu coloquei desde o início, é a mediação básica do indivíduo – a escola é a segunda. Eu acho que ela vem perdendo esse patamar de mediação e que, cada vez mais, vemos uma deterioração, uma discussão em torno de quem pode mandar na família, quem obedece na família – é muito cacique e pouco índio. Essa é uma discussão séria e eu acho que não é possível você abrir mão do papel da família.
Então, achei muito interessante quando o representante da Unesco parabenizou o pai que estava aqui. De fato, é fundamental que a família participe disso tudo, que a família participe da audiência junto com os seus filhos, que a família participe do acesso que elas têm. Não adianta proibir. Isso é uma coisa que eu fiz com a minha filha, que hoje é uma médica. Não adianta você dizer: "Não vai assistir à novela tal", porque ela assiste na escola, ela assiste com os colegas. Não existe essa possibilidade. Eu conheço meninas de 12 anos cuja família proíbe ver Game of Thrones. O.k., mas a menina conhece todos os personagens, todas as histórias, quer dizer, ela não está vendo, mas está vendo. Então, a família tem um papel fundamental nesse contexto.
Eu acho que, de fato, posturas como a media literacy e a Educomunicação representam, nesse horizonte – pelo menos é a única que temos –, uma possibilidade de mudança de intervir nesse contexto. Agora, como isso vai ser feito não sei. Eu continuo reputando que a escola é o lugar fundamental de formação do indivíduo. Se quebramos isso, acho que vai ficar realmente muito complicado.
Estamos num momento de muita gravidade, de muita seriedade, que exige de todos nós uma reflexão muito grande do que vai advir daí para frente.
O SR. ISMAR DE OLIVEIRA SOARES – Antes de passar a palavra para a Profª Sandra, o Walter fez uma pergunta sobre a questão das estratégias e pergunta se os projetos de educação midiática não poderiam estar encucando ideias, portanto manipulando as consciências.
Então, eu levantaria a seguinte questão: a proposta defendida pela Unesco e desenvolvida pelas práticas de Educomunicação é uma proposta justamente de eliminar as hipóteses de manipulação.
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No caso da Educomunicação, o foco inicial de suas preocupações é a própria análise da produção que as crianças fazem. Então, elas vão descobrir se elas manipulam a comunicação que elas estejam fazendo. E elas criam critérios para analisar a mídia de terceiros, a grande mídia.
No passado...
O SR. NASCIMENTO SILVA (Fora do microfone.) – A mídia que manipula!
O SR. ISMAR DE OLIVEIRA SOARES – No passado, o grande projeto de leitura crítica, citado aqui pela Profª Raquel, tinha, como meta, criticar a mídia, analisar como a mídia manipulava. E os grandes autores das décadas de 70, 80, no Brasil e na América Latina, apontavam muito para a manipulação da mídia. Atualmente, entendemos que a primeira manipulação a ser discutida é a que nós fazemos na interpessoalidade, no ecossistema em que estamos. E, aí, nós aprendemos, a criança aprende como necessita ser verdadeira, como necessita dialogar, como necessita reconhecer o outro e discutir com o outro.
No caso, aqui, a mídia é tomada como sujeito social, que está presente na sociedade, e as crianças aprendem a discutir, a partir dos seus pontos de vista, sobre o que a mídia está colocando no ar. Portanto, a questão de possíveis encucamentos ou de possíveis manipulações está fora da perspectiva de projetos como o da Unesco e de área da comunicação.
Eu passo a palavra agora para a Sandra, cuja pergunta aqui é...
A SRª SANDRA ZITA SILVA TINE – Sobre as rádios...
O SR. ISMAR DE OLIVEIRA SOARES – As rádios, as 800 mil rádios e um milhão de jornais.
A SRª SANDRA ZITA SILVA TINE – Conselheiro, essa questão também, para mim, é muito importante e bastante interessante para quem é nordestino, como eu. Então, rádio é alguma coisa muito especial. (Risos.)
Mas eu penso que o Prof. Ismar já respondeu uma parte da questão, que é a perspectiva teórico-conceitual que embasa o currículo no uso das tecnologias, especificamente do uso das rádios e dos jornais. Esse é um aspecto.
O outro é do ponto de vista da prática, da realidade. Além da questão material, de a infraestrutura ainda ser de alguma forma incipiente para esse trabalho – isso é uma questão –, o trabalho com a rádio tem ficado muito restrito ao ambiente escolar. Mas queremos trabalhar na perspectiva do rádio como instrumento de aprendizagens. Então, boa parte dos estudantes tem uma leitura de que a rádio e o jornal são informacionais – e são, de fato. Mas como transformar isso, num ambiente escolar, para ser um instrumento de aprendizagens, de discussão de conceitos, de discussão dos problemas da comunidade, da comunidade escolar, da comunidade que cerca a escola? E esse é um desafio que nós estamos construindo paulatinamente.
Um outro aspecto, também dentro do que o Prof. Ismar destaca sobre isso, é que eles estão construindo relações mais horizontalizadas, pautadas no respeito. É um exercício de respeito à ideia do próximo, é um exercício de professores e estudantes negociarem o que vai ser posto ali na rádio. Então, são exercícios comunicativos mais amplos.
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Agora, do ponto de vista do rádio especificamente, da sua abrangência, dos seus equipamentos, ainda temos uma grande jornada, mas entenderam os instrumentos de comunicação nessa perspectiva de leitura crítica, de uso para as aprendizagens de todos. É o desafio, é o que pretendemos.
O SR. PRESIDENTE (Ismar de Oliveira Soares) – Muito obrigado.
Eu passo a palavra agora ao Alton Grizzle. Imagino que você tenha entendido a pergunta.
O SR. ALTON GRIZZLE (Tradução simultânea.) – Para a segunda pergunta, eu não ouvi o nome do livro. Qual foi o nome do livro?
O SR. WALTER VIEIRA CENEVIVA (Tradução simultânea.) – Seria A civilização do espetáculo, de Mario Vargas Llosa, que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura.
O SR. ALTON GRIZZLE (Tradução simultânea.) – E a pergunta foi...?
O SR. WALTER VIEIRA CENEVIVA (Tradução simultânea.) – A pergunta depende se você leu o livro, está conectada à sua opinião sobre o fato de que a mídia está lidando com a política criando uma percepção geral de que a política é uma coisa ruim, de que votar é uma coisa ruim, o que gera uma ironia em que hoje, que nós temos democracias no mundo inteiro, ao contrário do último século, em que a Europa estava dominada por ditaduras, nós não gostamos de política. Como você faria um comentário sobre essa questão da media literacy?
O SR. ALTON GRIZZLE (Tradução simultânea.) – Primeiramente, eu gostaria de agradecer ao Conselheiro por este debate muito rico. É um debate em que nós trocamos ideias e conhecimentos e em que também criamos conhecimento novo. Então, a Unesco está bem inspirada com isso. Eu tenho certeza de que muitos de vocês estão bem familiarizados com o modo como a Unesco opera. E é através do debate que chegamos a um consenso em que nós conseguimos criar a mudança. Então, isso é muito inspirador por mim. Eu viajo o mundo inteiro e eu gostaria de reconhecer os meus colegas Adauto e Arnaldo, do escritório de Brasília. Nós temos muitos diálogos com Estados-membros e oficiais. Provavelmente, esta é a melhor experiência que eu tive até agora.
Eu gostaria de comentar, primeiramente, os comentários do nosso Conselheiro Schröder, o Prof. Schröder. Eu acho que é muito importante que nós consigamos olhar a comunicação interpessoal, como você chamou, e a comunicação social. E você questionou a artificialidade natural sobre como os jovens interagem com as tecnologias novas. É verdade que a comunicação interpessoal é inata, nós nascemos dessa forma, mas, se nós voltamos, na história humana, à época de escrita hierográfica, essa comunicação não era feita com escrita, eles faziam desenhos nas paredes. Isso se tornou natural para eles em termos de comunicação. Se você considerar os maroons na Jamaica – eles são os lutadores da liberdade na Jamaica, os ex-escravos, que estavam lutando pela democracia, pela liberdade, pelo direito de votar e pelo direito de não ser colonizado –, eles usaram diferentes meios de comunicação. Definitivamente, era comunicação interpessoal, mas eles estavam se escondendo dentro de cavernas, eles não conseguiam se comunicar interpessoalmente. Então, o que se tornou natural para eles? Eles usavam conchas para se comunicarem.
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Chamamos de abeng o que eles usavam lá na Jamaica. Eles sopravam dentro da concha para comunicar diferentes mensagens. Eles sopravam dentro da concha para comunicar quando os colonizadores estavam chegando. Então, esse tipo de comunicação se tornou natural para eles naquela época.
Agora, estamos no século XXI, saindo da imprensa, do Gutemberg para a internet, e estamos fazendo muita comunicação. Várias pessoas nasceram nesta época, na época de Gutemberg, na época da imprensa, e nós agora colocamos mais ênfase nas coisas impressas do que na tecnologia, porque não nascemos nessa época, não entendemos essa forma como nós transformamos a comunicação. Como os jovens falaram, eles são nativos da era digital. No mundo em que eles nasceram, isso é natural.
Existe esse conceito, essa teoria muito importante que chamamos de análise interpretativa fenomenológica, que fala sobre empreender a experiência individual, como cada um de nós tem a experiência de diferentes fenômenos. A forma que eu tenho experiência de tecnologia é totalmente diferente da forma que esses jovens experienciam a tecnologia, porque, quando eu nasci, não existia internet. Então, não é tão natural para mim quanto é natural para elas.
A análise interpretativa fenomenológica diz que nós temos de reconhecer que esses jovens que nasceram dentro do século XXI são especialistas das suas próprias experiências. Nós podemos criar teorias e citar muitos livros, mas quem somos nós para questionar a forma de como eles passam pelas suas próprias experiências e de como eles passam por diferentes fenômenos?
Então, eu quero concordar e discordar. Acho que concordamos em muitas coisas, como você disse. Concordo com você plenamente quando diz que isso tem a ver com o pensamento crítico – a alfabetização midiática tem a ver com o pensamento crítico.
Gosto de jornalismo de qualidade. Temos vários programas sobre isso e promovemos o jornalismo profissional, ético. Desenvolvemos várias ferramentas para regular e assegurar que o jornalismo seja profissional. Claro que temos muitos desafios no jornalismo hoje. Reconhecemos isso. Também reconhecemos que o jornalismo para o cidadão não é um substituto para o jornalismo profissional, mas um complemento. Por isso que a alfabetização midiática é muito importante para suprir essas competências para o cidadão porque os cidadãos não têm o treinamento profissional que os jornalistas têm. Assim, nós temos de oferecer esse treinamento, e eles conseguem adquirir isso através da alfabetização midiática. Isso não é apenas para o cidadão, mas também para os jornalistas, para cientistas de informação, arquivistas e curadores de museus. Muitas vezes, eles nem sabem como usar a tecnologia para recriar um museu. Vários jornalistas nem entendem a educação cívica. Então, nós desenvolvemos ferramentas para jornalistas que precisam entender o que é a educação cívica, porque a alfabetização midiática tem a ver com a educação cívica. Em primeiro lugar, isso tem a ver com o cidadão conseguir responsabilizar a mídia. Reconhecemos que, sim, temos controle do fluxo da informação através da mídia. Temos, sim, conglomerados de mídia. Nós temos conglomerados que atravessam todas as mídias. Existe, sim, centralização de poder na mídia. É disso que estamos falando quando falamos sobre alfabetização da mídia.
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Se nós olharmos o ponto nº 5, veremos que ele fala em criticamente avaliar a informação, o conteúdo de mídia e de outros provedores de informação, inclusive aqueles da internet em termos de autoridade, credibilidade, propósito e riscos. Isso é o centro da alfabetização midiática informacional.
Antes de chegar à última pergunta, quero voltar às cinco leis da alfabetização midiática, porque isso é muito importante. Na verdade, isso é uma palestra de duas horas, e, às vezes, eu demoro uma hora, duas horas, e é muito difícil fazer isso em meia hora. Mas, se nós olhamos a Lei nº 2, a essência da alfabetização midiática é ser crítico. Então, não pode ser uma ferramenta para certas ideias, porque cidadãos devem ser críticos da mídia, do governo e de si mesmos.
Eles deveriam ser críticos das suas próprias crenças. Por que eu acredito que eu acredito? Que informações estão influenciando o meu ponto de vista sobre uma ideia ou um grupo social, por causa das suas práticas sexuais ou suas crenças religiosas? Que informações estão influindo nas minhas crenças? Porque as minhas crenças não são verdades; as minhas crenças têm a ver com a socialização e a informação que eu consumo. Então, eu devo ser crítico de mim mesmo e de todos à minha volta.
A Lei nº 3 fala sobre a importância da informação e do conhecimento. E mensagens nem sempre são neutras de valores, nem sempre são independentes do viés. Praticamente, os cidadãos devem ser críticos para saber de onde veio esse conhecimento.
E, quanto ao autor Mario, eu não conheço esse escritor, mas posso comentar sobre a posição dele de reduzir e criar, vamos dizer, um desprezo à democracia. Na Unesco, nós acreditamos na democracia, nós acreditamos nas liberdades, nós acreditamos na liberdade de pensamento, liberdade de associação, liberdade de conexão, liberdade de expressão, e na liberdade de utilizar diferentes tecnologias, de utilizar a mídia. Totalmente, não apoiamos nenhuma teoria, oposição que vá contra a democracia, porque nós acreditamos na democracia: o desenvolvimento vem através da democracia, e isso vem através da mudança e da transformação.
Acreditamos também que deveria haver um diálogo. Deveríamos ter um diálogo aberto e deveríamos ter mídia livre, independente e pluralista. Então, quem tem a ideia de comunicar que a democracia é uma coisa ruim, que nós deveríamos ter socialismo também deveria ter uma voz para falar. Aqueles que acreditam: "Não, nós queremos a democracia, nós queremos o Estado de direito", eles também deveriam ter um espaço para falar. Isto que nós queremos na Unesco: queremos cidadãos críticos, porque queremos diversidade e comunicação; não apenas informações, e crenças, e teorias de um ponto de vista, mas de um grupo coletivo de pontos de vista.
E, no final, é a democracia que deveria fazer a decisão. São as pessoas, o povo junto, coletivamente, que vai dizer: "Este é o tipo de governança que nós queremos. Este é o tipo de mídia que nós queremos."
E a alfabetização de mídia deveria nos ajudar a determinar que tipo de mídia que nós queremos: é um complemento para a política pública, como o Conselheiro disse mais cedo. E nós não estamos, de nenhuma forma, sugerindo que deveríamos esquecer a nossa proteção; nós não queremos sugerir isso na Unesco.
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Estamos falando sobre como vamos equilibrar: onde devia estar o equilíbrio da escala? Não estamos falando que vamos deletar a proteção e que não devemos ter regulamentação. Com certeza, devemos ter regulamentação para discutir os direitos da criança ou Convenção Universal sobre os Direitos da Criança. Como parte dessa convenção universal, que também foi assinada pelo Brasil e outros países do mundo, reconhecemos que temos que proteger as crianças, devemos ter proteção das crianças.
Então, o ponto é que apenas a proteção não será efetiva, é esse o ponto. Sim, temos que ter regulamentação, mas temos que ter uma regulamentação que não é feita apenas pelo Estado: uma regulamentação pela mídia, autorregulamentação e regulamentação pelos jovens e pelos cidadãos do País, que podem responsabilizar a mídia, através de diferentes mecanismos, conselhos, pela verdade, credibilidade e equilíbrio.
Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Eu passo agora a mais algumas considerações e ainda recebemos mais vindas através do portal e-Cidadania.
Helena Marques Malaga Morais diz assim: "Um dia importante como hoje com a presença dos jovens, da Educomunicação e também da Unesco debatendo sobre educação e a importância de usar meios de comunicação criticamente para uma sociedade melhor!".
Diva Souza Silva diz assim: "Muito importante esse Seminário e a possibilidade de discussão sobre a Educação Midiática e Informacional no Brasil. Lamento é a pouca visibilidade que o próprio Senado e seus respectivos senadores/as dão à temática. Ouçam o povo, ouçam aqueles que vocês representam."
Wagner Bezerra dirige uma pergunta à Mesa: "Quais os passos iniciais para universalizar o ensino e as práticas da alfabetização midiática e informacional visando a capacitação de educadores e jovens para o uso crítico de novas tecnologias e produção de conteúdo, nas escolas públicas brasileiras?"
Eu farei ainda outros questionamentos e leituras de comentários, mas agora passo a palavra, registrando que temos mais dez minutos, prorrogáveis por 15 – vamos combinar assim –, até 12h15, ao último Conselheiro inscrito, Davi Emerich.
Na sequência das respostas de questionamentos que o Conselheiro possa vir a fazer, vamos franquear a palavra a representantes da sociedade civil presentes.
O SR. DAVI EMERICH – Obrigado, Presidente.
Quando vêm duas meninas como as duas que estão aí, até esquecemos um pouco o Trump e começamos a acreditar que o mundo tem futuro.
Parabéns pela participação e que continuem a fazer esse belo trabalho, com o apoio do Prof. Ismar.
Eu acho que a pesquisadora, Profª Raquel, fechou a fala dela com uma frase que me contempla, ou seja, temos que trabalhar com a capacitação cada vez mais consciente, quebrando a fascinação.
Eu acho que esse é o nó górdio de todo o trabalho, ou seja, tem que se quebrar a fascinação em todas as novas tecnologias – não matá-la, porque a fascinação também é um elemento de impulso. Eu acho que temos que preparar a juventude, a sociedade para esse novo mundo que está nascendo.
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Aí eu acho também o seguinte – e concordo com várias falas do Schröder: não podemos trabalhar uma educação midiática apenas para reforçar modelos de negócios estabelecidos no mundo, por exemplo, o modelo do Google, o modelo das grandes empresas. Claro, isso também, porque, no momento em que as tecnologias estão disponíveis, no momento em que existe uma mídia organizada, que se realiza no mercado com o lucro – e isso é importante, ninguém quer matar isso –, mas o jovem não pode estar capacitado apenas para reforçar modelos de negócios.
Nesse contexto, eu me sinto plenamente contemplado com a fala do Dr. Alton, que trabalha muito nessa ideia de se construir um novo cidadão. Ou seja, a base de qualquer formação que se queira não pode ser instrumental, apenas instrumental, embora também tenha de ser instrumental. Ela não pode ser apenas uma plataforma, embora tenha de ser também educacional, para ensinar matemática, física e química. Principalmente, na base de tudo, deve estar o cidadão, deve estar a ética, o mundo que se quer criar. Deve ter a filosofia civilizatória na base de qualquer projeto educacional que se queira no País.
Eu sou daqueles que pensam que o jovem hoje não recebe mais a informação. Ele já nasce na tecnologia. Quem tem netos – e eu tenho netos de dois, três, quatro anos – já percebe um menino criado naquilo. E a gente nem entra nesse mundo. Trata-se de meninos de cinco anos. Então, eles não têm mais mediação nisso. Eles entram.
Inclusive, há um descompasso. O WhatsApp proíbe jovens de até 16 anos oficialmente. Quer dizer, um pai de um jovem que fizer alguma besteira no WhatsApp pode até pagar por isso. Ou seja, tem de ser acima de 16 anos. E não há nenhum menino acima de dez anos que já não esteja no WhatsApp plenamente. Então, há um divórcio entre certas normas e a prática que se tem.
Então, pela forma como a juventude está entrando, eu confesso que pessoalmente também acho que é importante ter. Mas eu acredito cada vez menos na mediação da família, eu acredito cada vez menos na mediação das igrejas, eu acredito cada vez menos na mediação formal das escolas, embora tudo isso seja importante. Eu acredito muito mais, por essa inserção abrupta da juventude no processo político, na militância social. Ou seja, nós estamos diante de um mundo que vai exigir aquilo que se fazia no século XIX, brigar por ideias filosóficas, por modelos, no século XX também. Eu não estou falando necessariamente de militância ideológica e partidária, embora também seja necessária. Eu acho que nós estamos a exigir uma juventude, uma sociedade cada vez mais militante em termos de ideias e em termos de projetos.
Portanto, as regulamentações têm de vir no sentido de uma tecnologia que comece a fazer uma conexão mais direta com o conceito de democracia direta e não mais só da democracia formal. Que toda regulamentação venha no sentido dessa militância positiva e consciente. E é a militância que vai dar esse grau de consciência, é o debate da militância que vai dar esse grau de consciência. Que as leis possam plasmar que as contribuições advindas dessa militância possam se transformar em modelos, em ações públicas. E que a regulagem também chame um pouco a iniciativa privada. As empresas também têm de compreender que não podem ver esse movimento pelo lado apenas do negócio. Eu acho que as empresas têm responsabilidade nisso, têm feito até trabalhos importantes nisso. Mas essa consciência tem de ser cada vez maior de todos atores da sociedade.
Portanto, eu acredito muito numa nova militância que o mundo está criando e que eu acho que vai crescer.
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Muito obrigado, eminente Conselheiro.
Eu consulto os presentes. Conselheiro Ceneviva, V. Sª está pedindo a palavra novamente?
Pois não.
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O SR. WALTER VIEIRA CENEVIVA – Eu quero fazer um pedido especialmente às jornalistas estudantes, mas faço uma provocação a todos: leiam o press release que vai sair da nossa reunião de hoje, vai sair um press realese de 40 linhas falando muito pouco do que aconteceu aqui. Essa é uma coisa superficial, quase banal, portanto, um desperdício da oportunidade de informar sobre a maravilha que foi este evento. E, convidando especialmente as jovens jornalistas a fazerem essa atividade, chamo a atenção para como é importante ler criticamente. Vocês lerão o texto, ele vai ser produzido pela Agência do Senado, é feito com qualidade, mas ele é superficial, é muito pouco relevante para refletir toda a qualidade do debate que se estabeleceu aqui.
A gente, como leitor, precisa combater essa superficialidade do jornalismo e precisa estar atento ao fato de que vocês não vão se ver aqui, e isso é expressivo do nível baixo da informação que se entrega com cara de jornalismo, dentro de um jornal impresso, dentro de um jornal televisivo, dentro de um programa de rádio. É preciso estar atento para a banalização da informação.
Obrigado, Presidente.
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – De qualquer maneira, eminente Conselheiro, é importante a sua advertência, particularmente às jovens, mas este seminário está sendo gravado, naturalmente, está sendo filmado e gravado, e nós vamos tentar, como fizemos recentemente em um outro seminário aqui realizado, imprimir todo o texto das exposições aqui apresentadas, eu vou buscar conseguir com a direção do Senado, que tem nos atendido nessas questões.
O SR. DAVI EMERICH (Fora do microfone.) – Boa parte estava ao vivo.
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Ao vivo hoje, não é?
Com certeza o eminente Conselheiro Davi Emerich, que é servidor da Casa, poderá nos ajudar na impressão desse material.
Só um minutinho, Schröder.
Ceneviva.
O SR. WALTER VIEIRA CENEVIVA – Só um registro, é irônico que a perpetuação da importância do que se debateu hoje vai se dar no meio mais analógico e mais genial que existe que é o tal do livro.
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – O interessante é que esses nossos eventos, alguns amigos têm comentado comigo, têm sido transmitidos por volta de 2h40, 3h da manhã.
(Intervenção fora do microfone.)
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Schröder, por favor.
O SR. CELSO AUGUSTO SCHRÖDER – Presidente, só uma ponderação, obviamente não tem nenhum tipo de julgamento, eu só queria fazer um reparo à fala do Conselheiro Ceneviva. Quando ele chama as nossas alunas, queridas meninas que demonstraram aqui a paixão e a força com que elas exercem a sua atividade de jornalistas, ele está fazendo obviamente uma referência à atividade que elas estão fazendo. Eu queria convidá-las para que, no futuro, cursem o curso de Jornalismo, é uma profissão que exige dedicação, que requer viver dessa atividade. Portanto, não é uma atividade lúdica simplesmente, como vocês estão fazendo agora, que é muito importante e que possibilita – vocês já disseram isso – que vocês construam uma visão crítica do mundo. Essa é a posição, esse é o modelo fundamental do jornalista.
Então, eu queria não chamá-las de jornalistas, queria chamá-las de futuras jornalistas, e que estão exercendo, neste momento, efetivamente uma atividade muito próxima, uma simulação muito próxima do que é o jornalismo.
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Muito bem.
Eu consulto aos presentes, se alguém...
Conselheiro Nascimento.
O SR. NASCIMENTO SILVA – O senhor percebeu hoje que fiquei calado, em função da importância...
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Mas sabia que não era até o final.
O SR. NASCIMENTO SILVA – Não, fiquei calado. Com a intervenção do Ceneviva, eu sou obrigado a manifestar. Mas é brincadeira.
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Eu quero reforçar a fala do Schröder, porque em comunicação também está envolvida a questão do rádio e da TV, que são profissionais que trabalham em rádio e TV e que não precisam, necessariamente, ser só jornalistas, podem ser radialistas. Como a lei é abrigada pela Lei nº 6.615, que também requer um estudo mais aprofundado, eu indico para vocês a cadeira de radialismo na academia. (Risos.)
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Muito obrigado, Conselheiro.
Agora sim, novamente ... (Palmas.)
... eu consulto aos presentes, não integrantes do colegiado, se alguém pretende se manifestar, pedindo que se identifiquem, que usem os microfones para que, naturalmente, todos nós ouçamos, mas também para a gravação, identificando-se no início da pergunta.
O seu nome?
É pai da Clarice ou da Maria...
O SR. ANTONIO CELSO VILLARI – Aqui eu sou o pai da Clarice.
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Clarice.
Seu nome, por favor.
O SR. ANTONIO CELSO VILLARI – Antonio Celso Villari.
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Parabéns pela filha e pela firmeza de sua filha.
O SR. ANTONIO CELSO VILLARI – Obrigado.
Muito bom, eu fico bastante feliz em estar aqui hoje e pela qualidade do que está sendo discutido aqui, porque a gente só tem notícias ruins de Brasília, não é?
Então, é muito bom estar aqui no Senado debatendo questões tão importantes.
Eu sou jornalista, então, a Clarice sabe que ela vive em uma casa de discussões diárias e posicionamentos fortes, isso é uma coisa que a gente, desde o início, mostrou para ela. A gente sempre falou para ela e para a irmã dela que a educação começa em casa, isso é uma coisa que a gente sempre... O que ela levou para a escola foi o que aprendeu em casa e, obviamente, a gente espera muito da escola. E, por esperar muito da escola, estudei anos no Dante, eu me preocupava em pensar: "Não quero que a Clarice tenha uma visão de mundo que é uma visão...". O Dante é uma escola que, enfim, reúne uma elite de São Paulo, mas eu não queria que ela tivesse essa visão. Ela não está desde o início da sua educação, mas é uma coisa que a gente falava: "Clarice, o mundo não é só o consumo."
Então, acho que é uma coisa que aprendi muito ao assistir no Dante os debates do Dante em Foco e as colocações dessas outras escolas que participam, a gente não quer formar consumidores, queremos formar cidadãos, e é isso que a gente sempre colocou para a Clarice.
A Clarice sabe que... Ela não leva o celular para a escola porque a gente não acha necessário, se ela quiser falar conosco ela liga do orelhão, porque tem um orelhão ou telefone público lá, ela sabe disso, porque a gente não achava necessário. Ou seja, ela leva para a escola regras que, às vezes, não é o que ela encontra nas casas das amigas, mas que a gente realmente acredita.
Então, no Dante em Foco, eu falo isso aqui para a Verônica, a quem agradeço muito, a gente encontrou essa discussão sim, que existe educação boa, sim, na escola pública e na privada. É claro que a pública sofre, como a gente sabe, tudo o que está sofrendo, mas que essa parceria entre o público e o privado é possível, ela não é um sonho só, ela é possível. Quer dizer, você levar alunos da periferia de São Paulo para uma escola pública que tem uma série de equipamentos e vice-versa, quer dizer, a Clarice traz para casa muitos ensinamentos que são passados pelos professores que são de altíssimo nível, aliás, dessas escolas em que tem participado e desses estudantes que são amigos dela.
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Então, hoje, a Clarice tem amigos virtuais, não só no Brasil, mas em outros países. Ela tem amiga no Middle West que vota no Trump – ela sabe disso. E a gente discute com ela isso. Ela tem amigos em outros países, mas tem amigos na periferia da cidade onde a gente mora, que é maravilhoso saber disso, que pode se perpetuar talvez pela comunicação virtual, devido à distância, porque São Paulo é um mundo. É maravilhoso ver o que ela está trazendo com esse projeto.
Então, para mim esse projeto mostrou que é possível sim estar numa escola que tem condições maravilhosas, mas aquele quadrilátero não é o Brasil. Então, ela traz para casa um pouco do que é o Brasil. Ela tem ido à periferia sim, conversado, tem ido a instituições. Tem feito coisas maravilhosas.
Então, agradeço muito o Prof. Ismar por esse projeto. Acho que ele mostra que a educação pode ser muito maior do que aquilo a gente aprende na nossa escola, pois que hoje, com as mídias sociais, é possível integrar tudo isso e fazer todo mundo participar e discutir muito. Acho que a discussão, as trocas de ideias são fantásticas.
A Clarice – eu não deveria falar isso perto dela –, em uma das muitas discussões, disse para mim: "Pai, você tem muitos argumentos, mas eu tenho os meus, por que os seus que têm que prevalecer?" "Porque hoje estou no papel de seu pai". Cada um no seu papel, já dizia a minha mãe. "Quando você se formar, você vai passar os seus ensinamentos". E há um momento que tem que encerrar o assunto, é assim e acabou, não vai levar celular para a escola. O.k! Isso já está assimilado, essa discussão já passou. Ela nem fica nos pedindo isso mais. E a gente se comunica. Ela liga do orelhão, a gente fala com ela. É possível se comunicar de formas maravilhosas.
Eu acho que o Dante tem trazido isso para nós. Agradecemos muito.
E agradeço o Senado por debater isso, porque acho que juntar o público e o privado e fundamental nessa questão da educação.
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Muito obrigado, Celso.
Mais alguém?
A SRª VERÔNICA CANNATÁ – Eu sou a Verônica. Tenho o privilégio de ser professora da Clarice, da Júlia. O privilégio de estar há um ano com a Maria Eduarda e com a Ana Beatriz.
É um grande privilégio estar aqui, participar do debate desse nível, ouvir as colocações dos Conselheiros, validando o trabalho dos meus alunos.
O Celso, como instituição, como família valorizando também.
E de tudo o que vocês falaram, eu anotei algumas questões. Uma delas foi de uma brincadeira muito agradável, que é: escola sem mídia não. Por favor, escola sem mídia não, porque a mídia pode ser um grande aliado do professor. Só consegui fazer um projeto desse junto com a Lucilene e com os outros professores, porque os alunos estão olhando para as mídias. E cabe à escola olhar para a mídia e ver o que de melhor pode-se tirar de lá. Eu respeito e compartilho da mesma opinião que não temos jornalistas mirins, porque a escola não pode ter a pretensão de formar jornalistas. Não é a pretensão do Dante.
Eu faço a mediação dessa oficina em parceria com uma jornalista, a jornalista Bárbara Endo, a quem aqui agradeço. A gente divide essa mediação. Eu entendo de educação e ela entende de comunicação.
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E é nessa união que a gente pretende trazer para esses alunos um olhar crítico. Eu não tenho o objetivo de formar jornalistas, mas tenho o objetivo de mostrar o que há de maravilhoso nessa profissão para inspirar que os meus alunos procurem faculdades renomadas para serem radialistas e jornalistas, seja na ECA, na Cásper Líbero e em tantos outros.
Eu também queria aqui fazer um pedido a este Conselho: que os meios de comunicação sejam parceiros das escolas. Não é fácil dar aula hoje. Não é fácil dar aula em uma sala de aula onde esses alunos estão conectados e interessados no mundo. A escola precisa se reinventar para poder atender alunos como a Clarice e a Maria Eduarda. E, através de projetos como esse, onde a gente leva os meios de comunicação, os meus alunos escrevem melhor, falam melhor, analisam melhor.
O Colégio Dante Alighieri está muito próximo da Avenida Paulista. Vocês imaginam o que é ter uma escola próxima de um palco que é o centro das manifestações do Brasil. Quando sai no noticiário a cobertura das manifestações, cabe à escola não excluir aquilo, mas fazer com que o aluno faça uma leitura dos meios de comunicação, porque cada editorial dá aquela notícia de uma forma. Qual é a mensagem que está sendo colocada ali?
Se quero trabalhar as habilidades do Enem de ler, interpretar, relacionar, sintetizar, então, que eu possa trazer o mundo para dentro da minha sala de aula, que esses alunos olhem as questões que estão pulsando neste País, as reivindicações, as necessidades e transformar isso num material pedagógico vivo, num material didático.
Eu queria também ressaltar a questão do respeito. Respeito, diálogo e amizade nortearam esse projeto, seja o respeito dos professores da escola privada dando as mãos para os professores da escola pública. Nós temos realidades diferentes, temos opiniões diferentes, pensamos de forma diferente, mas o objetivo desse projeto é tão maior que tudo isso fica em segundo plano. Então, nós estamos lado a lado, trabalhando juntos.
Os alunos deram as mãos. Eles romperam os preconceitos dos dois lados. Eles quebraram muros. E vi ali que a tecnologia pode quebrar os muros da escola. Ela pode. Ela pode conectar frentes.
Infelizmente, esse projeto não é uma política pública, mas ele pode inspirar outras escolas a darem as mãos quando o objetivo é muito maior, que é unir essa geração. A gente escuta muito o saudosismo de uma geração que era de um jeito e a gente deposita toda a responsabilidade na geração que virá. E esta? O que esta geração pode fazer agora? Porque o mundo é agora.
Então, Clarice, Maria Eduarda, Júlia e Ana Beatriz, eu só posso me sentir muito honrada em estar ao lado de vocês. E, sim, eu aprendo muito ouvindo vocês.
Muito obrigada. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Muito obrigado, professora.
A SRª LUCILENE VARANDAS – É um prazer incrível estar aqui. Estou bem emocionada, na verdade. Eu trago a fala da escola pública de São Paulo.
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Registre seu nome.
A SRª LUCILENE VARANDAS – Lucilene Varandas, professora da Rádio no CEU EMEF Casa Blanca. Eu tenho muitas questões para tratar aqui. Uma delas é que o projeto no CEU EMEF Casa Blanca não é uma política pública, mas vem de políticas públicas. A minha formação de Mídias na Educação é semipresencial da universidade federal, uma formação para professor dentro de outro programa, que é a Universidade no CEU.
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Na verdade, é a universidade aberta no CEU, e a gente teve essa oportunidade de pós-graduação, fora outras formações que eu tenho. Sou pedagoga, sou cientista social e tenho esse olhar para as questões de transformação social.
Quando a gente fala de uma rádio numa escola pública da periferia de São Paulo... O CEU não é a instituição que vai trazer talvez o resumo de todas as escolas públicas; é uma escola que tem lá os seus privilégios, tem lá um conhecimento já construído, mas que também traz algumas características. Uma delas, por exemplo, é essa questão da rádio, que vem para dentro da escola para unir a comunidade, para dar força e para dar voz a essa comunidade. A comunidade, não só como diminuição desse entorno, mas, sim, trazê-la e dizer: "Olha, você tem essa característica, você tem uma identidade, você tem uma possibilidade de superação dessas questões, desses problemas sociais que tem no seu entorno".
E esse protagonismo das crianças se reflete, sim, nessa comunidade. Dar essa voz a eles e dar essa liberdade é bem forte para gente. Eu não trabalho com a rádio com caixinha, não é? Com a Imprensa Jovem, como o trabalho que eu faço de mestre de cerimônias, como caixinhas. Eu deixo eles falarem muito, deixo eles questionarem muito, deixo eles trazerem essa voz para dentro da escola, pois muitas vezes eles não são ouvidos.
Então, eu acredito de verdade que as políticas públicas do MEC... Com o Nas Ondas do Rádio, eu vi que há lá a TV Escola, durante um tempo eu fui assessora da TV Escola, eu fiz um trabalho muito legal; eu vi também que tem lá o Proinfo, e eu estudei em Santos com o Proinfo. Então, eu fui buscando significados nessas questões todas. As crianças são do Programa Mais Educação São Paulo, que é um vínculo com o programa do MEC. Então, são de grande importância, sim, essas políticas públicas para o nosso trabalho. Não está direcionado com o Dante, lógico, que é uma outra realidade, mas ele está dentro desse projeto Educom, Geração Cidadã 2016. Está certo?
Então, é isso que eu queria deixar registrado e também dizer da minha alegria de ir sentindo significado na minha formação, de poder levar para eles essa questão da tecnologia, da Imprensa Jovem, do Mestre de Cerimônias, dessas comunidades, desse entorno tão rico de cultura, não é? Você falou muito da cultura, mas também da formação midiática.
Está bom?
Muito obrigada. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Muito obrigado Professora.
A estudante também... Qual o seu nome?
A SRª ANA BEATRIZ DO NASCIMENTO – Ana Beatriz.
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Sim, por favor.
Nós vamos encerrar em cinco minutos.
A SRª ANA BEATRIZ DO NASCIMENTO – Bom dia. Meu nome é Ana Beatriz.
Como foi pedido para eu falar um pouco da minha experiência sobre como a escola pública está participando desse projeto, posso dizer que foi uma coisa inesperada. Quando a professora chegou e falou assim: "Nossa, a gente vai fazer um projeto com uma escola privada perto da Avenida Paulista". Todo mundo falou: "Não, Professora, como assim? Nossa, eles vão começar a julgar a gente". A gente já colocou aquele preconceito na mente de "somos inferiores", posso dizer.
Nós chegamos à escola e, no primeiro contato, ninguém falou com ninguém, cada um no seu canto, mas depois nós fomos percebendo, ao longo do projeto, que, como foi falado no vídeo, o mundo é um só e apesar das realidades serem diferentes nós conseguimos conviver em paz e fomos criando laços de amizade com a hashtag #aceitatodos.
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Cada um foi aceitando as diferenças e aceitando também o que o outro tinha, aquilo com que um concordava e outro não concordava. "Ah, vamos fazer assim." "Não, vamos fazer assim." E fomos aceitando, e esse projeto ficou muito incrível. Nós falamos: "Nossa, como a gente conseguiu?". Chegamos à USP: "Nossa, você se lembra do primeiro? Ninguém falou com ninguém e, no segundo, já estava todo mundo se abraçando". E foi uma coisa muito incrível, porque, como escola pública, foi um privilégio fazer isso.
Só para finalizar, como a Prof. Verônica disse assim que saímos do hotel, nós conseguimos quebrar essa barreira e esse preconceito que existia na mente de todos.
Obrigada. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Muito obrigado.
Conselheiro Roberto Franco.
O SR. ROBERTO DIAS LIMA FRANCO – Eu tenho uma pergunta a fazer a todos. Como ensinar a esses jovens que têm tanto para nos ensinar?
E o segundo ponto: eu estava aqui pegando um artigo de que gosto muito, uma publicação de que a FCC (Federal Communications Commission) – e a FCC fez junto com o Congresso americano – sobre a situação da mídia nos Estados Unidos. Há uma constatação de que a pluralidade de meios de acesso à mídia se multiplicaram vertiginosamente, porém as fontes de conteúdo confiável se reduziram.
Então, esse é o grande desafio que nós temos. Eu acho que todos os caminhos trilhados..., deixando muito claro que jamais serei contra a regulação da mídia. Jamais serei contra que se discipline onde é necessário. Por outro lado, eu aposto muito mais no lado da educação, da formação do cidadão. Acho que estamos aí na esperança de que aprendamos conjuntamente que, educando o cidadão, e o cidadão se autorregulando, autorregulando suas comunidades e autorregulando, ou até, na instância superior, regulando a sociedade, nós temos muito mais a ganhar na pluralidade, na divergência do pensamento.
Esse estudo, o Which information the society needs, é muito importante porque mostra justamente isto: uma pluralidade de acessos e o empobrecimento da cultura regional e o empobrecimento da geração de notícias de grande relevância.
O Davi usou uma palavra aqui, autorregulamentação, e eu acredito e acredito muito no conceito de accountability, que é trazer para cada um a responsabilidade. Então, como disse o Prof. Alton, começa o processo na regulação daquilo que nós nos criticamos a nós mesmos; que consigamos ver de onde vêm nossas crenças, de onde vêm nossos raciocínios e nossas bases, para poder, aí, sim, contribuir com os próximos.
E eu espero que tudo isso, esse conflito de visões e essas divergências de visões venham a construir uma união, uma soma muito maior do que uma subtração, como a gente tem visto na história passada.
Obrigado a todos. Foi um dia muito gratificante. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Muito obrigado, Conselheiro.
Por certo, seu questionamento é o de todos nós, e ele vai ficar a nos instigar a todos...
O SR. ROBERTO DIAS LIMA FRANCO – É uma provocação para instigar e mantermos esse diálogo aberto aqui nesta Casa, que, como se disse nas redes sociais, temos que trazer muito mais aos Deputados, Senadores, legisladores, uma visão diferenciada, uma forma diferente de regular.
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Muito obrigado.
Bom, mais uma vez registrando a importância deste seminário, a excelência do debate aqui hoje travado, das exposições, agradecendo muitíssimo a todos, eu queria uma palavra de despedida vinda da Clarice.
Por favor.
12:20
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A SRª CLARICE VILLARI – Eu gostaria de agradecer a todos aqui por terem assistido a gente, por terem conhecido o nosso projeto, porque, como eu falei no começo, é uma coisa que a gente fez com muito amor, com muita dedicação e pretendemos continuar para os próximos anos.
Eu gostei muito da visão positiva para o futuro em relação à tecnologia, a relação professor/aluno de todos aqui. Eu acho que todo mundo aqui é o futuro da Nação, seja jovem ou seja adulto, todos aqui somos o futuro da Nação. E a gente provou isso pelas nossas visões positivas em relação ao mundo.
Então, muito obrigada. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Muito obrigado.
Maria Eduarda, uma palavra de despedida.
A SRª MARIA EDUARDA SILVA DE OLIVEIRA – Eu gostaria de agradecer a todos por prestarem atenção no vídeo, porque foi o que pareceu. E a gente queria que vocês repassassem para todos os seus conhecidos e familiares, pois somos jovens que queremos mudar o mundo. Mas, como eu falei, contamos com vocês.
Então, muito obrigada. Meu nome? Desculpa. Então, é isso. Repassem para os familiares e conhecidos. Duas meninas vieram aqui representando outros jovens. Nós gostaríamos e queremos mudar o mundo.
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Muito obrigado. Parabéns! (Palmas.)
Professora Raquel Paiva.
A SRª RAQUEL PAIVA – Eu queria agradecer muitíssimo. Foi um prazer. Realmente quebrou o fascínio de vir falar aqui no Senado. E eu queria dizer que o que ficou no final para mim – e temos uma ideia - é, quem sabe, essa proposta do Educomunicação se transformar em uma política pública. Cabe aos senhores.
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Muito obrigado. (Palmas.)
Professora Sandra Zita.
A SRª SANDRA ZITA SILVA TINE – As últimas intervenções foram muito marcantes para mim. A fala de alguns conselheiros, a minha colega professora de educação básica falando da importância das políticas públicas, e o Conselheiro Davi, que falou no que acredita ou não acredita. E hoje ele acredita menos nas intervenções em escolas formais e igrejas. Enfim, eu acredito profundamente que essas mudanças passam pela escola, e pela escola pública sobretudo, aquela que chega a 38 milhões de crianças e jovens, muitos deles sem as oportunidades que, se não fosse a escola, não teriam. Então, eu acredito sinceramente na escola formal como instrumento de mudança e alavanca para isso que a gente pretende viver e enfrentar.
Aprendi muito hoje. Eu, como uma professora, adoro aprender, adoro. E hoje foi uma manhã de muitas aprendizagens. Eu queria mais do que tudo agradecer a essa comunicação que fizemos aqui.
Obrigada. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Muito obrigado, professora.
Antes de passar a palavra ao Dr. Alton Grizzle para também uma palavra final de despedida, quero registrar e agradecer o empenho do pessoal todo da assessoria, o Walmar, a Maria Espedita, a Drª Silvânia, Valdecy, Sérgio, enfim, todos – e se eu omiti alguém me desculpe –, mas todas as pessoas, as tradutoras, que se empenharam muito, o pessoal da nossa assessoria, da assessoria eficiente do Senado, enfim, todos que se empenharam muito na realização do evento. (Palmas.)
12:24
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Dr. Alton Grizzle, uma palavra de despedida.
É um prazer enorme para nós tê-lo podido receber aqui hoje, com essa sua verve, que ficou tão transparente para nós, hoje; com o seu entusiasmo e a sua disposição de luta. É um jamaicano de boa cepa.
O SR. ALTON GRIZZLE (Tradução simultânea.) – De um brasileiro a um jamaicano. Hoje, nós fizemos história. Hoje, nós fizemos o que eu chamo de um caldeirão de conhecimento. Não devemos perder este momento. Devemos compartilhar este momento. Cada pessoa que vive no Brasil deveria ter acesso a este diálogo de hoje, porque é um diálogo de verdade, é um diálogo de abertura, um diálogo de solução, um diálogo de liberdade de opinião e de posicionamento. Mas, no final, é um diálogo que pode nos levar a algum tipo de mudança também.
Eu sei que este Conselho é o Conselho de Comunicação, porém existem três aspectos que eu gostaria que levássemos para casa conosco.
Primeiro: na medida em que nós falamos das cinco leis da alfabetização midiática e de comunicação e da ecologia desse ambiente, não devemos nos concentrar apenas na tecnologia. Falamos de livros, de bibliotecas, de museus, de arquivos, de todo tipo de informação e comunicação. Essa é a primeira lei: todas as formas de comunicação são iguais. Não devemos enfatizar uma acima da outra, se queremos impactar algo.
Segundo ponto, que leva ao terceiro: a educomunicação ou alfabetização digital é alfabetização. Não é uma escolha entre escolher entre alfabetização básica pelos livros e alfabetização midiática. Não. É uma expansão do conceito. Nós, na Unesco, não acreditamos que existe uma educação para todos sem uma educação midiática para todos. Não existe igualdade sem acesso para todos e não existe liberdade sem acesso para todos.
Digo que a alfabetização midiática e de informação é alfabetização. Então, vamos adiante para criar mudanças. Precisamos de políticas públicas para garantir isso.
Obrigado.
Agradeço a todos! (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Conselheiro Ismar, muito obrigado pela organização, pela coordenação, pela parceria.
O SR. ISMAR DE OLIVEIRA SOARES – Eu só queria lembrar o seguinte: desde os anos oitenta, noventa, muitas organizações sociais desenvolveram projetos ao redor da mídia.
Ficou famoso um grupo chamado Rede CEP, no início dos anos dois mil, que trabalhava com esse objeto. E se contabilizou que ao redor de cinquenta mil, entre crianças e jovens, estavam trabalhando com mídia, no Brasil. Hoje, essas organizações continuam. Talvez, seja uns cem mil. Porém, o nosso desafio são as 38 milhões que estão nas escolas públicas e mais 7 ou 8 milhões, nas escolas particulares. Isto é: 45 milhões de jovens têm o mesmo direito que têm aqueles 50 mil atendidos por organizações não governamentais de alto nível.
Então, o desafio que se coloca para nós é o direito de as crianças brasileiras, de os jovens brasileiros terem o acesso que tiveram as quatro jovens que estiveram aqui conosco – duas aqui falando e outras duas fazendo a chamada cobertura comunicativa.
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Isso se transforma num momento histórico na vida de muitos de vocês, e, na minha, particularmente, esse é um momento histórico, pelo fato de este Conselho ter permitido que a discussão viesse para esse âmbito de assessoria no Congresso Nacional. Quem sabe, a partir de agora, nós tenhamos a oportunidade de dialogar com o MEC, com o Senado e com a Câmara dos Deputados, para podermos avançar, com passos bem dados, em torno da execução deste direito: o direito de 45 milhões de crianças e jovens do Brasil terem acesso a essa prática, a esse conhecimento. Isso será muito bom para a mídia, será muito bom para os profissionais, será muito bom para os educadores e, especialmente, para os jovens.
Era isso.
Obrigado. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Miguel Ângelo Cançado) – Conselheiro Ismar Soares, mais uma vez, muito obrigado.
Eu convoco todos os Conselheiros para o prosseguimento dos nossos trabalhos às 14 horas.
Declaro encerrado o evento.
(Iniciada às 9 horas e 14 minutos, a reunião é encerrada às 12 horas e 29 minutos.)