Autor
Pedro Simon (PMDB - Movimento Democrático Brasileiro/RS)
Data
02/06/2010
Casa
Senado Federal 
Tipo
Para discursar 

                          SENADO FEDERAL SF -

            SECRETARIA-GERAL DA MESA

            SUBSECRETARIA DE TAQUIGRAFIA 


            O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, é com muita emoção que eu falo neste momento. E pelo menos o Prefeito e alguns amigos meus de Caxias estão sabendo deste meu pronunciamento. É o primeiro centenário da minha terra, Caxias do Sul. Isto me traz a esta tribuna: 100 anos da cidade de Caxias do Sul, minha cidade natal, exatamente no dia de ontem, 1º de junho de 2010.

            Eu tive dificuldades para escolher por onde eu começaria o meu pronunciamento, tantas são as boas lembranças, tantas são as características marcantes da minha cidade, Caxias do Sul.

            Eu poderia começar pela economia. Caxias do Sul, que tem hoje mais de 410 mil habitantes, é reconhecida como uma das mais dinâmicas e pujantes cidades do Brasil. Basta lembrar que tem o segundo maior polo industrial mecânico do País, superado apenas pelo Estado de São Paulo. Conta com cerca de 6,5 mil indústrias, que levam a cidade a produzir quase 6% do Produto Interno Bruto do Rio Grande do Sul. Isso é um feito considerável. Não é pouca coisa, se considerarmos que é uma cidade localizada no interior do Rio Grande do Sul, se atentarmos para o fato de ser um jovem Município, recém atingindo os 100 anos. Um século atrás, Caxias ocupava uma modesta colocação entre as cidades do Rio Grande do Sul.

            Mas sinto que devo começar meu pronunciamento, falando das minhas lembranças mais remotas, das recordações mais cálidas que remontam a minha infância em Caxias.

            Vivi lá minha infância e, mesmo quando meu pai se transferiu com a família para Porto Alegre, nunca me afastei de Caxias. Lá ficou minha mãe adotiva, a querida mãe Olga; meu segundo pai, tio Nicolau, que eu chamava de paizinho. E lá ia eu todas as férias e praticamente todos os fins de semana.

            Eu me lembro de Caxias ainda menino como uma pacata cidade da zona da imigração italiana no Rio Grande do Sul. A vida era tranquila, mas já se percebiam nela os sinais do progresso que explodiu mais tarde.

            À época, quase que a totalidade da população descendia de imigrantes vindos da Itália, em sua maioria vindos da linda região do Veneto, nordeste italiano, espremido entre os picos nevados dos Alpes e as vias aquáticas belas de Veneza, sua capital.

            Ao longo do tempo, vindos de outras cidades, chegaram levas de descendentes de alemães, de poloneses, de russos. Meus pais vieram lá do Líbano. Muitos árabes, o que acabou resultando na diversidade ética da população local de Caxias nos nossos dias.

            Eu me lembro ainda hoje de que tudo o que se consumia em casa, companheiro Mão Santa, tudo o que comprávamos para viver eram os colonos, agricultores da cidade, que, com suas carroças de rodas rangentes para vender o produto, faziam com suas mãos, seu talento e a sua determinação. Eu era criança e me lembro da carroça rangendo, e a colona gritando: “Olha a colona!”, e a minha irmã descia. E, ali, na carroça, comprava-se de tudo. Lembro-me do que não se comprava: não se comprava carne de gado; não se comprava café. Mas o resto era tudo. Não havia supermercado. O agricultor, o colono plantava e colhia tudo o que necessitávamos para viver.

            O tempo passou, e vieram os supermercados. O tempo passou, e os 25 ha, quando ainda não havia a moderna tecnologia, não davam para sustentar uma família de 10 crianças que cresciam, ficavam grandes e precisavam trabalhar. Então, o êxodo. Milhares, milhares e milhares de caxienses, com milhares de gaúchos, andaram pelo Brasil, inclusive lá, no seu Piauí. E fizeram este milagre do Brasil. São os agricultores, mais de 1,5 milhão, que saíram do Rio Grande para fazer o progresso do Brasil.

            Lembro-me de mais: eram tempos de paz. As crianças brincavam soltas pelas ruas, numa época em que rua significava apenas liberdade; nunca recessão, muito menos perigo.

            Eu joguei bola na Avenida Júlio de Castilho. É a avenida principal, a chamada rua grande na minha época. A três quadras da Praça Dante; quer dizer, a três quadras do centro. Na rua principal, nós jogávamos partidas de futebol, tão fraco era o movimento, tão vazia era a movimentação de carro.

            Nós fazíamos as refeições em família. Todos em volta da mesma mesa, sob a autoridade imperiosa de meu pai. Era o momento mais solene que nós, os mais jovens, aprendíamos com os mais velhos. Comecei ali a vida escolar, que me levaria, ao final, ao curso de Direito, iniciado e terminado na Pontifícia Universidade Católica.

            Meus anos de estudante em Caxias, eu os vivi apenas em uma escola: o Colégio Nossa Senhora do Carmo, dos irmãos Marista. Guardo, dos anos em que passei lá, ainda muitas e boas lembranças. Recebemos ali uma educação primorosa, voltada para o exercício à cidadania, para o respeito às leis, para a necessidade de um permanente comportamento ético, para o amor à pátria, para a defesa dos interesses mais altos da Nação em desfavor dos interesses menores, ou seja, todos os valores que plasmaram minha educação e minha carreira política. E lá se vão mais de 60 anos.

            Todos esses valores deixaram entranhado Caxias na minha vida. Dito de outra forma, eu devo à centenária Caxias do Sul o que este homem de 80 anos foi e ainda é, e o que poderá vir a ser.

            Minha formação como cidadão se fez graças à severa educação escolar e religiosa que recebi. Dizem os historiadores que o sistema escolar público de Caxias era quase tão bom quanto o privado. Havia escolas na zona rural, onde então vivia a maioria da população. Eram elas em menor número do que o ideal, mas lá estavam abrigando esperanças, abrindo caminhos.

            As crianças do meio rural, àquela época, trabalhavam lado a lado com os adultos da colônia, cuidando das hortas familiares, das pequenas criações de subsistência, ajudando nos preparos da safra.

            Quero ressaltar ainda outro elemento de minha formação em Caxias: a ética do trabalho duro, honesto, interessante e incessante, que molda o caráter e a história dos imigrantes italianos. Existem estudos provando que aqueles que migram em busca de um futuro melhor para si ou para seus filhos trabalham com maior determinação; muitas vezes afastados da família, por vezes sem dominar o próprio idioma local, incapazes de entender o mecanismo secreto que move aquela sociedade, os imigrantes mergulham no trabalho e triunfam com ele.

            Um bom sistema de ensino, a ética de trabalho vigoroso e a habilidade nos artesanatos dos novos moradores de Caxias proporcionaram a fórmula propícia para o progresso e a indubitável industrialização de Caxias. Mas muito sacrifício foi feito para se chegar a esse resultado.

            Sempre ressalto, nos pronunciamentos sobre a fundação de Caxias do Sul, a colonização italiana - primeiro, a dos alemães.

            Os primeiros europeus chegaram em 1824. Foram beneficiados com as melhores terras então disponíveis. Os oriundos da Alemanha foram instalados pelas companhias de imigração nas margens dos rios que desciam a serra e escorriam para as estepes e pradarias banhadas pelo Delta do Jacuí, que domina a região metropolitana de Porto Alegre. Assim, sem maiores dificuldades, com a força da gravidade e as graças da natureza, puderam escoar a produção em direção à capital do Estado.

            Cinquenta anos depois, 1875, quando os imigrantes italianos começaram a se instalar em nosso Estado, foram destinadas a eles as terras mais afastadas, em meio às matas, matas cerradas em regiões de geografia difícil, morros e acesso muito precário. Por tudo isso, por terem padecido dias tão penosos em seus primórdios na serra fria e inóspita, os imigrantes italianos desenvolveram um extraordinário senso de comunidade e uma impressionante capacidade de adaptação.

            Como destacam os historiadores que vasculharam o nosso passado, esses primeiros imigrantes, que chegaram aqui apenas quinze anos após a unificação da moderna Itália, falavam quase duas dezenas de distintos dialetos italianos. A unir todos eles havia apenas um laço comum: a fé religiosa.

            Quando olhamos o mundo hoje, notamos ainda a força das migrações. Os Estados Unidos atuam como um forte imã a atrair gente de todo o mundo, mas principalmente hispânicos da América. A Europa unificada também é meta de milhares de cidadãos africanos e latino-americanos que buscam fugir da pobreza. Alemanha, Itália e Espanha são hoje portos seguros buscados por gente do Leste Europeu, da África e da própria América Latina.

            Cem anos atrás, no entanto, saíram justamente da Itália, Alemanha e Espanha centenas de milhares de imigrantes que buscavam o sonho da América. E boa parte desse sonho estava ali no sul do Brasil, no Rio Grande do Sul, na Caxias que hoje homenageamos.

            Foi exportando seus pobres, seus famintos, sua gente desempregada que os maiores países da Europa driblaram seus problemas sociais nos primórdios do século passado, empurrando aquela gente para o Brasil.

            Na década de 1870, a Itália recém-unificada enfrentou forte recessão. O fracionamento das terras pelas heranças gerou êxodo rural e a queda da produção de alimentos. Na cidade, sem qualificação para o trabalho industrial, os ex-camponeses estavam condenados à miséria. A única linha de fuga possível era a imigração. Os italianos juntaram suas aflições e misérias e cruzaram os oceanos, cruzaram os oceanos buscando a redenção de uma nova vida, nos Estados Unidos, no Canadá, na Argentina e no Brasil.

            No caso específico brasileiro, o interesse pelos trabalhadores europeus decorria da falta de mão de obra, carência que se acentuava desde as primeiras leis contra o tráfico de escravos. São Paulo e Rio Grande do Sul foram os Estados para onde canalizara a maré humana vinda da Itália.

            Na segunda metade do século XIX, o governo imperial brasileiro decidiu colonizar regiões desabitadas no sul do País, incentivando a vinda de imigrantes da Europa. Foi lá, nessa época, que se fez, praticamente, na minha região, quase que uma autêntica reforma agrária, que, infelizmente, não fizeram na zona sul do Rio Grande do Sul e até hoje não fizeram no Brasil.

            Depois de uma travessia oceânica que duraria cerca de um mês em navios superlotados, insalubres, razão de muita morte por doença, os imigrantes desembarcaram, ou melhor dizendo, eram depositados no Rio Janeiro ou Santos, onde permaneciam de quarentena.

            De lá, eram, depois, enviados ao Rio Grande do Sul. Desembarcavam em Porto Alegre e dali seguiam embarcações menores para São Sebastião do Caí, Montenegro e Rio Pardo, no interior do Estado. No lombo de burros, em carroças ou a pé, os imigrantes eram levados, depois, até uma região ainda selvagem conhecida como Campo dos Bugres, por ter, em tempos remotos, sido habitada por índios caingangues.

            Instalados em barracões, eles aguardavam por muito tempo a divisão dos lotes medindo 63 hectares de área para cada família, que dependiam ainda da abertura de estradas e da concessão de ferramentas e sementes.

            Depois, os lotes foram, gradativamente, reduzidos para 44, 30 e 25 hectares, lotes esses reembolsados ao Governo em prazos que variavam de 5 a 15 anos.

            Em 11 de abril de 1867, em homenagem a Duque de Caxias, aquela região da Serra Gaúcha ganhou a denominação final: Colônia de Caxias. O desenvolvimento econômico da Colônia foi rápido. A ocupação da área central da cidade de Caxias se deu em 1876. Segundo os registros mais antigos, 71% das famílias pioneiras vinham de Veneto, na Itália.

            Os brasileiros representavam apenas 2% da população. Os demais moradores eram distribuídos entre austríacos, alemães, ingleses, franceses e espanhóis. As casas de negócios, que, em 1878, eram apenas 3, saltaram para 93 em apenas 5 anos.

            Escolhidos os lotes, os imigrantes derrubaram a mata. Com a madeira obtida, construíram as moradias e começaram a plantar e a criar animais. Para reforçar o orçamento caseiro, alguns conseguiam colocação nas frentes de trabalho do Governo, cavando trilhas e abrindo estradas na região.

            Como o trabalho escravo era proibido nas colônias, a família desenvolvia todas as atividades necessárias à sua manutenção. Nos primeiros anos, essa gente passou por grandes dificuldades. A preocupação maior de todos era com a sobrevivência, restando pouco tempo para atividades recreativas ou sociais.

            Os homens derrubavam as matas e abriam as lavouras. Os animais domésticos eram cuidados pelas mulheres e pelas crianças. No pico da safra, todos trabalhavam juntos.

            Para fazer frente a essa enorme carga de trabalho, os filhos tinham de ser numerosos. Embora muitos deles morressem na infância, a alta taxa de natalidade acabou sendo responsável, décadas depois, pelo êxodo dos descendentes desses pioneiros em direção a outros Estados brasileiros, fazendo o milagre espetacular: Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Tocantins, Rondônia, Amazônia, Nordeste.

            Vivendo afastados uns dos outros, eles só se reuniam nos finais de semana.

            Os homens jogavam bocha, as mulheres faziam trabalhos manuais. À noite havia cantorias e danças trazidas da velha Itália.

            Como falavam diversos dialetos italianos, esses imigrantes acabaram por criar um novo linguajar, o talian, utilizado por todos eles. Verdadeiro elo dos colonos, o dialeto talian se manteria forte até a eclosão da Segunda Guerra Mundial, quando a guerra fez com que o Governo brasileiro passasse a forçar a integração das colônias de imigrantes pela universalização do ensino básico, proibindo até que se falasse o italiano e o alemão.

            Em volta das igrejas na zona urbana, ou das capelas espalhadas pelo interior do Município, surgiam salões festa, canchas esportivas, bolichos e escolas. Na zona rural, pela falta de sacerdotes, os leigos assumiam a reza do terço, faziam batizados e abençoavam as safras.

            Para exemplificar a força da religião em Caxias do Sul, na consagração da catedral, em 1900, o bispo da época crismou cinco mil pessoas no mesmo dia.

            É interessante considerar que as manifestações artísticas iniciais em Caxias do Sul surgiram em torno das atividades religiosas. Nossos primeiros artistas foram os escultores de altares, os modeladores de santos e os pintores de painéis de igrejas e capelas.

            A educação caxiense também nasce, em sua maior parte, por força da religião católica. Logo surgem professores particulares nos distritos e capelas.

            As ordens religiosas católicas criaram os maiores educandários da cidade: Colégio São José, Colégio Nossa Senhora do Carmo, Colégio São Carlos, Nossa Senhora de Lourdes.

            O SR. PRESIDENTE (Mão Santa. PSC - PI) - Ordem Terceira Franciscana. Minha mãe, por várias vezes, foi lá dar cursos para noivos. Mestre noviça da Terceira Franciscana.

            O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS) - Já tinha naquela época, Sr. Presidente.

            O crescimento das cidades não demorou.

            Em 1884, Caxias já registrava uma população de 10.500 habitantes.

            A indústria surge já no início do século XX, tendo como base os pequenos estabelecimentos fabris que haviam sido criados para atender a demanda crescente das colônias que produziam vinho e uva, alimentos caseiros e artesanato local.

            O comércio se expande. Em 1901, surge a Associação dos Comerciantes. Em 1895, chega o telefone. Em 1906, começa a era do telégrafo.

            Em 1910, a Vila de Santa Tereza de Caxias foi elevada à condição de cidade e teve seu nome reduzido a uma só palavra: Caxias. Naquele ano, o Município já contava com 235 indústrias e 186 estabelecimentos comerciais.

            Caxias recebeu status de cidade justamente no dia em que ecoava ali o apito do primeiro trem que ligava a região da Serra à capital do Estado, unindo Caxias a Porto Alegre.

            A energia elétrica chega em 1913. Em 1919, havia mais de 40 categorias empresariais na cidade, com destaque para a indústria metalúrgica de Abramo Eberle. Em 1920, é inaugurado o primeiro grande hospital: Nossa Senhora da Pompeia.

            Na primeira metade do século XX, a cidade cresceu e diversificou sua economia. O primeiro ciclo econômico foi o da agricultura de subsistência, centrado na produção de uva, vinho, trigo e milho, com uma incipiente industrialização doméstica.

            Com o passar do tempo, porém, a indústria caseira se diversificou, acompanhando o crescimento da população, ampliando o leque de manufaturados até chegar ao vasto parque industrial que possui hoje.

            Ao mesmo tempo, avançou a viticultura. Foi através da produção de uva e vinho que Caxias do Sul se projetou no Estado e no País, tornando-se também um importante polo turístico do Estado.

            Em 1931, quando foi realizada a primeira Festa da Uva, o Município - com uma produção de quase 42 mil toneladas de uva - era responsável por quase um terço de toda a produção gaúcha. Não houve um desfile de carros alegóricos nem a escolha da Rainha da Uva, como depois se tornaria tradicional, mas o sucesso foi tanto que imediatamente começou o planejamento da festa seguinte.

            O Brasil produz hoje 1,3 milhão de toneladas de uva, cerca de metade disso só no Rio Grande do Sul. E a Festa da Uva se transformou no maior evento do seu gênero na América Latina, recebendo mais de 300 mil visitantes.

            A cidade cresceu em ritmo vertiginoso. A população do núcleo urbano passou de 2.500, em 1900, para 36.742, em 1950.

            Ainda na primeira metade do século passado, surgem as associações recreativas: o Clube Juvenil, em 1905; o Recreio da Juventude, em 1912. Os clubes esportivos vêm a seguir: Esporte Clube Juventude, em 1913; Grêmio Esportivo Flamengo (atual Caxias), em 1935.

            A vida política em Caxias do Sul foi agitada desde seus primórdios. Em 1891, eclodiu na cidade a Revolta dos Colonos, que se insurgiram contra o resultado de uma eleição.

            Três anos depois, em 1894, a cidade se viu envolvida pela sangrenta Revolução Federalista. Em 1922, os títulos eleitorais dos contrários ao castilhismo foram retidos. Distritos importantes se separaram da cidade: Nova Trento, em 1924, e Nova Vicenza, em 1934.

            Durante a Segunda Guerra Mundial, a cidade viveu um pesado clima de xenofobia. Como a Itália formava ao lado das potências inimigas do Eixo, grupos nacionalistas se manifestavam contra símbolos da imigração italiana.

            Pessoas que mal sabiam falar o português foram impedidas de usar o talian. Em 1945, houve uma confrontação durante comício contra o comunismo realizado diante da catedral.

            Atualmente, Caxias do Sul consagra um grande Prefeito do PMDB, José Ivo Sartori, reeleito depois de uma excelente gestão. Anteriormente, a Prefeitura ficou oito anos sob o governo do PT, com o Prefeito Pepe Vargas, hoje Deputado Federal, que também fez uma muito boa administração.

            Na última eleição, concorreram os dois. Não houve uma palavra do Deputado Pepe Vargas ofendendo o Prefeito Sartori, e não houve uma palavra do Prefeito Sartori ofendendo o Deputado Pepe. Hoje, é assim que se faz a política madura e de alto nível na minha cidade de Caxias do Sul.

            Quero aproveitar esta ocasião para destacar aqui o desempenho extremamente competente do nosso atual Prefeito. Tenho acompanhado de perto a gestão do meu amigo e companheiro Sartori à frente da Prefeitura de Caxias. Eu poderia estender-me aqui em elogios, mas vou me concentrar em três pontos altamente positivos de sua administração: a melhoria acentuada na área da saúde, com a construção e reformas das Unidades Básicas de Saúde; a transformação de Caxias do Sul na primeira cidade brasileira a utilizar a coleta de lixo automatizada; e a abertura e ampliação de vias públicas para a melhoria do trânsito.

            A reeleição de Sartori, em 2008, foi uma amostra da percepção que o povo da minha terra tem do trabalho desse extraordinário homem público.

            Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, a industrialização de Caxias é um fenômeno que impressiona pela grandeza de sua escala. Tudo começou com o aparecimento de pequenas oficinas de fundo de quintal, onde homens habilidosos e criativos fabricavam equipamentos para o processamento do trigo, do milho, da banha, da madeira, dos embutidos, da uva.

            Foi essa a base sólida sobre a qual se assentou o seu fantástico progresso industrial.

            Em 1975, quando se comemorou o Centenário da Imigração Italiana para o Brasil, Caxias do Sul já era a segunda cidade mais rica do Estado, ultrapassando a histórica cidade de Pelotas, o centro mais dinâmico da zona sul.

            Mas o processo acelerado de industrialização gerou problemas.

            Reunidos na Câmara de Indústria e Comércio de Caxias do Sul, os empresários lutam pela criação do distrito industrial de modo a ordenar a zona urbana. Além da tradicional metalúrgica Abramo Eberle, surgiram outras grandes empresas no setor, entre elas se destacando as gigantes como a Marcopolo e a Randon, hoje marcas que atravessam as fronteiras do Brasil e espalham pelo mundo a excelência e o talento do trabalho de Caxias.

            Apesar da estagnação vivida pelo Brasil a partir da crise do petróleo dos anos 70 e da década perdida dos anos 80, Caxias do Sul continua avançando aceleradamente, e não apenas no campo econômico. Recentemente, fiz um pronunciamento para destacar duas importantes conquistas da minha cidade. Caxias do Sul foi considerada, em 2008, a capital brasileira da cultura, segundo importante estudo realizado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), do Ministério do Planejamento, e pelo Ministério da Cultura, com base em dados levantados em 2006 pelo IBGE no perfil brasileiro dos Municípios.

            O estudo analisou as administrações municipais para avaliar as políticas voltadas para a área da cultura. Foram examinadas as características do órgão municipal gestor de cultura para verificar se ele “atendia aos interesses do cidadão, a participação da sociedade, a existência de lei municipal de fomento à cultura e à proteção ao patrimônio artística e cultural do município”. Para ser escolhida a “Capital Brasileira da Cultura”, Caxias do Sul teve de vencer outros 5.562 Municípios brasileiros que disputavam o título.

            O prêmio é merecido, porque, em Caxias do Sul, preservamos com cuidado a riquíssima herança cultural por meio da pesquisa e da proteção do patrimônio histórico, artístico, arquitetônico e paisagístico.

            Mais recentemente, Caxias do Sul foi considerado o município brasileiro de maior colocação no ranking do Índice de Desenvolvimento Familar, IDF. Repito, Caxias do Sul foi considerado o município brasileiro de melhor colocação no ranking do Índice de Desenvolvimento Familiar, IDF.

            O que vem a ser IDF? Segundo o Ministério do Desenvolvimento Social, que o criou, o IDF é mais efetivo do que o IDH, Índice de Desenvolvimento Humano, para apurar a real situação social e econômica da nossa população.

            Criado com base no monumental acervo de informações recolhidas nos bancos de dados do Bolsa Família, esse indicador leva em conta seis fatores, que são: nível de escolaridade, possibilidade de acesso a postos de trabalho, renda efetiva em dinheiro, desenvolvimento estudantil, condições reais de moradia.

            Por esse indicador, sabe-se que Caxias do Sul é a cidade brasileira na qual os pobres são menos pobres. Repito, porque é importante: Caxias do Sul foi considerada a número um como cidade brasileira onde os pobres são menos pobres. Mais do que isso, Caxias do Sul foi considerada município livre do analfabetismo pelo Ministério da Educação. Livre do analfabetismo Caxias do Sul foi considerada pelo Ministério da Educação.

            A cidade tem taxa de apenas 3,6% de pessoas que não sabem ler e escrever, nível equivalente aos dos países mais desenvolvidos da Europa.

            O índice do Produto Interno Bruto, PIB per capita, em Caxias, atingiu R$25 mil reais em 2008, mais do que o dobro da renda nacional, que chegava a R$10 mil reais. Dez mil reais a renda nacional, vinte e cinco mil a renda per capita de Caxias. Ou seja, enquanto o Brasil atingia o patamar de países como África do Sul, Costa Rica e Panamá, o Município de Caxias do Sul superava o índice de renda de países prósperos como Hungria, Portugal e a rica Arábia Saudita.

            Um bom retrato da pujança de Caxias do Sul é que apenas 5,3% dos moradores da cidade recebem o beneficio do Bolsa Família. Apenas 5,3% dos moradores da cidade recebem o beneficio do Bolsa Família! E recebem por quê? Porque é impressionante o número de caxienses ou de catarinenses de vários lugares do Estado que vão a Caxias em busca de emprego, que largam tudo, largam a sua cidade, lá da fronteira, lá do Sul, lá da zona Centro-Oeste, e vão para Caxias e, muitas vezes, levam tempo até conseguir um emprego.

            Esse é o percentual, porque, se fosse apenas dos que moram em Caxias, dos que vivem em Caxias tradicionalmente, nem isso não tinha. O desemprego seria praticamente zero. Sete mil famílias nessas condições. Apenas 5,3% recebem o Bolsa Família.

            Apresento aqui outros indicadores levantados pela Fundação de Economia e Estatística Siegfried Emanuel Heuser de Porto Alegre, para mostrar a real situação do Município de Caxias:

            A cidade teve, em 2008, um PIB, Produto Interno Bruto, da ordem de R$9,8 bilhões. Levando-se em conta que a população de Caxias, hoje, é de 412 mil habitantes, o PIB per capta fica sendo da ordem de R$24.589,00. Já a expectativa de vida ao nascer do cidadão de Caxias do Sul é, hoje, da ordem de 74,11, superior aos 72,86 anos da média - 74,11! Eu sou caxiense e estou com 80, eu já atravessei 6 anos a mais do que a média. Já está na hora de eu cair fora. O coeficiente da mortalidade infantil é de apenas 9,04 por 1.000 nascidos vivos, menos da metade da taxa nacional, que atinge 23,30 de óbitos por 1.000 nascidos.

            Srs. Senadores, a minha vida está estreitamente ligada a Caxias do Sul, e não é só porque eu nasci lá. Antes mesmo de me formar em Direito, ainda no 5º ano, eu já mantinha um escritório de advocacia em Caxias. Foi lá que fiz o meu primeiro júri como advogado de defesa. Nessa época, eu me dividia entre Porto Alegre e Caxias. Foi lá, em 1959, que obtive o meu primeiro mandato eletivo, como vereador. Podia ter concorrido em Porto Alegre. O normal é que eu concorresse em Porto Alegre, mas preferi a minha terra, Caxias do Sul. Foi em Caxias do Sul que eu comecei a lecionar na universidade.

            Tive o privilégio de participar da criação do curso de Direito da Universidade de Caxias. Aliás, vivi na universidade alguns dos melhores momentos da minha vida naquela cidade.

            Tive a honra de ser o portador do documento oficial de autorização para que se criasse a Universidade de Caxias do Sul, assinado pelo então Presidente João Goulart. Foi a última assinatura oficial de Jango antes de ser derrubado pelo golpe militar de 1964. Eu era então Deputado Estadual.

            Quando viemos a Brasília, como militante do PTB do Rio Grande do Sul, conversar com Jango, naqueles dias nervosos de rumores do golpe iminente, que terminou acontecendo, meus colegas de bancada me advertiram: “Nós estamos aqui discutindo o drama do Brasil, com o Presidente em véspera de ser deposto, e tu vens com memorial para criar a Universidade de Caxias do Sul, Simon! Tenha dó!” E eu fiquei encabulado, mas apresentei ao Jango. E ele assinou, determinando a criação da universidade. Foi sua última assinatura como Presidente da República.

            Hoje, 50 anos depois, acho que ficou bem, inclusive para a imagem de João Goulart, que o último ato assinado por ele como Presidente da República foi o que determinava a criação da Universidade de Caxias do Sul.

            À frente da nova universidade, estava o Dr. Virvi Ramos, um médico excepcional, dono de um hospital, que depois criou a Faculdade de Medicina; estava o Bispo de Caxias, com a Faculdade de Economia e de Filosofia; e estava a Prefeitura de Caxias, com a Escola de Belas Artes.

            Os corredores da Faculdade de Direito de Caxias foram o meu melhor caminho. Orgulho-me de ter participado mesmo que modestamente dessa bela história. Orgulho-me, mais ainda, de sentir que aquela universidade ajudou a construir a minha própria trajetória de vida.

            O Sr. Flávio Arns (PSDB - PR) - Senador Pedro Simon.

            O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS) - Pois não, Senador.

            O Sr. Flávio Arns (PSDB - PR) - Até peço desculpas a V. Exª, Senador Pedro Simon, mas é que estou acompanhado de vários alunos de uma escola de educação especial de Curitiba, que é a Escola de Educação Especial Tomaz Edison de Andrade Vieira. Então, são crianças e jovens que estão visitando o Congresso Nacional. E peço mil desculpas por interromper o pronunciamento, mas dizer também da presença da Diretora, Regina Célia, das professoras Carmem, Marilda, Sonia, Thais e de todos os alunos que estão aqui. Quero dizer que é sempre uma honra para o Congresso Nacional receber crianças e jovens, mas, particularmente quando essas crianças e jovens vêm de uma escola de educação especial, mantida pela prefeitura municipal de Curitiba, e que se dedica a atender também pessoas com algum tipo de deficiência. Então, quero dar as boas vindas aos alunos, alunas, professoras, dizer da alegria de recebê-los no Senado Federal, no Congresso Nacional. E que vocês levem de volta para a escola de Curitiba a impressão boa de que aqui, em Brasília, todas as crianças e jovens, que são, sem dúvida, o futuro do Brasil, muitos estarão também na área política para que possam levar essa ideia, essa experiência boa de Brasília de volta para Curitiba. Peço desculpas, Senador Pedro Simon, mas sei que V. Exª é altamente ligado a todas as entidades que atendem também a crianças e jovens com algum tipo de necessidade especial. Então, a todos vocês as boas vindas ao Senado Federal. Obrigado. (Palmas.)

            O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS) - Meu querido Senador, eu acredito em destino. Tem uma palavra árabe que meu pai me ensinou que diz maktub - está escrito. V. Exª me pede desculpas, mas eu tenho que agradecer do fundo do meu coração. Foi o destino que trouxe esses jovens aqui, trazidos pela mão de V. Exª, que todos nós sabemos que tem exatamente no atendimento a crianças com problemas a sua grande bandeira de luta. V. Exª é uma pessoa que tenho dito. Seu tio cardeal é um grande homem; sua tia, a extraordinária irmã que morreu lutando, é uma grande senhora; mas você é um cara extraordinário, pela sua pureza, a tua dignidade, a grandeza e a luta tua por essa causa, porque, quando estou falando de Caxias, quando estou falando na história de minha terra e quando falo nas questões da minha terra, eu começo exatamente lá e o meu discurso, no início, eu comecei nas crianças.

            Comecei me lembrando quando eu tinha a idade de vocês, meus jovens; comecei me lembrando de a gente aprendendo na escola - e tinha uma escola que nos ensinava. Graças a Deus, eu não tinha televisão à época, para não mostrar as coisas ruins que acontecem. Nós tínhamos nossos pais e nossos professores e tínhamos nossos religiosos que, também, não faziam coisas ruins naquela época. E, através daí é que nós aprendemos a ser gente na família... Sim, na família, com nossos pais nos educando; na escola com essas professoras extraordinárias. Então, as professoras de vocês que se dedicam a crianças com os seus problemas, são metade professoras e metade santas, , porque precisa ter uma dedicação muito grande. Pessoas que fazem o que essas professoras fazem, não é por dinheiro, não é por nada, é por amor! É amor a uma grande causa... E vocês estão aqui agora e, se Deus quiser, vocês vão vencer. O mundo está cheio de casos e de exemplo de pessoas que venceram as dificuldades. Dificuldades - algumas - consideradas quase que impossíveis. E essas dificuldades fizeram com que essas pessoas se transformassem em grandes nomes dentro da história. Quando a gente lembra que Beethoven compôs sua obra mais fantástica quando estava surdo, a gente entende como as pessoas tudo podem. E, vendo vocês na alegria, vendo vocês nesse contentamento, como é bom teu trabalho, meu querido Senador Arns, como é bom nosso trabalho, fazendo com que esse excepcional se traduza, cada vez, numa oportunidade melhor. em cada vez uma oportunidade melhor!

            Por isso, em nome de Caxias, agradeço a vocês que, querendo ou não querendo, Deus enviou aqui. E eu recebo isso como homenagem a Caxias, como homenagem àquela cidade que, desde a sua origem até hoje, tem uma dedicação e um carinho especial à criança.

            Muito obrigado.

            Ouço o Senador Eduardo Suplicy.

            O Sr. Eduardo Suplicy (Bloco/PT - SP) - Prezado Senador Pedro Simon, que bonita a história dos 100 anos de Caxias! V. Exª nos contou aqui uma bonita trajetória: a sua e a da sua cidade. Conforme V. Exª ressalta, Caxias tem hoje alguns dos melhores indicadores de desenvolvimento humano, de desenvolvimento da família, baixo índice de analfabetismo. V. Exª também salientou que apenas cerca de 7 mil famílias, correspondendo a 5,3%, recebem o programa Bolsa Família, o que indica que ali são relativamente poucos em comparação ao que acontece no resto do Brasil, os que estão recebendo esse importante programa de natureza social do Governo do Presidente Lula, na verdade do Governo de todos os partidos, porque afinal o Programa Bolsa Família, como os que o precederam, foram aqui votados por todos partidos. Então, se trata de um programa de governo, Executivo e Legislativo, e sobre esse assunto há consenso. Mas aqui ouso fazer uma sugestão, se V. Exª puder me repetir o nome do Prefeito que tanto elogiou, atual, o prefeito de Caxias, presente, eleito em 2008, se V. Exª ...

            O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS) - José Ivo Sartori. 

            O Sr. Eduardo Suplicy (Bloco/PT - SP) - A sugestão que formulo a V. Exª como cidadão de Caxias, Governador que foi do Rio Grande do Sul e Senador, é que quem sabe possa Caxias realizar uma outra experiência pioneira. Eu gostaria de relembrar, Senador Pedro, que na segunda metade dos anos noventa, quando era prefeito Pepe Vargas, eu o estimulei e ele foi um dos prefeitos, naquela segunda metade dos anos noventa, que instituiu um programa de renda mínima associado à educação como aconteceu no Distrito Federal, em Campinas, em Riberão Preto, Belo Horizonte, Belém, Mundo Novo, Caxias e demais Municípios brasileiros. Esses programas, hoje, se tornaram uma lei federal e estão concretizados no Bolsa Família, que está presente nos 5.554 Municípios brasileiros, todos. Mas V. Exª foi um dos Senadores que aprovaram aqui a Lei nº 10.835, que instituirá, por etapas, o Bolsa Família; uma etapa nessa direção da Renda Básica para todos os habitantes do Brasil. Qual é a minha sugestão? Que V. Exª sugira ao Prefeito José Ivo Sartori que considere a hipótese de fazer de Caxias do Sul um exemplo pioneiro da Renda Básica de Cidadania. Já há um Município no Estado de São Paulo, denominado Santo Antônio do Pinhal, de 7 mil habitantes, pequenos e médios agricultores, 60 pousadas, 1.300 leitos, 32 restaurantes - aí estão as suas principais fontes de rendimento, além do artesanato e tudo. É sobretudo uma instância turística, com pequenos e médios agricultores produtores de frutas. Mas ali todos se entusiasmaram. E o Prefeito encaminhou, em agosto último, um projeto de lei para realizar ali a experiência da Renda Básica de Cidadania para os seus 7 mil habitantes. Em agosto, ele mandou o projeto; em outubro, por 9 votos, nenhum contrário, a Câmara o aprovou; e, em 12 de novembro, o Prefeito sancionou. A Srª Moira Paz-Estenssoro, que dirige a Corporação Andina de Fomento, ficou tão entusiasmada que disse: “Eu quero colaborar para que isso aconteça”. A Corporação Andina de Fomento realizou um convênio com a Universidade de Campinas, Unicamp, pelo qual, com R$100 mil, proverão assessoria técnica, coordenada pela pesquisadora, ex-primeira-secretária do Renda Básica de Cidadania do Bolsa Família, Srª Ana Fonseca. Nesses próximos dias, estarão lá reunidos para ver os passos necessários para implementar o projeto. A equipe que receberá os R$100 mil já disse que colocará os recursos no fundo que vai pagar a Renda Básica de Cidadania para todos. Ora, eu quero aqui encaminhar, neste instante, a V. Exª a cópia da lei de Santo Antonio do Pinhal e, quem sabe, possam o Prefeito e os Vereadores de Caxias do Sul também fazer de Caxias um exemplo pioneiro da instituição da Renda Básica de Cidadania para todos os seus habitantes. V. Exª tem-me ouvido falar aqui das vantagens de por que será positivo se pagar simplesmente a todos, inclusive ao Senador Pedro Simon, porque nós dois iremos colaborar para que nós próprios e todos os demais venhamos a receber. E, assim, há enormes vantagens de eliminação de burocracia, do estigma, com o objetivo de se prover dignidade e liberdade real para todos. O projeto que V. Exª aqui aprovou com todos os Senadores, sancionado pelo Presidente em 8 de janeiro de 2004, só falta implementar que Municípios como Caxias venham a se tornar exemplos pioneiros, o que significará um passo na boa direção. Mas, finalmente, quero aqui salientar algo que V. Exª disse hoje, na Comissão de Relações Exteriores. Pela voz de V. Exª, dado o seu peso, a sua história, confundida com a de Caxias do Sul, quando V. Exª diz ao Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama: vamos logo acabar com o embargo, com o bloqueio a Cuba, seja a voz de V. Exª ouvida, desde o Plenário do Senado até a Casa Branca, em Washington D.C. Muito obrigado.

            O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS) - Em primeiro lugar, Senador, por minha conta, em nome do Prefeito, eu convido V. Exª para visitar Caxias. E peço a V. Exª que aceite o nosso convite para debater. Tem uma coisa muito bacana em Caxias, que é uma grande Câmara de Vereadores. Para os Vereadores de Caxias, independente do Partido a que pertencem, o que é bom para Caxias é bom para eles. E tenho certeza de que de todos os partidos haverá esse interesse. Vou falar agora com Sartori e dizer que convidei V. Exª para fazer esse debate em Caxias. V. Exª já pode marcar a data.

            O Sr. Eduardo Suplicy (Bloco/PT - SP) - Já aceito, de pronto.

            O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS) - Pode marcar data. Agora, posso lhe garantir que é difícil encontrar um Município onde o ensino municipal seja comparável ao de Caxias. Comparável ao de Caxias! Em primeiro lugar, as escolas são municipais. Não sei nem qual é o percentual que sobra para o Estado, mas é uma ninharia. O ensino público é praticamente todo municipal.

            Uma professora municipal ganha quase que o dobro de uma professora estadual. O regime de seriedade e de respeitabilidade, de credibilidade, bem como o grau de aproveitamento das crianças que saem da escola pública de Caxias do Sul é qualquer coisa fora do comum.

            O grau de conservação das escolas e a modernização, com a tecnologia que está sendo levada a todas as escolas, por meio dos aparelhos mais modernos, isso que se fala, que o Governo vai levar para as escolas, já está lá em Caxias. A tecnologia mais avançada já está lá.

            Temos escolas como a escola do Senai, que é um exemplo para o Brasil e para o mundo, pela tecnologia, orientação e o avanço que elas têm.

            As escolas técnicas de Caxias são uma meia dúzia, cada uma melhor do que a outra. Eu vi aqui os excepcionais. A escola dos excepcionais de Caxias, municipal, é uma coisa fantástica. É emocionante.

            A Apae e a escola que eles mantêm em Caxias, olha, eu me emociono muito, porque é algo que Caxias conseguiu fazer. E não são apenas os professores. O grande valor dessas escolas de excepcionais são os pais dos alunos, são os herois. Eu conheço um cujo filho excepcional morreu, mas ele continua ajudando os filhos dos outros em homenagem ao filho.

            Mas acho que a proposta de V. Exª é muito interessante. E acho que Sartori e o próprio Pepe vão ficar muito satisfeitos em fazer um debate com V. Exª. Digo de coração a V. Exª, que leva essa tese pelo mundo afora, que acho que o Lula podia ter um pouco mais de atenção. Eu acho que Lula podia dar um pouco mais de atenção. Eu não sei por que, eu não consigo entender. Será que Lula marca tanto assim? Vi o seu gesto como um gesto maravilhoso. Propôs-se a concorrer por uma convenção a candidato a Presidente da República com Lula. Alguém tinha alguma dúvida? Passou em algum momento pela cabeça de V. Exª que V. Exª tinha alguma chance de ganhar? Foi um gesto para demonstrar democracia. Mas Lula, um pouco na vaidade, queria se aclamar sozinho.

            Eu vejo essas coisas que estão acontecendo. Agora, por exemplo, V. Exª estava nas prévias. Toda a imprensa de São Paulo dizia que a única candidatura com chance de chegar lá era a V. Exª, que as pesquisas dão o candidato do PSDB lá na frente e V. Exª lá atrás, em segundo, mas o terceiro bem lá atrás. Pediram que V. Exª não fosse candidato.

            V Exª aceitou; não é candidato. Mas aí vem o Mercadante, homem inteligente, e convida V. Exª para ser vice. Agora, eles não querem que V. Exª seja vice. É uma piada.

            O Sr. Eduardo Suplicy (Bloco/PT - SP) - O Senador Aloizio Mercadante até que me convidou, mas o PDT quer que seja do PDT. Então, há que se respeitar. Coloquei-me para colaborar com o Partido, com Aloizio Mercadante, com o que eles avaliarem como melhor para São Paulo, para o PT, para a nossa candidata Dilma, para a própria Martha.

            O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS) - Eu sei. Eu me lembro de V. Exª aqui. Cá entre nós, perdoe-me o Senador Mão Santa, era um belo Senado o que tínhamos há 20 anos.

            O Sr. Marcelo Crivella (Bloco/PRB - RJ) - Eu tenho a impressão de que aquele velho amor vai reacender aqui no plenário do Senado. Martha Suplicy, Eduardo Suplicy, no confronto, no contraditório, no debate diário, vai reacender a velha paixão. Eu acho que é isto que está no cenário do PT: mantê-lo aqui e trazer a Martha agora. Ela hoje é solteira. Há esperanças, Senador Pedro Simon.

            O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS) - O que vem e de onde vem eu não posso responder.

            Mas eu queria dizer outra coisa a V. Exª sobre isso que V. Exª falou. É bom marcar, Sr. Presidente. Faz tempo que não falo nesse assunto. É bom marcar que os planos não caem do céu.

            Esse Bolsa Família não apareceu prontinho, bonitinho, da noite para o dia. V. Exª, a pedido do Lula, Presidente do seu Partido e candidato a Presidente, me procurou dizendo que o Lula queria falar comigo, e fomos lá no seu gabinete. Aí o Lula apresentou uma proposta que era uma ideia de combate à fome - a fome era intensa, nós tínhamos que fazer um plano de combate à fome - e queria uma audiência, se não me engano, com o Ministro da Educação, não sei se era o da Educação. Eu saí, olhei - eu era Líder do Governo - e falei com o Presidente Itamar: “Eu acho, Itamar, que esse projeto é muito importante”. E eu me lembro quando V. Exª me disse que o Lula ficou até assustado quando eu marquei e avisei que era uma audiência com o Presidente da República e mais cinco Ministros, que se reuniram. Aí o Lula também se preparou. Foi ele e mais uma equipe enorme. Foi uma das belas reuniões que nós assistimos no Palácio, com o Lula e os assessores expondo, e o lado de cá aceitou. E foi criado o Programa de Combate à Fome.

            O problema é que o Governo fez questão, não era um programa partidário, nem político, nem eleitoreiro, tanto que escolheram para presidir o Betinho, um homem de oposição ao Itamar, ao Governo, um homem duro e radical de oposição, e escolheu para secretário executivo o bispo de Duque de Caxias, também um bispo da linha dura de oposição. Os dois fizeram um belo trabalho. Então aquilo que o Lula ia entregar para o Ministro como projeto, uma ideia, e que ficaria ali para ver o que depois ia ser feito, depois ganhou o Fernando Henrique, que provavelmente não faria nada... Não, o Itamar botou, nos seus dois anos, imediatamente em exercício.

            Aí entrou o Fernando Henrique. Deu um outro estilo, mas o programa continuou. Como se chamava? Cidadania...

            O Sr. Marcelo Crivella (Bloco/PRB - RJ) - Fome Zero.

            O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS) - Não, Fome Zero é do Itamar. O do Fernando Henrique?

            O Sr. Eduardo Suplicy (Bloco/PT - SP) - Cidadania solidária...?

            O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS) - Cidadania Solidária, e botou a esposa dele...

            O Sr. Eduardo Suplicy (Bloco/PT - SP) - A Srª Ruth Cardoso foi Presidente do Conselho de Solidariedade.

            O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS) - Exatamente. Ele botou a esposa dele, a primeira-dama, Presidente.

            O Sr. Eduardo Suplicy (Bloco/PT - SP) - Comunidade Solidária.

            O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS) - Comunidade Solidária! Um belo trabalho. Foi por outro lado, um bom trabalho. Está provado hoje que não era o ideal, mas foi um bom trabalho. Começou com o Lula fazendo uma proposta que em tese era para morrer numa gaveta, mas que o Governo do Itamar botou em prática - o Fome Zero -, que o Governo do Fernando Henrique levou adiante - Comunidade Solidária -, e oito anos depois entrou o Lula, e está aí o Fome Zero, que é um grande projeto, o que demonstra que quando a coisa é positiva e se quer, se faz.

            Uma ideia do Lula, que falou com V. Exª e V. Exª resolveu fazer uma ponte, em vez de apenas expor. “Vamos levar para o Governo. Pode não dar nada, mas vamos levar.” Deu muito mais do que se imaginava. Saiu o projeto.

            Cá entre nós, o Betinho e o bispo de Caxias fizeram um trabalho muito positivo. Mexeram, sacudiram, movimentaram. Muito positivo!

            O Fernando Henrique deu outro estilo, mas respeitável. E agora é um projeto de primeira grandeza. Não é o fim. É muito importante dizer isso. O Bolsa Família não pode ser o plano final de um governo. É um plano intermediário; é um plano para chegarmos a que todo cidadão tenha direito ao trabalho e, com o trabalho, tenha direito a receber uma remuneração para viver com dignidade. E não precisa de Bolsa Família. Mas nós não podemos esperar chegar até lá, e as pessoas morrerem de fome. Então, esse é um plano correto, e eu defendo isto: até chegar lá.

            Mas veja V. Exª como, às vezes, as coisas acontecem. Muito poucas vezes isso hoje é lembrado. O que vemos é uma discussão do grupo do PT, o que é normal, porque é Bolsa Família, é Bolsa Família, é Bolsa Família. É normal! E um grupo do PSDB querendo lembrar: “Não! Mas foi a Cidadania, não sei o quê, não sei o quê”. A origem foi no gabinete de V. Exª.

            O Sr. Eduardo Suplicy (Bloco/PT - SP) - Se me permite o Senador Leomar Quintanilha mais uma palavra para mostrar ainda para onde vamos. Eu gostaria até de convidar V. Exª para participar do 13º Congresso Internacional da Rede Mundial da Renda Básica. O Professor Philippe Van Parijs, Claus Offe, Robert Van der Veen, Guy Standing, Lena Lavinas, Fábio D. Waltenberg, Celia Lessa Kerstenetzk, Ana Fonseca, Marcelo Nery e tantos outros, os mais importantes valores que têm pensado sobre os programas de transferência de renda estarão presentes na Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo. É a primeira vez nas Américas que haverá um congresso sobre a renda básica universal como um direito de todos participarem da riqueza da Nação. E V. Exª ali compreenderá por que os filósofos que criaram a Bien (Basic Income Earth Network) consideram que o grande avanço da humanidade no século XIX foi a abolição da escravidão e no século XX foi o sufrágio universal. No século XXI, será a renda básica como um direito de toda e qualquer pessoa participar da riqueza da Nação como direito à cidadania, o que poderá iniciar-se em Caxias do Sul. Muito obrigado.

            O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS) - Muito obrigado. Senador.

            O Sr. Leomar Quintanilha (PMDB - TO) - Senador Pedro Simon, o pronunciamento de V. Exª tem abordado assuntos os mais diversos e importantes. E eu queria me ater exatamente ao momento em que V. Exª aborda a questão da educação e exalta a qualidade da educação pública hoje praticada em Caxias do Sul. Eu gostaria de imaginar que não fosse uma ilha de exceção e que a grande maioria dos Municípios Brasileiros tivessem essa condição de realizar a educação nos níveis em que Caxias está realizando. Mas eu gostaria de comparar com o meu Estado, onde a realidade é bem distante, as dificuldades são enormes. V. Exª sabe, eu passei agora alguns meses à frente da Pasta da Educação e me aproximei mais ainda dessa realidade. Pude constatar que o Tocantins avançou muito. Hoje nós conseguimos elevar o piso salarial do professor do Tocantins aos primeiros salários do Brasil. É uma comemoração ainda pela metade, porque o Brasil é um País que precisa acordar para esta categoria profissional importante que é o professor. O professor é profissional de primeira grandeza, o professor é profissional top de linha. Não é de primeira grandeza o engenheiro, o médico, o cientista. Até para ser engenheiro, médico, cientista, dentista todos eles passaram pelo banco do professor. E o Brasil, se quiser, um dia, crescer mesmo tem que discutir com mais profundidade, com mais amplitude a educação. Nós conseguimos ampliar o piso do salário dos professores do Tocantins. Mas, diferente de Caxias, que paga o dobro do que o Estado paga, lá no Tocantins os nossos Municípios, via de regra, pagam menos da metade do que o Estado está pagando. E aí eu fico imaginando. A própria Constituição distribui a responsabilidade da aplicação do ensino fundamental quer para o Município, quer para ao Estado. Ambos podem aplicar o ensino fundamental, e lá no Tocantins acontece exatamente na metade. O meu Estado aplica o ensino fundamental na mesma quantidade de alunos que os Municípios aplicam, com o salário do professor com menos da metade, com as condições dos Municípios, que estão de pires na mão. Os Municípios não estão em condições de construir uma escola adequada e de pagar um salário adequado; seguramente não terão um resultado educacional adequado, e na fase primordial da educação, que é a fundamental, é no começo da vida. Nesse momento, Senador Pedro Simon, em que o nosso Partido, o PMDB, está apresentando para debate dentro da sua Bancada uma sugestão de proposta de governo à candidata que vamos apoiar, que é a ex-Ministra Dilma Roussef, o PMDB vai apresentar uma proposta e sugestão para incorporar-se à proposta que a candidata certamente vai apresentar ao País. Eu olhei rapidamente a questão relacionada à educação. Acho que Caxias do Sul, Município importante do Estado que V. Exª, com raro brilho, representa nesta Casa, pode efetivamente participar desse debate e dar uma contribuição para que a sugestão do PMDB possa efetivamente ser positiva, contributiva; sugestão que venha a elevar a qualidade e a condição da educação em nosso País. Há países que já estão universalizando o terceiro grau. Nós mal conseguimos universalizar o ensino fundamental. Então, ainda estamos muito distantes de uma educação adequada. E, se nós queremos ter uma educação adequada, precisamos, primeiramente, aprimorar o mais importante agente da educação, que é o professor, a começar pelo seu salário, a começar pelo seu treinamento; a estipular a meritocracia como uma condição sine qua non para que ele cresça na sua própria carreira. Eu só queria fazer esta observação, ao lembrar o pronunciamento que V. Exª faz, sobretudo ressaltando a qualidade, a boa qualidade do ensino em Caxias do Sul.

            O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS) - Agradeço o aparte. Vejo que foi importante a passagem de V. Exª pela Secretaria do Governo de Tocantins. Às vezes, é importante a gente botar a mão na massa, porque uma coisa é nós estarmos aqui discutindo como é e como não é, outra coisa é V. Exª estar lá tendo que responder ao Município, querer dar e não ter dinheiro para dar.

            Mas eu encerro, Sr. Presidente! Eu encerro. Como é grande a tolerância de V. Exª, Sr. Presidente. Eu agradeço muito, muito mesmo!

            Eu encerro, dizendo que me emociono ao falar da minha terra, Caxias do Sul, porque eu sou fruto daquela cidade. Por mais que eu louve aquela gente, seu espírito de luta, sua capacidade de trabalho, sua dedicação, seu sentimento de religiosidade, jamais eu pagarei o débito que tenho para com aquela gente, que me ajudou a forjar o meu caráter.

            Hoje, aos 80 anos, sou um caxiense que tenho a suprema felicidade de saudar os 100 anos de vida de Caxias do Sul. Existe uma única diferença entre eu e a cidade de Caxias: sinto que estou no crepúsculo da minha vida, e Caxias está na alvorada de sua existência. Mas ainda que haja diferença quantitativa no tempo - eu, de alguns dias, alguns meses, e Caxias, o infinito -, na qualidade, no amor e na fé somos absolutamente iguais.

            Obrigado, Sr. Presidente.


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